RLZ 17

Agiste conforme seu desejo… de analista?

Beatriz Oliveira

Para esta mesa sobre o tema do próximo Encontro Internacional, em que trataremos da Ética da Psicanálise, gostaria de trazer algumas questões que têm me acompanhado desde que, na leitura do Seminário XX, Encore, me deparei com o fato de Lacan retomar a questão sobre a Ética da Psicanálise. 

Se a Ética é correlativa ao que se pretende com uma ação, ao julgamento de uma ação, podemos deduzir disso que a Ética da Psicanálise trata da ação do psicanalista na condução de uma psicanálise. Ora, o que orienta um psicanalista não é justamente conduzir uma análise ao seu fim? O que seria, então, visar o final de uma análise? Que o sujeito possa não só atravessar a fantasia, mas topar com a inexistência do Outro e, diante disso, ter uma outra relação com o Real e com seu modo de gozo. Qual seria, então, o “bem” que o analista estaria fazendo? Esse “bem” ao qual me refiro remete à discussão que Lacan faz com a Ética Aristotélica, que visaria o “bem supremo”: a felicidade. 

Minha proposta é a de que as formulações sobre a Ética do desejo, embora necessárias, não sejam suficientes para que o analista oriente uma análise para além do campo do desejo. Nesse sentido, as formulações sobre o gozo, a partir dos anos 70, permitiram a Lacan avançar em relação à questão da Ética e, portanto, à direção de uma análise, pois entendo que a Ética da Psicanálise é indissociável da direção de sua práxis.

Vamos, então, por partes.

O Desejo do psicanalista é correlativo à Ética do Desejo?

É interessante acompanharmos esse percurso de Lacan em busca de especificar o que seria o desejo do psicanalista. Quando formula pela primeira vez esse termo no Seminário 6 e trata da questão do desejo, Lacan não tinha ainda pensado o objeto a como causa do desejo. No entanto, desde o início, ele já diferenciava o desejo enquanto desejo do Outro do que seria o desejo do psicanalista, o qual deveria oferecer o vazio como resposta ao amor de transferência.

Nos últimos capítulos do Seminário 7, sobre a Ética da psicanálise, Lacan havia acabado de escrever seu texto sobre a Direção da Cura; portanto, essas lições do seminário trazem várias questões que ele também desenvolve naquele texto. É muito clara sua crítica às propostas de final de análise pautadas em uma harmonia do “objeto genital” como ideal, ou da “concordância com a realidade” — propostas estas moralizantes, na medida em que visam um certo bem: “Constituir-se como garante de que o sujeito possa encontrar seu bem, mesmo na análise, é uma espécie de trapaça”. Se, por um lado, os analisantes demandam encontrar a felicidade, nós, analistas abordamos as coisas num nível diferente quando estamos longe de toda e qualquer formulação de uma disciplina de felicidade. “Não somente o que se lhe demanda (ao analista), o Bem supremo, é claro que ele (o analista) não o tem, como sabe que não existe. Ter levado uma análise a seu termo nada mais é do que ter encontrado esse limite onde toda a problemática do desejo se coloca”.

O campo do desejo diz respeito ao sujeito do significante e, justamente por isso, trata-se da falta-a-ser do sujeito, desse lugar que ex-siste ao significante, o que leva Lacan a afirmar que a função do desejo deve permanecer em uma relação fundamental com a morte. Por isso ele buscou a tragédia grega para demonstrar essa relação com o desejo, qual seja, essa dimensão trágica da vida que implicou a entrada do sujeito no suporte do significante. 

É interessante que, nesse momento de seu ensino, Lacan ainda não havia “atravessado o rochedo da castração”, na medida em que, apesar de questionar o final de análise proposto pela escola inglesa de psicanálise, bem como a questão das análises intermináveis, ainda não tinha avançado sobre a questão do objeto a, o gozo e o Real, que lhe permitiram propor o final de análise e da ética da psicanálise mais além da questão do desejo. No entanto, desde aqui ele já tem essa dimensão da radicalidade da inexistência do Outro como sendo aquilo com que o sujeito tem que se haver ao final de uma análise. Não por acaso, Lacan faz referência ao desejo de Antígona como um desejo decidido, que não cede de seu desejo, pagando com sua própria morte.

Assim, Lacan dirá que é por sabermos melhor reconhecer a natureza do desejo que está no âmago da experiência da ação humana que uma revisão ética é possível, que um juízo ético é possível. E aí ele apresenta o juízo ético tão caro ao psicanalista: “Agiste conforme o desejo que te habita?”. 

