Tatiana Assadi
Recém-chegada de Pompeia, busquei os rastros de Gradiva incansavelmente. Acreditei na fantasia/delírio de Hanold pelas tintas de Jensen e, no meio dos escombros, me debrucei em tocar pistas que meus olhos não alcançavam. Foi assim que comecei a garatujar as primeiras palavras para esta escrivinhação. Uma busca frenética por referências, uma leitura contínua e rabiscos ininterruptos faziam-me dar volteios e mais re-volteios em mim mesma. Conhecem aquela história do cachorro que se revira tentando pegar o próprio rabo?
Pois bem, foi assim que me vi diante do olhar melancólico de Zoe e da paixão desenfreada do arqueólogo, desvendando um enigma que ele mesmo produziu. Buscar rastros labirintou meus ouvidos e me vertiginou.
Naquele instante em que me defrontei com a procura de algo que não sabia o que era, nem por que o fazia, decidi parar, esvaziar e deixar que os sedimentos se decantassem para que eu recolhesse o que me marcou, o que restou em mim pela experiência.
Lembrei-me de uma afirmação de Lacan (1973), que esteve presente durante meus estudos por alguns anos. Não cheguei a nenhuma conclusão, mas a trago para tecer pequenos comentários do que venho investigando:
Eis o que obtenho após ter proposto esta experiência (o passe). Obtenho algo que, justamente, não é absolutamente da ordem do discurso do mestre, nem do magistério, ainda bem menos alguma coisa que partiria da ideia de formação; eu falei das formações do inconsciente (…): nunca falei da formação analítica. Eu falei de formação do inconsciente. Não há formação analítica, mas, da análise, emerge uma experiência que é erroneamente qualificada como didática. Não é a experiência que é didática (…), por que creem vocês que eu tentei apagar por completo este termo, didática, e que falei de psicanálise pura? (…) Isso não impede uma análise de ser didática, mas o didatismo da coisa, eis como melhor o situamos: dei-lhes uma lição sobre ele no ano passado, sobre o que está em jogo na chamada experiência interrogativa em relação ao animal. Colocamos, como vocês sabem, diversos animais em pequenos labirintos. (…) O que fazemos? Nós os ensinamos a aprender. (…) Assim, vendo as coisas por este ângulo, após uma experiência analítica que implica certamente a conquista de um saber, do que se pode abordar deste saber que está ali antes de o sabermos, a saber, o inconsciente (…). É neste sentido, e somente neste sentido, que uma análise é didática.
Este recorte de uma intervenção de Lacan sobre a experiência do passe, feita no Congresso da Escola Freudiana de Paris, em Grande-Motte, em 1973, coloca questões fundamentais para pensarmos o tema do Encontro Nacional de 2025 – EPFCL-Br, que ocorreu em outubro, em Maceió.
Deparar-se com uma afirmação como essa foi um soco no estômago para quem estava desavisado do que está sendo produzido e tracejado por Lacan. Como é que ele nunca falou em formação analítica? Seria possível apontar passagens dos Seminários 1, 3, 5, 7, 15, dos Escritos, dos Outros Escritos e de tantos outros textos em que essa formulação aparece. No entanto, ao trazer a orientação da sua Escola — o passe —, ele diz que o que há são formações do inconsciente.
Parece bastante interessante essa aposta e a retomada de Lacan no Unbewusste freudiano. Diante de tantos atravessamentos, questionamentos e subversões que o passe recebeu desde 1967 — formalizado na Proposição—, retomar os princípios balizadores do que sustenta uma análise é de extrema sabedoria. Em outras palavras, estar às voltas constantemente com o tema da transmissão em psicanálise e sua presença extensiva é retomar sua intensionalidade, seus princípios e suas entradas.
Aliás, foi essa a abertura com a qual Freud se deparou ao escutar os pacientes que estavam diante dele. No gesto contínuo de autorização da associação livre, as produções inconscientes pululavam e sua formalização foi inevitável.
Os tropeços presentes nessas associações diziam mais daqueles que lhe falavam do que os seus blábláblás rotineiros. Os sonhos, os chistes, os sintomas e os atos falhos traziam o sujeito para os escancaramentos dos divãs. Para que se escapasse de um caráter hermenêutico do inconsciente, foi preciso escutar desde as cenas de sedução até as cenas primitivas, para que Freud reconhecesse que havia no saber inconsciente uma fresta, um furo que, de algum modo, sem o nomear, reconhecia a ascendência do Simbólico sobre o Real — evidentemente, sem deixar de lado o Imaginário. Estas consistências são nomeadas por Lacan, contudo, podem ser reconhecidas desde Freud. Para que haja formação do inconsciente é necessário topar com a aposta de formar seu inconsciente, de se de-formar por ele — como tão bem nos ensina Dominique Fingermann (2016) —, de topar com o insabido que sabe.
