Luciana Guarreschi
Minha fala é breve porque, nessas preparatórias, trata-se de animar o tema colocando questões e caminhos possíveis que, com sorte, podem aguçar e entusiasmar os colegas para o XIII Encontro Internacional da IF-EPFCL, que ocorrerá em julho de 2026, em São Paulo.
Na discussão do tema durante a Assembleia de 2024, lembro-me de Bernard Nominé, nosso colega do Fórum França, perguntando por que não só “A ética da psicanálise?”. Por que tínhamos que colocar “e as outras” no tema do Encontro? Naquela ocasião concordei mentalmente com ele e pensei: talvez não precise, pois o que interessa é como estamos avançando na nossa ética. Nunca errei tão feio…
Foi só depois que a indicação de Lacan ecoou: “a ética é relativa ao discurso”. Foi a partir daí que pude escutar o “e as outras” que consta em nosso tema, pois se a ética é relativa ao discurso, temos ao menos 4 éticas distintas provenientes de cada discurso. Gostaria de falar um pouco de uma delas: a ética do solteirão. Lacan a desenvolve em Televisão — nesse momento ele está respondendo à questão kantiana: o que devo fazer? Ele então diz, resumidamente:
Bom, aí, sobre ‘O que devo fazer?‘, só posso retomar a pergunta e fazê-la para mim. É simples, ‘aquilo que faço’. Da minha prática extrair a ética do ‘dever bem-dizer‘. Atenção se acredita que em outros discursos ela possa prosperar, duvido. Pois a ética é relativa ao discurso. A ideia kantiana da máxima a ser colocada à prova da universalidade de sua aplicação, é apenas uma careta da qual o real escapole, por ser tomado de um só lado. Estou falando do lado ‘homem’ de Kant. É uma ‘ética de solteirão‘ na verdade. E que meu amigo Claude Lévi-Strauss estruture com ela seu discurso de recepção na Academia, se for a sua vontade, dado que, afinal, o imortal só tem de cutucar a verdade.
É denso. Mas um bom começo é retornar a pergunta para nós mesmos: o que devemos fazer? O que deve fazer um analista? E ainda, o que norteia nossa prática, nossas respostas de analista para cada um dos que vêm se escutar? Como estar na via ética da psicanálise e não em outra? Lacan ajuda, cito-o: “(…) o passo decisivo que nos difere das outras terapêuticas — poderíamos dizer outros discursos — é que consideramos o paciente um sujeito falante como tal que, e seja qual for sua posição, está tomado exatamente como nós nas consequências e nos riscos da relação com a fala”.
Como é, então, que nos prestamos a analisar alguém estando no mesmo risco? Algum tipo de deformidade deve nos ocorrer para que isso seja possível. Deformidade que não acabará com esses riscos, tarefa impossível, mas que nos coloca em uma outra posição em relação ao imprevisível que a fala presentifica. Tal deformidade é resultado de uma análise levada ao seu fim e comporta o nascimento de um desejo inédito, insólito, dito de analista, que nos coloca não a fugir dos riscos da fala, mas em posição de assinar embaixo deles.
A cada sessão recebemos pacientes conflitados com a voz imperativa do supereu, uma culpa avassaladora e o pouco de liberdade deixada à força do desejo — embaraços que não estão desconectados do laço social, dos discursos em que nossa ética não pode prosperar. Seja em Freud, que acreditava que através da psicanálise pode-se levar a vida um pouco além das hipocrisias e das inibições; seja em Lacan, com o seu “não ceder sobre seu desejo” ou sua ética do “dever bem dizer” — o apelo é à dimensão social, ao coletivo.
Dito de outra maneira: como é que a psicanálise, que se aprofundou no universo da falta pode encontrar suas ações, suas respostas que não na moralidade ordinária? A moralidade ordinária, comum, primeira, é a kantiana. Kant almejava construir uma lei moral universal, baseada na razão pura, essa voz interna do indivíduo, apoiada no dever, na atitude correta a ser tomada através da crítica da razão prática e seu imperativo categórico. Isso pressupõe a autonomia da vontade do indivíduo, como ser capaz de tomar as decisões morais por si só e não através de um outro — seja de Deus ou do soberano. Mas qual a autonomia possível para nosso sujeito?
A concepção lacaniana de sujeito — dividido, evanescente, singular — cria um curto-circuito no quesito da ética, pois a razão desde Freud é outra. Retomando Televisão, fica claro que nossa prática não pode ser baseada no “mundo estruturado à maneira de Kant”. O que é esse mundo? É o do universal, o lado todo das fórmulas da sexuação, que é apenas “uma careta pela qual o real cai fora”. Está aí uma outra resposta ao “que devo eu fazer?” sendo analista: evocar o real, não deixar que ele caia fora com algum tipo de promessa pastoral de felicidade, preservando a radicalidade da experiência analítica.
