Adriana Grosman
A Ti-quê – termo que Lacan toma emprestado de Aristóteles na busca por sua pesquisa da causa – foi traduzida por ele como o encontro do real. Trata-se de uma repetição que está para além do autômaton, e que, assim, traz a é-tique no seu bojo, como uma saliência. Esse termo ressalta a diferença da ética da psicanálise, na qual, “nenhuma práxis, mais do que a analise, é orientada para aquilo que, no coração da experiência, é o núcleo do real” e na qual ocorre “um encontro essencial, que se trata do que a psicanálise descobriu – de um encontro marcado, ao qual somos sempre chamados, com um real que escapole”. Isso traz também, por consequência, o problema de saber disso que escapole.
Como alcançar o tropeção – função da tiquê, do real como encontro –, se este é sempre faltoso? Isso põe à prova o analista que, para saber algo disso e levar outras análises adiante, deve passar por sua própria formação de analista, a qual se dá essencialmente no divã.
O analista é aquele que se pôs à prova, pela estruturação do que ocorreu em sua própria análise, para depois poder conduzir uma cura, movido pelo desejo que foi produzido ali. Lacan diz: “O passe, alguém dá o passo de ocupá-lo”; e destaca, “entendam bem: para operar nele como quem o ocupa, embora, dessa operação, não saiba coisa alguma, senão a que, na sua experiência, ela reduziu o ocupante”.
Seguindo ess a mesma lógica, o analista opera como um agente duplo: é aquele que conduz a cura e, em um segundo tempo, interroga o seu próprio ato para construir a teoria. Esta, portanto, não está pronta, é o que chamamos a práxis da teoria, a ética do analista, como sublinhou Colette Soler em sua conferência em Valência ao se referir ao Lacan de 1964 e à sua doutrina da cura analítica.
Um tratamento analítico produz algo peculiar: um ato e, com ele, a passagem de analisante a analista. O passo leva o sujeito, se assim ele o desejar, ao passe, para falar de seu percurso a dois passadores que transmitem essa experiência para o cartel do passe. Esse dispositivo cria algo nada linear. Nele, uma análise pode ser notada, justamente, pelo furo no saber, lá onde saber: bem ali onde saber e verdade pareceriam se encontrar, surge o desencontro. Trata-se de um desencontro que marca também a separação da transferência, produzindo um afeto chamado satisfação – o que parece um contrassenso. Esse afeto enigmático do fim de análise, ligado ao furo no saber, nos interessa para pensar como uma experiência que produz um analista pode ser “bem notada” e, assim, transmitida no passe.
O ‘bem notado’, do mesmo modo que o afeto, aponta para uma impotência do simbólico; assim, “o bem dizer não diz onde está o bem”. Não se trata, tampouco, de fazer o bem, mas de algo da boa hora, do encontro. Um momento diferente no tempo dos encontros que acontecem de forma contingente – daqueles que puderam ouvir e dizer algo daquilo que escutaram, no sentido do ato, do real e desse inaudito que passa de alguma forma. Equivocar o bem é uma tentativa de passar do equívoco da linguagem a algo mais, que não conseguimos dizer ou mesmo fazer bem, distanciando-se completamente da mera execução de uma tarefa.
O trabalho de uma análise, diferente de outros tratamentos, exige o tempo do se fazer, conta com o erro e é uma experiência tão singular que dizemos que o que se apreende nela não se apreende em nenhum outro lugar. O mesmo se diz do passe. Desde o tempo do se fazer na análise até o ato de autorizar-se analista, há ainda o tempo do sorteio dos passadores, o tempo do encontro com eles, o tempo do dizer e o da disposição do cartel. Ou seja, são vários tempos para o bem-dizer, ou para boa hora (bon heur).
Em um certo tempo do encontro analítico, ali onde antes havia repetição, surge o encontro com esse traço único e principal, procurado na relação com o Outro. Trata-se desse alguém em si, “único em resposta à alteridade radical do Outro, que o deixa totalmente só. É ali que o sujeito se encontra, onde ele não se procurava, já que estava em busca de sua verdade perdida”.