Quando Lacan menciona essa premência do inconsciente sobre o analítico, ele está recuperando o formar-se a partir do próprio inconsciente. Inclusive, em sua Proposição (1967), na segunda versão, ele apresenta que há uma certa facilidade de os analistas serem convidados a saírem do seu percurso, ou melhor dizendo, a escaparem da sua função. Aqui é lançado um convite para que cada analista encontre sua formação na sua experiência de divã.
Cursos acadêmicos, universitários e diplomas oferecidos para compor uma graduação em psicanálise não são mais do que informativos teóricos, como foi muito bem discutido no Movimento Articulação de Entidades de Psicanálise (2025) — que vem apresentando e problematizando as solicitações ab-SURDAS da proposta de uma graduação em psicanálise. Informação não tem o mesmo caráter que formação em psicanálise — lugar em que, nos seus fins e confins, um psicanalisante passa a ser psicanalista, transforma-se em psicanalista.
Em suma, topar com o inconsciente é, no cerne, topar com suas formações e, mais ainda, com o real em jogo numa análise. É enfrentar o sentido, Unbewusste e seu esvaziamento, l’une bévue. A formação a que Lacan se refere é a retomada da radicalização freudiana da invenção do inconsciente e segue para além do que ele mesmo inventou ao se deparar com o objeto a.
Não há formação analítica fora do divã! No entanto, a formação não se dá apenas no divã. Isso fica bem explicitado na Nota Italiana de 1973 (Lacan, 2003):
(…) pois afirmei, por outro lado, que é do não-todo que depende o analista. Não-todo ser falante pode autorizar-se a produzir um analista. Prova disso é que a análise é necessária para tanto, mas não é suficiente. Somente o analista, ou seja, não qualquer um, autoriza-se apenas de si mesmo (…).
A partir disso, convido-os a uma passagem tímida, a um breve trânsito pelo Seminário, livro 15: o ato analítico. Vale rememorar que, em seu Ensino, Lacan acabara de fundar sua Escola e, em 1967, apresentou sua Proposição, que teve desdobramentos não tão eficazes como imaginado e produziu alguns ruídos. Até essa data, ele trazia o desejo do analista vinculado, inclusive, à proposta de formação. Com o Seminário do Ato houve, metonimicamente, um deslizamento da noção de desejo do analista para a do ato analítico.
Explico: na Proposição encontramos formulado o matema da transferência, que se apresenta como um lampejo. Não o reencontraremos nos demais Escritos, Lacan não retorna a ele. De alguma maneira é como se ele estivesse sustentando demonstrar algo do que acontece com o analisando, por um lado. E, por outro, buscando uma formalização do que se passa também com o analista. Afinal, havia instituído sua Escola e precisou de ancoragens para suportar sua proposta. Transferência de um lado e desejo do analista do outro — assim o construiu —, mas se embaraçou, tropeçou tentando mostrar algo que não se manteve: um matema que não se transmitiu.
O Seminário do Ato (15 de novembro de 1967), acaba ecoando imediatamente como uma resposta perguntante tanto à Proposição de 9 de outubro de 1967, sobre o psicanalista da Escola, quanto ao seu Ato de Fundação da EFP (21 de junho de 1964). Este último funciona como uma ruptura, uma inauguração, uma abertura — trazendo o cartel e o passe como cernes do essencial para o “fazer-se” psicanalista. Sua Escola se orienta pelo passe e abre as portas pelo cartel. Trazer estas duas propostas é demonstrar a transformação de analisante em analista; é dizer que a formação não é um título recebido ou reconhecido, mas um efeito da análise e um encontro com os dispositivos. É-feito de atravessamento da fantasia e confronto com o real, que são os dois pontos presentes nesse lugar de se formar através do próprio inconsciente.
Uma das apostas mais certeiras de Lacan — e, simultaneamente, mais discutidas — é a de que o psicanalista se autoriza de si mesmo (1967); todavia, sem se “autorritualizar” (1973 — Nota Italiana), e não sem os outros (1974 — “Les non-dupes errent”. Autorizar-se de si mesmo, L’analyste ne s’autorise que de lui-même, é uma expressão francesa que significa amparar-se, valer-se de. Lê-se, então, que a tônica recai sobre valer-se do próprio inconsciente. Tornar-se analista, produzir essa passagem de analisante para analista, é valer-se do próprio inconsciente, amparar-se dele em sua dupla face: Unbewusste e l’une bévue. Esse formar-se propõe um diálogo com a formação analítica. E o Seminário do Ato é menos uma resposta do que uma pergunta contínua a esse tema.