O que ele nos apresenta aqui em relação ao desejo do psicanalista? E qual a diferença do desejo do analisante? Ele dirá que o que o analista tem a dar é seu desejo prevenido, advertido em relação ao impossível.  De onde opera o analista? Do lugar de semblante de “objeto a”. Ou seja, ali não há nada, a não ser o desejo decidido e advertido, justamente porque está orientado pelo “não há relação sexual”. É isso que o analista pode oferecer ao analisante. Lacan considera que o analista é aquele que já atravessou a fantasia, portanto está advertido dos efeitos de desconhecimento desta.

Qual seria, então, a Ética que sustenta o psicanalista em sua prática? Ou seja, qual o juízo em jogo na ação do psicanalista? Entendo que essa questão sobre ter agido conforme seu desejo não se aplica apenas ao analisante. Mas, principalmente, em relação ao psicanalista: é o que nos indagamos em nosso cotidiano. O que sustenta nossos atos, nossas interpretações, nossa posição diante de uma demanda? Quando nos deparamos com os impasses e com nossas resistências na clínica qual é nossa pergunta? 

A pergunta que eu me faço é: onde estou? O que estou sustentando? Aí localizo essa questão, se agi conforme o desejo do psicanalista, para me re-situar em relação à posição analítica. É por isso que não há como separar a questão do desejo do psicanalista de sua radical sustentação de um vazio nesse lugar de semblante do objeto causa do desejo do analisante. Isso é o que Lacan vai trabalhar no final do Seminário 11, que me parece fundamental: a passagem de analisante a analista. Sem as articulações sobre o objeto a, é difícil acompanhar os avanços de Lacan acerca da ética. A possibilidade de destituição subjetiva, com a queda dos ideais e do lugar do analista na transferência, será o que permitirá ao sujeito se deparar com a dimensão trágica da análise, em que ele topa com a necessidade de um ato separador. Essa mesma decisão ética que comparece no final de uma análise é o que sustentará o analista em seu desejo e seu ato ao longo da direção do tratamento.

Lacan avança, a partir dos anos 70, em relação ao final das análises ao considerar a questão dos modos de gozo. É nesse momento que ele abre para o campo do gozo, para além do desejo. Por isso se justificam as questões que coloquei no início do trabalho:

  1. O que muda no campo da Ética a partir das formulações sobre o gozo?
  2. Será que essas novas formulações sobre a Ética trazem modificações ao desejo do analista como operador de uma análise?

Como vimos, no Seminário 7 a questão do desejo estava diretamente articulada ao gozo impossível. É a partir dos anos 70 que Lacan irá formalizar um outro modo de relação ao gozo, que não está apenas negativado pela linguagem, pelo modo todo fálico, mas produzido pela própria linguagem, ainda que não abordável pelo aparelho da linguagem. Como, então, é possível repensar a questão da Ética a partir do gozo e não apenas do desejo? 

Lacan, em 1973 responde à pergunta kantiana “O que devo fazer?” dizendo: “A resposta é simples: extrair de minha prática a ética do Bem-Dizer”. Vejam que interessante, Lacan volta à questão do “Bem”, aqui articulado ao dizer. Dizer entendido como um ato que sustenta os ditos em uma análise.

Nos Seminários 19 e 20, Lacan busca formalizar esse outro modo de gozo não todo fálico — seja pela via da lógica ou pela via dos conjuntos abertos e fechados — para dar conta desse caráter do significante enquanto aquilo com que se goza. Ao falar, o sujeito põe esse gozo em exercício. Por isso o trabalho não será com a semântica, o sentido apenas, mas com os cortes e costuras, os equívocos que permitem novas significâncias e efeitos de significados desfazendo sintomas.

Não por acaso, Lacan trará a questão dos anagramas de Saussure, ele próprio está se perguntando a respeito do que se “lê em uma análise”. Aquilo que escutamos é da ordem de uma leitura daquilo que se escuta nos ditos: “Que se diga fica esquecido por trás do que se diz naquilo que se ouve”. Ou seja, o que escutamos pode evidenciar uma outra leitura, diferente daquilo que está dito. Ele dirá que um Real pode ser alcançado na medida em que, nesse exercício da substância gozante em uma análise, “surge um dizer que nem sempre chega a poder ex-sistir aos ditos, justamente por causa do que vem ao dito como consequência”.