Com as fórmulas, a inexistência da relação sexual — enquanto impossibilidade de proporção sexual entre um homem e uma mulher, uma vez que “ele” — quem quer que seja ele — está em relação com o objeto a; e “ela” — quem quer que seja ela — está ora em relação com o falo, ora em relação com o significante do Outro barrado — ganha maior destaque. Não há relação sexual, pois, são dois regimes de existência distintos, duas maneiras distintas de habitar a linguagem e ocupar-se do gozo. O que está em jogo, então, é a não relação entre o universal do conjunto e sua pretensão de forjar um saber que seria bom para todo mundo; e a existência do singular e sua resistência em se inscrever sob a forma de um saber.
O que nos sobra, então? Ao negar o universal aristotélico do lado feminino, Lacan deixa o mundo estruturado à maneira de Kant apenas no lado todo, embora elas estejam submetidas — e, geralmente, muito mal submetidas — ao lado todo. A questão é que a dimensão fálica não cobre toda manifestação pulsional do lado das mulheres, quem quer que sejam “elas”. É verdade que tudo que é analisável é sexual, mas isso não significa que tudo que é sexual seja acessível à análise — essa é outra dificuldade em que estamos envolvidos, pois alguma coisa resta de inacessível. Que posição nos concerne perante isso? Ou ainda: que ética perante esse inacessível?
Lacan insiste na tese de que todas as necessidades do ser falante são contaminadas por uma outra satisfação que não é identificável pelos universais do bem, do verdadeiro, do belo — que é tudo que se sustenta como laço social, como discurso. É assim que essa outra satisfação, o gozo, é aparelhado. Não se trata de um desenvolvimento da mestria, m’être, ou seja, da mestria do ser e, por conseguinte, mestre do universo. É ao elevar, manter, sublinhar esse malogro do universal que poderá surgir, na experiência analítica, um outro modo ético de existir.
Assim, nem à moda do solteirão kantiano, nem à elaboração não-toda — mas o ato analítico de manter o malogro —, é isso que nos sobra. Dever bem-dizer, diz Lacan, prática que só o discurso do analista faria prosperar, é contrária à existência de um suposto dizer todo. Ora, o dizer é aquilo que, para cada um ou cada uma, fracassa em se inscrever como dito. O dizer é o que não é dito — mas não o que não é dito porque simplesmente faltam palavras ou poderia ser dito se não houvesse inibição, sintoma ou angústia. O dizer é a maneira de ocupar-se com o que não pode ser dito e que nunca será, que estruturalmente é impossível de dizer, de ser colocado em ditos. O analista se ocupa disso.
Lacan coloca Kant operando desde o Discurso do Mestre e sua versão moderna e piorada o Discurso do Capitalista, a ética do solteirão fazendo chacota ao tomar o Outro em sua verdadeira face, como o Outro sexo, mas apenas para dele tomar distância — todo e qualquer recurso para colocar o gozo do corpo fora do jogo, ainda que isso fracasse, pois “o sujeito casado com seu iPhone não deixará de tropeçar em sua falta”. Longe de um celibatário stricto sensu, no qual o parceiro está excluído, ele está casado com o gozo do órgão ou, ainda, com o Um fálico, rechaçando o lado não-todo.
Satisfeito com seus gadgets, a ética do solteirão contorna a castração encontrando nesses objetos o falo como objeto. Esta é a verdade que só é “cutucada”, à distância, pelo imortal: a verdade da castração, do 1 que não alcança o 2, do desencontro do gozo fálico com o Outro gozo — diferentes nuances de se referir ao impossível. Mas o Discurso do Analista inclui o outro lado, pois computa o significante da falta no lugar do Outro — S (A barrado). Aparelhando o gozo do sujeito — que está fixado em encontrar o falo como objeto — via discurso analítico, o analista faz o que deve ser feito: interroga como saber o que é da verdade.
Diferentemente de ter o S1, o significante mestre, no lugar de semblante a ditar uma moral, no Discurso do Analista é o objeto a que estará nesse lugar para “substituir toda a noção de objeto enquanto suportado por um sujeito, pois esta não é uma relação dita de conhecimento” e para “afirmar que nada da ordem do saber existe sem produzi-lo”. Qual o efeito disso para o que nos interessa? Nas incontáveis e insuportáveis voltas de uma análise, o fracasso insistente efetivado pelo analista que não cessa de evocar o real produz um saber sobre esse mesmo fracasso, descontinuando uma verdade que adoraria se enunciar toda num fechamento de sentido, mas dando chance ao bem-dizer.
Lacan postulou a ética do solteirão para o Discurso do Mestre, mas quanto aos outros discursos — da histérica e do universitário —, que éticas portariam? Talvez precisemos saber um pouco mais sobre elas, já que não alcançamos o Discurso do Analista sem passar por esses discursos. Finalizo deixando essa questão para animar os colegas.

