RLZ 17

Editorial

Há números que dão sequência a uma série e há números que fazem uma parada para que algo novo possa começar. Este número 17 da Revista Livro Zero é do segundo tipo. Com ele, a revista interrompe o fio das edições anteriores para inaugurar uma nova série: a partir de agora, os textos passam por um processo editorial, e a revista ganha um formato digital, mais acessível à leitura e mais aberto à circulação.

Sabemos, com a psicanálise, que um momento de concluir pode abrir outro tempo. O trabalho editorial não pretende uniformizar estilos nem apagar o que cada texto tem de singular; pretende cuidar da leitura e dar ao escrito condições de chegar ao leitor. O formato digital responde a uma aposta que atravessa esta edição de ponta a ponta: a de que a transmissão da psicanálise depende de que os textos circulem, passem de mão em mão, sejam lidos, discutidos e relançados.

Os vinte e três textos aqui reunidos nasceram de convites feitos a autores que apresentaram seus trabalhos ao longo de 2025, em atividades do nosso Fórum: nos laços epistêmicos, nas atividades preparatórias do XIII Encontro Internacional da IF-EPFCL, com o tema “A ética da psicanálise e as outras”, realizado em São Paulo em julho de 2026, e nos eventos preparatórios de outros dois encontros: o XXV Encontro Nacional da EPFCL-Brasil, em Maceió, com o tema “A formação do analista: urgência de nossa época”, e o VI Simpósio Interamericano, em Buenos Aires, com o tema “O analista e o clínico”. Treze deles são de membros do Fórum do Campo Lacaniano de São Paulo; dez são de colegas de outros países que estiveram conosco nesses eventos. Entre uns e outros, a leitura foi desenhando diálogos que não estavam previstos, e foi a partir deles que organizamos o número em quatro partes.

A primeira parte, “A ética e as outras”, toma o tema do Encontro ao pé da letra. Luciana Guarreschi lembra que houve quem perguntasse por que não apenas “A ética da psicanálise”, e é justamente no “e as outras” que ela encontra seu ponto de partida: se a ética é relativa ao discurso, a “ética do solteirão”, com que Lacan qualifica a moral kantiana em Televisão, é a do discurso do mestre e de sua versão capitalista. SidiAskofaré distingue a ética da psicanálise de sua política: uma não se subordina à outra, e a tarefa política da psicanálise resta, talvez, ainda por definir. Alejandro Rostagnotto, que debateu com ele, vai das paixões trágicas de Antígona às paixões alegres e pergunta se a alegria seria um afeto próprio do fim de análise. Patrick Barillot relê a última lição do Seminário 7, com seus paradoxos e sua pergunta sobre o que dará “o livro” quando tiver sido inteiramente comido, questão que a era da inteligência artificial torna mais premente. Beatriz Oliveira retoma a mesma lição para devolver ao analista a pergunta “Agiste conforme o desejo que te habita?”, acompanhando a passagem da ética do desejo à ética do bem-dizer. Com Sandra Berta e, de novo, Patrick Barillot, entra em cena o Seminário 20: um amor ético, que deixa entre-dito as falhas do saber, e o gozo da mulher, que vai além daquele que imagina ser o seu deus.

A segunda parte acompanha o que vai do ato ao fim de uma análise. Dominique Touchon Fingermann propõe inverter o enunciado que lhe foi dado: é a ética da psicanálise que produz, eventualmente, a destituição subjetiva, e não o contrário. Maria Célia Delgado de Carvalho situa no ato psicanalítico, sustentado na transferência, o giro de discurso do qual a destituição decorre. Patrick Barillot, a partir dos testemunhos de passe, pensa o fim da análise como um vaivém entre fantasma e sintoma, que não produz sujeitos padronizados, mas soluções singulares.

A terceira parte reúne textos sobre formação, Escola e urgências. Christian Ingo Lenz Dunker lê, nas duas versões da Proposição de 1967, os sentidos da garantia e a distribuição das funções de AME e AE, e pergunta o que significa ser responsável pelo progresso da Escola. Glaucia Nagem de Souza parte da experiência de supervisão no atendimento de urgências subjetivas durante a pandemia para localizar a urgência que interessa à psicanálise: a formação do analista. Tatiana Assadi toma a afirmação de Lacan, em 1973, de que nunca falou de formação analítica, mas de formações do inconsciente, para pensar o analista que se autoriza de si mesmo, e não sem os outros. Daniella Ferri faz da supervisão um laboratório onde se pode isolar a função do objeto ae pensar o que, em outro lugar, é impensável. Fecham a parte dois textos que conversam entre si: Maria Claudia Formigoni pergunta que lugar tem o infantil na formação do analista, e Marie-José Latour, convidada pela Rede de Pesquisa Psicanálise e Infância, mostra que não é o infans que chega à linguagem, mas a linguagem que chega a ele.

A última parte é dedicada ao passe e ao testemunho. Leonardo Assis lê o passe com os versos de “Construção”, de Chico Buarque, como a anatomia de uma queda. Em conversa com ele, Dominique Marin percorre as referências de Lacan a Beckett até o saber ser um resíduo, próprio da passagem a analista. Adriana Grosman faz ressoar na ética a tiquê e pergunta como uma análise pode ser “bem notada”; Ana Paula Pires, a partir de sua experiência como passadora, descreve a gramática do passe e a ética de “colher nessa falha a articulação que falta”. Nicolas Bendrihen, que ocupou todos os lugares do dispositivo, lembra, com o jardim de Ryoan-ji, que há sempre uma pedra que escapa ao olhar. Dominique Marin retoma o Seminário 24 e o saber fazer com o sintoma para pensar a responsabilidade do AME e a experiência do CIG. Encerra o número o testemunho de Isabela Ledo como AE: a partir de “O recado do morro”, de Guimarães Rosa, o passe aparece como um recado que não tem dono e que, às vezes, pode fazer Escola.

Agradecemos aos autores, que aceitaram nosso convite, e aos tradutores que tornaram possível a presença dos colegas estrangeiros nesta edição: Clary Khalifeh, Eveline Hauck, Leonardo Assis, Luciana Guarreschi, Maria Claudia Formigoni, Maria Laura Cury Silvestre, Tatiana Assadi e Viviana Venosa.

Isabela Ledo lembra que o recado, diferentemente da mensagem, não pertence a ninguém: passa por muitos, se deforma, ganha e perde sentido pelo caminho, e é assim que segue viagem. Que esta nova série da Revista Livro Zero também possa circular desse modo: passando de um a outro, sujeita às deformações e aos novos sentidos que o percurso produz. Convidamos vocês a ler, discutir e fazer passar adiante.

Boa leitura!

Samantha Abuleac
Coordenadora da Comissão de Publicação 2025–2026