Então, quando o sujeito encontra com algo de si, não precisa mais do Outro, já que sabe que esse Outro não vai responder e, ainda mais, que não terá dele a resposta esperada e, assim, se percebe só. A partir daí é preciso dar um passo, tomar uma decisão, já que, nesse momento, perde-se a esperança da chave da verdade. Não interessa para onde se vá ou quantas voltas mais se dê, não chegará a ela; por outro lado, chega-se, dessa forma, a um lugar.
Trata-se do lugar de descoberta de um novo saber e, ao sabê-lo, o sujeito se satisfaz! Isso provoca um desequilíbrio para aquele que esteve sempre apoiado no Outro, mesmo que isso fosse uma mentira. Lacan, no Prefácio à Edição Inglesa do Seminário 11, propõe: “a miragem da verdade, da qual só se pode esperar a mentira (é a isso que se chama resistência, em termos polidos), e não tem outro limite senão a satisfação que marca o fim da análise”. E, logo em seguida, “dar esta satisfação é a urgência que a análise preside”. Urgência que não está relacionada ao tempo, no sentido da pressa, nem ao terapêutico, no sentido de tratar o sintoma, não se trata disso.
E do que se trata então? Lacan, nesse texto, refere-se a Freud como o solitário, o que deu o exemplo; e, agora, nós praticamos aos pares, começamos uma relação a dois para chegar ao um, passando pelo labirinto amoroso. Lacan, ao finalizar o texto, acrescenta sua posição de “ficar a par”, ou “fazer com eles par”, e reafirma que analisante e analista estão engajados em uma análise e necessitam saber separar-se, essa é a urgência que a análise preside.
O par com o analista sustentou a urgência de voltar à sessão, sessão após sessão, para tomar a palavra. Izcovitch chama a atenção para isso e para a importante distinção entre palavra e linguagem que move uma análise. É do dizer que se trata. A linguagem nos leva para esse mundo impregnado da função do ser, ponto trabalhado por Lacan no Seminário 20, no qual afirma: “do ser, nós não temos nada, nunca”.O ser sempre se apresenta senão como ‘pare-ser’, assim como o amor opera como suplência à relação sexual que não existe. É importante ressaltar esses pontos para chamar a atenção para esse par da transferência, em que o sujeito se satisfaz na fala dirigida ao Outro que parece saber. O sujeito, tropeçando na própria fala, retoma o seu privilégio do dizer sobre o dito; do dito produz-se gozo, tanto pelo efeito de significado quanto pela insistência significante.
A linguagem leva à miragem da verdade. Ao tentar dar sentido, o sujeito se confunde, misturando amor e gozo, sexo e amor, e até sexo com reprodução quando o discurso do mestre se impõe. “Mas será que a linguagem tem outros efeitos, além de levar as pessoas, pelo cabresto, a se reproduzirem ainda?”, pergunta-se Lacan. Ele avança indicando outro caminho, articula desejo e gozo em relação à ética da psicanálise e aos quatros discursos, vinculando-os ao dito e ao dizer em uma referência essencial à letra.
O escrito tem, portanto, outro efeito, em que o que se escreve é a letra, o singular de cada um que se escreve em uma análise. O escrito não é para ser compreendido, ele deixa aparecer essa barra entre o significado e o significante, que é criado pelo próprio discurso. Assim, o significado é efeito do significante e traz a barra no sentido, ou seja, não dá para ler tudo, há algo que fica sempre de fora, passagem importante, portanto, do “já sei” para o “não saber” entre cada letra, um não saber ler.
Sendo a ssim, o ponto de partida está no efeito do que é do significante: uma construção imaginária que persiste em alcançar o todo, até que essa ilusão possa ser abandonada. “O sujeito volta para responder ao chamado do analista ‘você não disse o bastante’, até o “satis!”. Satis é o prefixo que exprime a ideia de bastante, de suficiente. O “já basta” para o sujeito refere-se, aqui, à urgência da vida, momento em que surge esse afeto de fim inédito, resultado de uma operação sobre o sintoma. “De fato, pode-se dizer que a satisfação ao final mudou de valor. Antes e até que haja final, ela era satisfação encontrada no dar sentido e o tornar verdadeiro. Enquanto a satisfação de fim testemunha que um termo foi posto aos amores com a verdade”.