Qual a diferença que essa abertura para um gozo não todo fálico traria em relação ao campo da Ética? Ora, se permanecêssemos atrelados apenas ao gozo do Um, da Universal de todos os falantes que gozam do sentido, não teríamos como encontrar um outro saber fazer com o gozo. Atravessar a fantasia nos permite ficar advertidos do engano desse lugar de objeto e nos depararmos com o furo no Outro — o horror de saber dessa inexistência do Outro. Mas o que poderíamos fazer além disso? Como sairíamos desse luto?

Na Nota aos Italianos Lacan dirá que só existe analista se o desejo de saber lhe advier — um desejo inédito, não mais encoberto pelo amor à verdade. Um desejo de saber que passou pela experiência desse horror de cernir o Real e nos lança no luto da radical destituição subjetiva diante da impossibilidade de fazer par com o Outro. Um só diante de seu passo de saída desse im-passe de uma análise.

Em que medida esse desejo inédito, desejo de saber se articula ao desejo do psicanalista? Para que o sujeito suporte que não haja relação sexual e saia da angústia que o furo nesse lugar do Outro implica, é preciso topar um saber sem sujeito que sustenta o ato do psicanalista, um saber no Real. No mesmo texto de 1973, Lacan dirá: “Naturalmente esse saber ainda nem foi para o forno. Porque é preciso inventá-lo”. Como inventá-lo? Diana Rabinovich dirá: “Inventar sob a forma do bem-dizer para o analisando, do um a um que cabe ao analista enfrentar a cada vez”.

Lacan associa a invenção ao conjunto aberto, não-todo, justamente ali onde situa também o objeto a e o gozo da mulher barrada, a contingência. Assim, parece que essa invenção de saber só pode acontecer quando uma análise conduz o sujeito a esse ponto: um Real do qual se extrai um desejo de saber inédito que, em alguns casos, leva ao desejo do psicanalista. 

Nesse sentido, entendo que não seja possível uma análise alcançar seu fim sem levar em conta o que cada analista fez de sua própria angústia diante da inexistência do Outro, ou do horror da solidão de seu próprio ato. É só quando “há do analista” que se suporta o “sentimento de risco absoluto” de uma análise. De outro modo, o Real presente no cotidiano da clínica se tornaria não só insuportável como insustentável. Operar com o desejo do analista é apostar que um dizer se apresente ali, justamente onde a experiência de anonimato se torna mais radical: na falta-a-ser. Sendo assim, as formulações sobre o gozo, longe de derrubarem o desejo do analista como um operador de uma análise, colocam ainda mais o analista confrontado com sua decisão ética de levar cada análise até o fim.

Como diz Colette Soler em sua apresentação do tema do próximo Encontro Internacional: 

Este desejo não é menos indizível do que qualquer outro, mas é um desejo de exceção, cujo conceito ainda não foi definido, porque, ao contrário do que vetoriza cada desejo individual, ele não é carregado nem pela cadeia significante de um eu, nem pelo objeto que ele engaja e, no entanto, é ele que provoca o desejo analisante.

Assim, as pistas desse desejo do analista ao longo de uma análise se apresentam justamente a cada vez que o sujeito precisa se confrontar com os tempos de destituição subjetiva, a cada vez que algo do Real se aproxima e diante do qual temos uma escolha ética a fazer: a solidão do ato ou a alienação ao Outro. Para isso, seria importante mais um passo: que o analisante consiga se deparar com sua posição de gozo e o modo como encobre o Real para que seu ato chegue ao final de uma análise. Talvez, assim, consiga resistir às armadilhas de um gozo unívoco que impera nos outros discursos e responder à questão ética que se impõe no dia a dia da clínica, para além de se autorizar: “Agiste conforme seu desejo… de analista?”.

  1.  LACAN, J. (1959-1960). O Seminário, livro7: a ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988. p. 364.
  2. Ibid., p. 359.
  3. Ibid., p. 376.
  4. Ibid., p. 376.
  5. Ibid., p. 360.
  6. LACAN, J. Televisão. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. p.539.
  7. Ibid., p. 448.
  8. Id., (1972-1973) Encore. Edição não comercial destinada exclusivamente aos membros da Escola da Letra Freudiana. Escola da Letra Freudiana: Rio de janeiro, 2010. p. 77.
  9. Id., Nota Italiana. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. p. 311-315.
  10. Idem, p. 315.
  11. RABINOVICH, D. O desejo do psicanalista: liberdade e determinação em psicanálise. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2000. p. 166.
  12. LACAN, J. (1975-1976) O Seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007. p.44.
  13. Disponível em: https://champlacanien.net/public/docu/4/rdv2026Argument.pdf