Na aula de 6 de dezembro de 1967, Lacan (p. 65) trata do fazer do analisando, é justamente nessa aula que ele troca esse termo por outro: de analisando para analisante. Justifica-o pelo fato de que o analisante é um termo ativo, é aquele que faz, quem produz e trabalha, quem propõe, pela associação livre, os tropeços, os atos sintomáticos, os atos de fala, os atos que falham, os atos falhos. O analisante é aquele que faz, é o sujeito fazente.
O ato é condição para a ocorrência da análise, que versa sobre a experiência do analista e seus efeitos de real, os quais produzem sua destituição (des-ser). Dessa forma, do lado do analista, só é possível ocupar esse lugar se vivida e enfrentada a experiência de destituir-se para suportar o lugar de objeto para o analisante.
É fazendo que o analisante se modifica, se transforma, se produz e se autoriza. É através de algo que toca o objeto — e que Lacan elogia na proposta winnicottiana — que o sujeito se torna humano. Hu-Mano (main): em outras palavras, algo feito pelas mãos, um artesão das próprias palavras em seus feitos. O analisante faz, movimenta-se, usa suas mãos para tecer as palavras e recolocá-las em seu percurso. O psicanalista, por sua vez, diz Lacan (2003, p. 260): “(…) daquele que recebeu a chave do mundo na fenda da impúbere, o psicanalista não mais tem que esperar um olhar, mas se vê tornar-se uma voz”. E se torna por um ato (Lacan, 1967-1968): “Do outro lado, o ato psicanalítico designa uma forma, um envelope, uma estrutura tal que, de algum modo, ele suspende tudo o que até então tenha sido instituído, formulado, produzido como o estatuto do ato, à sua própria lei”.
Autorizo-me, em uma licença poética, a dizer que, a partir dessa leitura é possível pensar a formação analítica — aquela que não há, a não ser a partir da formação do inconsciente — como uma form-ATO analítica, e não simplesmente uma forma-ação. Essa form-ATO é revirante, é singular, é solitária. Ocorre pela análise, não sem as leituras e enfrentamentos teórico-clínicos, não sem a supervisão, não sem os outros — e repito: não sem os outros.
Há outros, e constantemente nos colocamos diante do não saber e no lugar do analisante para poder nos perguntar. Afinal, não é essa a diferença que Lacan demonstra quando propõe o seu Ensino? O Ensino é esse lugar em que há pergunta, há falhas e faltas. “Que a Escola pode garantir a relação do analista com a formação que ela dispensa, portanto, está estabelecido” (LACAN, 1967. p. 249).
Retomo, para encaminhar uma finalização desta fala-escrita, com tintas quase apagadas — tintas em que o estatuto da perda é sua mola propulsora —, e acrescento uma segunda paragem no texto lacaniano para provocar cada um de vocês e, mais ainda, a mim mesma, a pensar no tema do nosso Encontro Nacional. Ao “eu não falei de formação analítica” — espero que tenha ficado, ao menos, questionada essa construção de 1973 de Lacan — e acrescento: a psicanálise é intransmissível; conforme a passagem de Lacan (Lettres d’École, 1978):
Tal qual eu consigo pensá-la agora, a psicanálise é intransmissível. É bem incômodo. É bem incômodo que cada analista seja forçado — já que é mesmo preciso que ele seja forçado — a reinventar a psicanálise. Se eu disse em Lille que o passe havia me decepcionado, é mesmo por isso, pelo fato de que é preciso que cada psicanalista reinvente, a partir do que ele conseguiu pelo fato de ter sido psicanalisante por um tempo, que cada analista reinvente o modo pelo qual a psicanálise pode durar.
Atentemo-nos ao fato de que, mais uma vez, é falando do passe que Lacan está se perguntando, seja pela questão da formação analítica ou pela transmissibilidade da psicanálise (1978). Embora o tema não seja novo — surge no seu Ato de Fundação (1964): “(…) a psicanálise não se transmite senão de um sujeito a outro por vias que não são as da comunicação de saber(…)” —, é em outubro, em Deauville (França), durante a conclusão de uma jornada sobre a Transmissão que sua afirmação se presentifica e nos faz pensar sobre qual é o lugar do psicanalista, em sua form-ATO, e como conseguir que a psicanálise esteja presente no mundo diante de sua intransmissibilidade.