Algo acontece numa análise e, por mais que se inicie o trabalho sem saber até onde o sujeito vai, a ‘mágica’ – quando “bem” realizada – produz um golpe de vista que o deixa de olhos e boca abertos. A surpresa, se bem manejada, quebra algo de uma crença, de uma certeza, justamente porque a verdade falta no momento de compreender, pelo próprio efeito de não entendimento. By chance, “só temos escolha entre enfrentar a verdade ou ridicularizar o nosso saber”; assim, do ato não podemos compreender, assemelhando-se até à ‘mágica da virada’.
Trata-se desse outro discurso, o discurso analítico, que interroga o sujeito sobre seu gozo, traz a impossibilidade da proporção sexual; demonstrando que é sempre ao que se enuncia como significante que é possível dar uma outra leitura, que não é o que ele significa. Cito Lacan:
(…) o que há no discurso analítico é que o sujeito, o sujeito do inconsciente, vocês o supõem, vocês supõem que ele saiba ler. Não é nada além disso, sua história inconsciente. É que não somente vocês supõem que ele saiba ler, mas supõe que ele possa aprender a ler. Só que o que vocês lhe ensinam a ler não tem absolutamente nada a ver, em caso algum, com o que vocês possam escrever dele. É isso.
Seria impossível fazer uma leitura do sujeito como se imagina e se espera do Outro ao iniciar uma análise, endereçando saber a ele. Nesse momento, sabe-se do Outro inalcançável, e eles se separam aí. Na verdade, essa oferta do saber sem sujeito está dada de saída para o analista, que conduz a análise e passou pelos efeitos do real e, assim, se coloca na transferência. O analista é investido como sujeito suposto saber, mas aí está a cilada, já que traz na oferta a promessa que conduz a separação.
Migdalek trata disso em seu livro Entre el amor y el tiempo, traçando um pecurso para pensar de que amor se trata para psicanálise. Ela chama a atenção para o fato de que, a partir dos seminários X e XXI, Lacan passa a se referir a uma coabitação de duas solidões neste processo – uma espécie de separados-juntos. A autora escreve sobre a importância de não pensarmos a transferência como um monopólio ou apenas a falha do SSS (Sujeito Suposta Saber), isso não é só transferência, não é só falso enlace, pois há uma satisfação substitutiva que muitas vezes persiste mesmo após a queda do analista enquanto objeto. A possibilidade de contar com as perdas na transferência permite vivenciá-la de outra forma; assim, Migdalek propõe a prova de amor como desfazimento, e não desfalecimento. Ou seja, propõe conservar algo do amor sem que o parceiro encarne a função que detinha até então. Sobra um resto, o objeto que resta vai pôr em causa esse que não há, esvazia-se. Sugere-se, então, o amor como gratidão por ter podido dizer: o analisante sabe que é ele quem encerra o processo, mas o analista o acompanhará até ali.
Sabem os dois, cada um a seu modo, algo sobre o momento do fim.
O passo dado pelo analisante vai do horror de saber ao se ver como resto, resto de uma operação. “Ele sabe ser um rebotalho, isso é o que o analista deve ao menos tê-lo feito sentir. Se ele não é levado ao entusiasmo, é bem possível que tenha havido análise, mas analista nenhuma chance”. Essa frase conhecida, mas também enigmática de Lacan, parece dizer desse desejo novo que nasce de tal instante, acompanhado pelos tons afetivos que lhe são próprios: a satisfação e o entusiasmo. É isso que faz a diferença, embora possa não acontecer, pois dependerá do acaso, bon heur ou da contingência.
A conversão desse horror em entusiasmo confere ao afeto uma nova função e dá suporte a esse desejo inédito, desejo do analista. Segundo Soler:
O entusiasmo é o afeto que lhe toma antes de uma transcendência que lhe ultrapassa e anula como sujeito, aqui certamente não divina. Então, de que esse afeto depende? Não da estrutura, mas de uma resposta do ser, imprevisível. Para outros, poderia ser resignação amorosa, até o mau humor, a cólera e até mesmo – por que não? Lacan observava, o ódio. É preciso justamente esse afeto de entusiasmo para sustentar o desejo do analista, pois é um desejo muito estranho que impele o outro, o analisando, a se chocar com o real que o ultrapassa e do qual ele não quer saber nada. Estranho amor ao próximo! Para que esse desejo não seja suspeito, é preciso, seguramente, que o analista esteja bastante seguro de que o benefício é possível no final. E de onde essa segurança pode vir, senão de sua própria experiência, com a condição de que ela lhe tenha demonstrado que a aflição transferencial é irredutível?
