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Das paixões trágicas às paixões alegres. Um afeto próprio do final de análise?

Alejandro Rostagnotto

A relação dialética do desejo com a Lei faz nosso desejo arder senão numa relação com a Lei, pela qual ele se torna desejo de morte (…) Temos de explorar o que o ser humano foi capaz de elaborar que transgredisse essa Lei (…) e introduzisse, por cima da moral, uma erótica.

Jacques Lacan, O Seminário, livro 7: a ética da psicanálise, p. 104.

Falar da ética da psicanálise tem algo de paradoxal, na medida em que a própria psicanálise é uma ética particular surgida no final do século XIX. Entre a magia da palavra, a busca de ab-reação ou catarse e a aversão de Freud a ocupar o lugar do mestre hipnotizador, surge um tipo de laço social inédito que permitiu decifrar a enunciação inconsciente sob o termo desejo, apostando no ato de dizer. Não há uma posição ética exterior à psicanálise a partir da qual supervisioná-la: não há metalinguagem de sua ética.

Lacan destacou com muita força dois aspectos fundamentais na experiência analítica. No seminário A ética da psicanálise (1959-1960), com a Antígona de Sófocles, situou o momento preciso em que o desejo se torna visível – hímeros enarges – cujo brilho e fulgor permitiram situar o desejo fora da dialética das trocas, da moral e do bem. Mas esse mesmo esplendor é o último véu diante de das Ding: a luminosidade da beleza deslumbra, faz vacilar todo juízo crítico e detém a análise em uma cegueira essencial. Esse acontecer faz baixar o olhar diante de um real que interroga, que perturba: agiste conforme o desejo que te habita? O que orienta teu ato? Não obstante, sabemos que interrogar-se dista de responder. A pergunta pode ser universal, dirigida a cada um de nós, como na tragédia grega, mas a resposta é singular, ainda que contextualizada, histórica e situada no devir do analisante. Mas há algo mais: esse brilho trágico, enquanto ofusca, mantém velado o real que promete mostrar.

A ética do desejo culmina nesse deslumbramento, do qual será preciso separar-se para não ficar cativo da lei do desejo. Lacan aponta como a função do belo é velar o real, mantê-lo à distância; e é justamente a esse aspecto que a análise deve fazer frente. Se, na beleza, o olhar se depõe e o real se vela, no dizer, o real se toca.

Com Lacan destacamos assim uma ética do bem-dizer, também orientada ao real — mas de outro modo —, na medida em que interpela a responsabilidade analisante pela presença mesma do real na origem do discurso e do laço social. O dizer, como inferência intempestiva, situa-se fora da cadeia de sentidos, toca o real corporal, faz borda, cria um litoral ali onde só havia opacidade — das Dunkel — ou caos, no coração mesmo do Kern unseres Wesens, a amarra de nosso ser.

O dizer produz litoral; acontece. Não é fruto da exumação freudiana. É, antes, ato. É criacionista, intempestivo, cria critérios de legibilidade para si. Isso ocorre sem o apoio de um Outro que o garanta. Assim, o sujeito é, ao mesmo tempo, agente e efeito, e só a posteriori reconhece em si seus efeitos. Refiro-me aqui não apenas ao dizer interpretativo da análise — que pouco importa se o solta o analista ou o analisante — mas à ação decidida de exercer o imperativo da análise, “que se diga”, em seu caráter de ato. Um dizer situado, parido em corpo, que a posteriori nos permite aplicar novas chaves para nos lermos por fora do drama, da tragédia e, inclusive, da comédia. E esse dizer, ao fazer borda ao real do gozo, permite, se não uma linguagem própria, um estilo próprio, e — como a própria psicanálise em sua origem — inventa um laço social que antes não existia.

Vemos assim que o ato bem-sucedido da análise deve permitir não só a desmontagem da fantasia e a cifra do sintoma fundamental. Deve também poder oferecer a possibilidade sensível de um registro afetivo separado das paixões trágicas, das três paixões do ser — amor, ódio, ignorância — ou das vinculadas à falta-a-ser, como a inveja e o ciúme, mas também da tristitia covarde e da recusa frívola e maníaca do inconsciente e seus empuxos.

Esses elementos permitem conceber a ética que atravessa o campo lacaniano como uma ética orientada ao real, em continuidade direta com a torção inaugurada por Freud. O real freudiano se reconhece em sua dimensão energética, na exigência cega e transbordante do empuxo pulsional que demanda satisfação e insiste mais além de toda organização representacional. Esse núcleo pulsional constitui o ponto em que o afeto transborda, a representação se desfaz e o sujeito se vê convocado a um trabalho incessante. Ali se aloja a força que organiza os conflitos dinâmicos e, ao mesmo tempo, aquilo diante do qual o analisante é convocado a responder: pelo real de seu gozo e por sua própria posição diante dele. Nisso consiste a responsabilidade analisante.

A confrontação com esse real pulsional convoca uma responsabilidade singular. A análise introduz o sujeito numa zona em que a causa que o divide gera inquietação, e na qual a elucidação de tal causa se torna experiência do litoral de onde emerge a realidade psíquica. A fantasia intervém nesse cenário como dispositivo que promete estabilização, oferece tramas sedutoras, organiza sentidos e produz ilusões de compreensão que dão amparo, ainda que também fixem posições e encubram a opacidade da causa. Frente a essas estratégias, a responsabilidade analisante consiste em habitar a borda em que o empuxo pulsional se deixa entrever, sustentar a interrogação e permitir que a palavra configure novas possibilidades de existência, sem clausurar a dimensão enigmática do real atualizável que a sustenta.

