Glaucia Nagem de Souza
O que se pode extrair como urgência para psicanálise? No auge da pandemia — momento em que se destacava uma urgência mundial e todos estavam sob a espada de um vírus que jogava com a sorte —, vários grupos de psicanalistas se organizaram para atender aqueles que estavam em confinamento. No entanto, no trabalho realizado pela Rede Clínica dos Fóruns do Campo Lacaniano (FCL-SP) junto ao Dispositivo de Atendimento de Urgências Subjetivas (DAUS), onde atuei como supervisora, o que se destacava na maioria dos casos escutados pelo meu grupo de supervisão não era a predominância do tema pandêmico. Embora o luto e as perdas fossem frequentes, passadas as primeiras sessões, as questões subjetivas singulares se sobrepunham a qualquer outra.
Podemos pensar que a urgência subjetiva se mostra a cada sessão. Lacan, em seu texto Do sujeito enfim em questão, afirma que:
Agora, pelo menos, podemos contentar-nos com a ideia de que, enquanto perdurar um vestígio do que instauramos, haverá psicanalistas para responder a certas urgências subjetivas, ainda que qualificá-los com o artigo definitivo fosse dizer demais, ou, mais ainda, desejar demais.
As urgências subjetivas são do campo mais singular, posto que dizem respeito ao “sujeito em questão”. Um analista pode escutar essas urgências no que cada um lhe diz sobre aquilo que angustia. Aquilo que Lacan responde tão bem à Françoise Douto, de que “a angústia de castração é um fio que perfura todas as etapas do desenvolvimento”. Podemos ampliar: é esse fio que perfura e que faz cada um se dirigir a uma análise.
Lacan aborda a urgência ao tratar do terceiro tempo lógico, afirmando que: “Eis aí a asserção sobre si, pela qual o sujeito conclui um movimento lógico na decisão de um juízo. O próprio retorno do movimento de compreender (…) se apresenta logicamente como a urgência do momento de concluir”. A urgência sendo parte do movimento para o momento de concluir o tempo de compreender, comporta em si o movimento lógico no qual o sujeito precipita simultaneamente seu juízo e sua saída, no sentido sair “de cabeça”, dando a modulação em que a tensão do tempo se inverte na tendência ao ato que evidencia aos outros que o sujeito concluiu. A conclusão, portanto, dá-se não como efeito de uma pressa, mas do tempo lógico da urgência.
A esse texto inaugural, acrescento o que está no Prefácio à edição inglesa do seminário 11, guardada uma distância de duas décadas entre eles. No texto O Tempo Lógico, Lacan localiza a urgência do momento de concluir como esse terceiro tempo que pode situar-se na saída de um tratamento — o que não é muito diferente do que ele propõe no Prefácio ao situar a urgência no campo da formação do analista em sua própria análise. Ele apresenta a análise como sendo o campo da formação do analista e pergunta: “Como pode ocorrer-lhe a ideia de tomar lugar nessa função (de analista)?”. E indica, em seguida, que há uma satisfação que marca o fim da análise e que a urgência é essa satisfação: “que a análise preside, interroguemos como pode alguém se dedicar a satisfazer esses casos de urgência”.
Essa pergunta sobre qual analista se dedica a conduzir essas análises que se direcionam para a passagem do analisante à função de analista nos interessa de perto no que tange ao tema de nosso XXV Encontro Nacional da EPFCL-Brasil: “A formação do analista: urgência de nossa época”.
A análise tem uma orientação para o fim. É a aposta de Lacan para o fim da série levada à sério — como ele joga em vários momentos. O passe é o dispositivo que prova essa urgência da formação, escutada no testemunho de alguns que se dispõem a entrar nele, pois não é para todos. O ‘não ser para todos” é a marcação de que não se apresenta ao passe por pressão, por obrigação ou por momento de “carreira”. O passe é esse lugar de pôr à prova o que do analista foi possível de ser escutado no testemunho do passador.
A formação do analista, a partir de sua análise, vem a ser a urgência que interessa à psicanálise. É pela formação que o lugar do analista como pessoa conta menos do que sua escuta e orientação ética. O analista é representado por Magritte como um sujeito que, no lugar do rosto, tem o céu ou uma gaiola com pássaros e a porta aberta. Essa é uma representação que nos é cara. Não é o que é visto nem no analista nem no analisando que vai sustentar uma análise. O que se vê no analista é parte de um primeiro tempo imaginário da transferência; se esta não avançar para além desse registro, não sustentará uma análise levada ao desejo do analista, mas sim ao ideal do ser analista.