O desejo do analista é a operação de virada, um novo desejo e diferente do desejo de ser analista, este que não se aprende, portanto intransmissível. A experiência é necessária, em seu tempo, única e sem medida.
As necessidades corriqueiras da vida são muito difíceis de escapar, Lacan se refere aos “Universais: do Bem, do Verdadeiro, do Belo”, que se impõem ao sujeito que procura se satisfazer no laço social, que procura a palavra para agradar o outro, que se prende e sofre nesse caminho e, também derrapa. As falhas e faltas aparecem e o impedem o sujeito de avançar por essa via, a de alcançar os universais; o encontro é sem saída e a busca da ‘outra satisfação’ infinita. Mesmo que o blábláblá e a repetição não parem de insistir, a fala é, em uma análise dirigida, a um outro e por mais que se procure o ‘bem-dizer’, algo ainda lhe escapa.
Resulta daí que a análise inverte o princípio: percorre-se o que é do desejo – e justamente o não satisfeito –, o que não impede o sujeito de gozar com o deciframento. Entretanto, a análise leva o sujeito desta posição do ‘não quero saber nada disso’ para que possa se responsabilizar pela sua tristeza, mesmo com a impossibilidade de dizer sobre o objeto que falta. E é precisamente essa responsabilidade ética que lhe dá a possibilidade de avançar pelos significantes mestres, desfazendo os nós imaginários de sua tristeza, por onde pode se encontrar com o gozo de seu sintoma e abrir-se à contingência do real. Não chegará à verdade toda ou à beatitude, mas, certamente, a uma separação com o Outro e seu gozo. Soler afirma: “O bem dizer, que não é nem o ‘bem dito’ (bien dit) nem o ‘belo dito’ (beau dit), ‘satis-faz’ quando permite concluir com o impossível”. “Na medida que este saber se toca, se sabe, justamente que a verdade mente! E não há verdade que, …não minta!” – o que não impede que se corra atrás dela, emenda Lacan.
“Quando esp de um laps, o espaço de um lapso, já não tem nenhum impacto de sentido (ou interpretação), só então temos certeza de estar no inconsciente. O que se sabe, consigo”. Sabe-se algo do real – e que, portanto, não se conhece –, de modo que só se pode, com este, tentar demonstrá-lo.
Ir ao passe é um caminho ao dizer – não mais ao analista –, caso o sujeito assim o decidir, motivado pelo desejo de dizer desse ‘passe de mágica’ que é o giro de analisante a analista. Quando este giro é notado, um novo trabalho se inicia, e um paradoxo se coloca: como transmitir algo dessa experiência notável e tíquica?
Uma análise pode ser “bem” notada se aparecer algo do paradoxo. Trata-se de uma mudança importante no que concerne ao final de análise para a psicanálise, onde não se alcança a castração, senão a ‘satisfação da castração’. Um nome para o impossível dado por Nguyên, no seu lindo texto da Wunsch. Foi esse nome que me capturou e me fez inventar um primeiro título para esta fala, que era: ‘Uma análise (bem) notada’. Isso porque ele diz justamente que uma análise não acaba “bem”, como esperávamos; ela leva à intranquilidade e não ao saber Todo, mas também leva ao “há Um saber” que se destaca. Num segundo momento, avancei para um encontro com a é-tique, que me levou ao título atual, por onde pretendo concluir: uma análise que distorce a impotência (humana) ao permitir um fazer algo com isso (cuidar da vida), o que nenhum outro campo de trabalho permite. Um olhar para o sujeito com a mobilidade que nós, analistas, temos (ou podemos ter), apostando que, até mesmo naquele diante do desfiladeiro, algo ele pode escutar que o faça virar.
Que loucura! Bem notada!