Da ética das perguntas pelo desejo à ética das respostas diante do real opera-se uma mutação tal que insta o analisante a empurrar sua análise rumo ao final. Um final que inaugura novas vias para os afetos e para a leitura que o sujeito faz de si, como autolegibilidade adquirida. Se as marcas constitutivas não mudam, lê-las de outra maneira resulta numa interpretação em ato que inverte o vetor da análise. Se até então se lia o dizer esquecido por trás dos ditos — “Que se diga fica esquecido por trás do que se diz no que se ouve” — agora, um dizer novo — ex-sistencial, criador — engendra os ditos por vir. Já não um dizer que se extrai: um dizer que inventa.

Esse dizer é da ordem da poíēsis, da produção. É um trazer à presença o que não estava; não restitui nenhum sentido sepultado sob os ditos, mas faz advir uma legibilidade que antes não existia. E, ao inventar uma leitura própria das mesmas marcas, funda uma linguagem e um laço que antes não existiam.

Na medida em que uma interpretação justa levanta o sintoma, a verdade se especifica como poética e o horizonte é forjar um significante novo que, sem sentido, abra ao real. Se há um afeto próprio desse trazer à presença, é a alegria, afeto ligado ao novo que nasce. A poíesis do dizer e as paixões alegres são o mesmo acontecimento visto de dois ângulos distintos: como ato — invenção — e como corpo afetado.

Esse corpo afetado tem uma qualidade que chamamos alegria. Afeto do novo que nasce e, ao mesmo tempo, da separação consumada — do amo, do destino —, condensa em uma só tonalidade libidinal os dois tempos do final. E é, ademais, uma tonalidade tão indecidível quanto disponibilidade em potência: a libido, liberada de sua fixação, dispõe o parlêtre a encontros inéditos.

A alegria se torna “esse estado do qual é impossível decidir se celebra um reencontro ou comemora uma perda”. Separar-se do destino outorga uma liberdade orgulhosa de sua humildade, que goza do efêmero como revanche de sair da fixação. Abraça o acaso, que acode ao acontecer do contingente com avidez pelo novo. Entusiasmo sim, mas alegria também, como diz Dominique Fingermann: “Y a d’la joie [Há alegria], como quem diria Y a d’l’Un [Há um]”.

Dizer há alegria no sentido proposto por Fingermann —Y a d’la joie, comme on dirait Y a d’l’Un — permite situar a alegria na lógica do Yad’lun. Não é um estado, nem um afeto psicológico, nem um signo de harmonia interior, mas um acontecimento do dizer. Tal como Lacan formula il y a de l’Un como um surgimento contingente que só existe em ato — o Um acontece quando algo se diz —, a alegria aparece quando esse dizer produz uma marca que incide na vida afetiva. A alegria é assim o correlato sensível do traço do Um: emerge quando o sujeito registra que um ponto de real foi circunscrito e que essa circunscrição modifica seu modo de se afetar.

Esse há alegria responde, portanto, à mesma estrutura que o há Um. Ambos dependem do dizer; ambos são efeitos sem ontologia; ambos se produzem no instante em que a linguagem roça o real e deixa uma marca. A alegria, nesse sentido, não acalma nem resolve, mas indica uma variação na economia pulsional, uma redistribuição do gozo que torna habitável um terreno antes dominado pela compulsão ou pela opacidade. Compreendida assim, a alegria como acontecer é um afeto que se produz quando alojamos um Um-dizer na própria experiência da análise. Talvez essa felicidade surja justamente na zona onde o real, circunscrito pelo dizer, deixa de se apresentar como pura irrupção e passa a operar no campo do gozo.

Em sua sutileza, essa felicidade participa do matiz indecidível já assinalado: o sujeito reconhece que algo retorna — talvez um desejo, um gesto, um ritmo afetivo— e, ao mesmo tempo, que algo cai — uma fixação, uma certeza, uma escravidão da fantasia. A felicidade torna-se, então, a condição afetiva que acompanha o ato de separar-se do destino que fazia de obstáculo: uma liberdade que nasce não do domínio, mas do consentimento ao acontecimento.

Nesse ponto, a alegria e a felicidade se enlaçam com a ética do bem-dizer. Só um dizer que encontra seu ponto justo — nem saturado de sentido nem desviado para a significação — permite que o Um aconteça. Só esse acontecimento reorganiza a vida afetiva. A meta (Ziel) pulsional é a satisfação; a meta do ato, correlativamente, é o bem-dizer que satis-faz. O bem-dizer não consiste em falar bem, mas em dizer de tal modo que algo do real se escreva, e que essa escrita produza uma transformação. Por isso, quando Y a d’l’Un no dizer, Y a d’la joie no corpo. E quando essa alegria se torna um modo de viver o traço, então se pode afirmar que há felicidade: a afetividade que surge quando o sujeito pode habitar o real sem sucumbir a seu peso e sem ocultá-lo sob um sentido tranquilizador.

Quando o bem-dizer acontece, a paixão alegre o celebra como saldo positivo de um corpo eroticamente disponível. E essa celebração pede passagem. Como a faísca do Witz, algo desse dizer passa de um corpo a outro, afeta e contagia antes que a ratio delibere. Não desprezemos o gesto alegre de festejá-lo…

Tradução: Maria Claudia Formigoni