O terapeuta – René Magritte

O terapeuta – René Magritte 1937
A transferência é também estruturada em Real, Simbólico e Imaginário. Com a lógica nodal, os elementos conceituais da psicanálise podem ser pensados a partir da relação desses três registros. Muito se diz da transferência como sendo do campo do simbólico, mas as análises nos dão notícias de que o real e imaginário estão ali também. É esse aspecto que nos faz ter muito cuidado com a transferência daqueles que dirigimos em uma análise.
Em um dos relatos de passe de Adriana Grossman, ela conta um episódio do fim de sua análise quando ela “vê” a cara de sua analista. Essas irrupções do real não são incomuns de se escutar em relatos do fim da análise. Em minha própria experiência de fim de análise, vi o nome de minha analista estampado no título do jornal. Ao olhar a manchete, li: “Ilustre Sílmia”. Olhei novamente, pois sabia que o nome dela não poderia estar ali; olhei de novo e li: “Ilustríssima”. Um evento real no campo da transferência que, no meu caso, aconteceu pouco tempo antes do fim. Hoje, compreendo esse equívoco de leitura como uma última elevação da transferência, para que, logo em seguida, ela pudesse cair.
O campo imaginário da transferência é importante, mas não é o que sustenta. Assim como no amor, não amamos o todo do parceiro amoroso; também na transferência não amamos tudo do analista. É um traço que se destaca e se engata para que uma análise possa seguir, o que Lacan nomeia como um “significante qualquer”. Em minha experiência clínica, destaco uma cena na qual a analisante, frente a um objeto do meu consultório, afirmou: “Só uma analista que tem isso na estante poderia ser minha analista.” É um traço, um troço de nada que acontece e passa. O analista precisa estar advertido que isso não é tudo; isso não garante que uma análise siga. Esse traço não é controlável, assim como o amor, ele é contingencial. Precisamos apostar em um passo além desse “primeiro amor”.
E, por fim, há o campo Simbólico da transferência. Encontramo-lo no escrito Observação sobre o relatório de Daniel Lagache, quando Lacan localiza o analista no lugar do grande Outro, atrás do espelho plano. O grande Outro como funciona essa bateria de significantes que, na transferência, são os do próprio analisante. Proponho que a neutralidade da transferência está aí: na neutralidade dos significantes do analista. Em algum lugar, Lacan comenta que não vemos a cor da gravata de nossos analisandos. Isso é crucial se pensarmos que não é naquilo que vemos que temos que intervir, mas naquilo que está sob os ditos. É preciso escutar o que o sujeito tem a dizer da cor de sua gravata, sem ter ideias preconcebidas do que essas cores representam.
A urgência da nossa época, como psicanalistas, é a nossa formação. E essa formação comporta estarmos atentos ao que se diz no mundo, ao que se constrói. Outro dia, conversávamos entre amigos e uma pergunta me chamou a atenção: a psicanálise conversa com a literatura, a linguística, a filosofia, a matemática… por que não ler e conversar com a sociologia e a antropologia? Temos dois teóricos de base que não se furtavam a ler e a se informar sobre o que estava sendo produzido em suas respectivas épocas. Mas, quando Lacan lê e se utiliza dessas várias ciências, ele não se torna um linguista ou um filósofo. Tampouco nos cabe nos tornar sociólogos, filósofos ou linguistas, mas sim escutar o que eles estão pesquisando e extrair o que pode dialogar e fazer a psicanálise avançar.
Isso, em nossa formação, pode enriquecer nossos manejos e mesmo nos alertar sobre como a psicanálise pode entrar na conversa. Albert Nguyen trouxe uma articulação fundamental recentemente, em Fortaleza, ao ser questionado sobre o fato de o psicanalista ser convocado a falar sobre vários temas. Ele ponderou que o psicanalista não precisa responder pelo discurso da mestria, dando respostas a tudo, mas sim incluindo perguntas que possam manter o diálogo. Desse modo, a psicanálise pode se nutrir do que está ao seu redor e pode oferecer o que nossa formação nos traz de melhor: a posição advertida de que não há um “tudo-a-saber”, pois o não-todo, estruturalmente, está em todo canto.