Cada qual escuta com seu ouvido e a partir de suas próprias experiências não é uma justificativa verossímil para se recorrer diante desse impossível. Há um duplo questionamento: por uma via, sobre o endereçamento da mensagem; por outra, pelo pronunciamento — por quem e como a constrói.
No endereçamento do sujeito ao Outro um laço é construído, mas a intenção não é equivalente à recepção: os ouvidos são moucos porque não há proporcionalidade, e sempre há mal-entendidos: “(…) na linguagem, nossa mensagem nos vem do Outro e, para enunciá-lo até o fim: é de forma invertida” (LACAN, 1998).
A relação do sujeito com o Outro é mediada pelos objetos pulsionais que atravessam o corpo em um movimento reflexivo. Desse modo, o que vem de fora se mostra como dentro e o que está dentro parece vir de fora. É pela passagem pelo corpo, pelas inversões, pelas torções, pelos orifícios, que essa mensagem vai se transformando, perdendo-se e modificando-se ao longo do seu enunciado. Não há proporção, assim como não há relação/proporção sexual. Como lidar com este impossível?
Tomemos a via do pronunciamento. O que se pronuncia ao emitir uma mensagem?
Retomo, mais uma vez, a questão do Ensino, tão precisamente demonstrada em todo o percurso lacaniano. Não há teses (1967, p. 63), dogmas fechados, potes hermeticamente lacrados — o que encontramos na psicanálise, nessa orientação, nessa Escola, são antíteses: um lugar em que a teoria não se ancora como fixidez, fixação. No Ensino, é preciso colocar algo de si, algo da própria queda, introduzir uma falha, visto que aquilo que se pronuncia é algo que atravessou o sujeito, que o cortou, que o transformou, que o colocou diante do Real.
O Ensino de Lacan diz respeito a um corte, a uma ruptura, a uma quebra desconcertante. Não à toa, ele dizia: “Faço constantemente o passe em meus seminários”. Como analisante ele se colocava, deixando que algo o interpretasse em sua função-poema, sem recuar diante de seus próprios horrores.
O que se transmite no impossível da transmissão é justamente essa ressonância que produz o falasser a partir dos toques de real. O que se transmite é, ao mesmo tempo, o objeto que corta e o que é cortante; o que se transmite é o que cada qual inventa do incognoscível do inconsciente que formou em si — seu form-ATO. O que se transmite é a ruptura com a ortodoxia sem abandonar as origens, mas pondo de lado as tradições. O que faz passar é o que, inapreensível e incalculável, decantou de um processo analítico — algo do objeto a. Em outras palavras, o que se transmite é a invenção que cada qual produz para poder sustentar a psicanálise, e isso somente é possível pela via do estilo.
Concluo dizendo que a transmissão não existe a priori; somente no depois, nachträglich, é que sabemos sobre ela — se é que ocorreu. É isso que verificamos no passe. Então, form-ATO do analista tem a ver com ruptura e com invenção.
Referências
FINGERMANN, D. A (de) formação do psicanalista. São Paulo: Escuta, 2016.
FREUD, S. Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen (1907 [1906]). In: FREUD, Sigmund. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 9. p.13-97.
LACAN, J. (2 novembre 1973). Lettres de l’École Freudienne, Paris, n. 15, p. 69-80, 1974. [Tradução nossa].
________. Sobre a transmissão. Lettres de l’École Freudienne de Paris, Paris, n. 25, 1978. [Tradução nossa].
________. Abertura da coletânea (1966). In: Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. p. 9.
________. Ato de fundação (1964). In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. p. 235-247.
________. Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. p. 248-264.
________. Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola [1ª versão de 1964]. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. p. 570-590.
________. Nota italiana (1973). In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. p. 311-315.
________. Intervention au Congrès de l’École Freudienne de Paris à La Grande-Motte, 1973. p. 1-7.
________. O Seminário, livro 15: o ato psicanalítico (1967-1968). Porto Alegre: Escola de Estudos Psicanalíticos, [s.d.]. Transcrição não oficial sob coordenação de Mario Fleig, 2001. p. 63.
________. Os não-tolos erram / Os nomes do pai (1973-1974). Tradução e organização de Frederico Denez e Gustavo Volaco. Porto Alegre: [s.n.], 2018. p. 189.
Movimento articulação das Entidades Psicanalíticas Brasileiras. Instagram: @movimentoarticulacao.

