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A queda de um operário: poemática de passe

Leonardo Assis

“Amou daquela vez como se fosse a úl–ti–ma…”

“Construção”, do escritor Chico Buarque de Holanda, possui letra composta em versos dodecassílabos que sempre terminam em proparoxítonas. Em sua métrica, o autor se utiliza de sofisticados processos de construção poética com o objetivo de que a cadência tônica das palavras seja capaz de transmitir o seguinte acontecimento: a queda de um operário do alto de um edifício interrompe o automatismo da vida cotidiana. Essa ressonância serve para introduzir o que o dispositivo do passe procura cantar, desde seu compromisso em verificar a eficácia da experiência de uma análise em produzir um analista: na transposição da anatomia de uma queda, demonstrar sua estrutura, ou seja, sua lógica, seu efeito-poema e, sobretudo, sua dimensão ética.

I

“Subiu a construção como se fosse má-qui-na…”

É na última lição do seminário de 1975-76 que Lacan convoca os analistas a se interrogarem sobre o que significa escrever em psicanálise, posto que o discurso analítico é outra coisa que o discurso ordinário – “as pessoas escrevem suas recordações de infância. Isso tem consequências. É a passagem de uma escrita para outra escrita” (1975-76/2022). Não se trata, como ele demonstra ao longo de todo o seu ensino, de uma escrita que advenha do significante, mas de “demonstrar” a intrusão de uma escrita operada pelo ossobjeto, ou como ele bem formalizou, essa letra pequeno a.

Notemos como ele sofistica essa proposição na última lição do seminário seguinte, ao que podemos supor em relação à transposição que suporta o passe, de que não é possível escrever as memórias de uma análise – escrever que não há proporção sexual implica uma escrita que “não possui nenhuma diferença em relação às matemáticas, a saber isso que se opera a partir da lógica formal, a saber pela extração de um certo número de coisas que podemos definir, sobretudo por axiomas e que, por consequência, envolvem operações de extração de letras, pois é exatamente do que se trata, letras (1976-77).

Dito de outro modo, esse passo de escrita que convoca o litoral produzido por Lacan entre gozo, linguagem e sexuação comporta uma passagem entre isso que é da ordem da gramática e do dicionário – o inconsciente estruturado como uma linguagem – e “a função de lalíngua, útil para nós psicanalistas, pela sua relação com o inconsciente, nos termos da lógica” (1971, p. 19).

II

“E flutuou no ar como se fosse um pás-sa-ro…”

Desde aí, façamos um salto para a dedução de que uma psicanálise é uma experiência de destituição… Que quer dizer isso?

Foi de maneira igualmente simples, e breve, que Freud definiu o que costumava chamar por tarefa analítica: o estabelecimento, o desdobramento e a elaboração da transferência. No que toca à conclusão do desdobramento (ou à repetição das recordações), Lacan precisou que na análise da transferência a precipitação do ato analítico depende da extração da lógica da fantasia, ou seja, é necessário atravessá-la em uma trajetória pulsional irreversível, capaz de inserir no tempo e espaço um antes e um depois. Trata-se de uma destituição que Lacan formalizará de maneira peculiar na lição de 9 de abril de 1974, ao esclarecer o passe dos quatro discursos às fórmulas quânticas sexuação, quando substitui a variável x pela sua invenção, o objeto a.

Essa metamorfose pulsional, operação de queda e de inscrição como sujeito no real, funda uma prática autorizada pelo furo irremediável em que se sustentam as leis da linguagem e inaugura a abertura ao passe – passador é então o nome encontrado por Lacan para esse analisante que, desperto desde a infecção promovida pela transferência, faz-se pelo irreversível des-être que o desacorrenta das predicações que o discurso comum insiste em lhe conferir.

A entrada do sujeito no discurso analítico como objeto causa de desejo não encerra a cura, pas encore (não ainda), pois o trabalho de luto que esse analisante precisa empreender para liquidar a doença transferencial que o alfabetizou exige um outro passo, o de se interrogar e decidir se está disposto a tirar satisfação da função desse incalculável 1+a… Somente esse “letramento” poderá desligá-lo de sua análise ao atingir o solo de seu salto…

De volta ao esclarecimento ao leitor no Seminário Encore, introduzido pela Escola da Letra Freudiana, de que “o que se lê é da ordem da letra” e que o que “se dá a ler é o escrito que se decantou da palavra ouvida”, não temos como não reconhecer que Lacan era de fato um freudiano – uma escansão de “fazer-se poema” é que cada analista advém a partir de sua experiência pessoal com o inconsciente como um homem de letras…

A destituição de si-mesmo institui um corpo de texto efeito da eficácia da cura em produzir um giro na economia libidinal do sujeito, corpo politicamente incorreto que se enoda por outra língua, têxtil assoreado em seus buracos por um gozo que não fala pelos alfabetos do discurso comum, mas que, ao mesmo tempo, encontra nesse vocábulo estreito uma elucubração de saber a respeito disso que não obedece ao aparelhamento de gozo de qualquer discurso estabelecido.

Esse que faz em pessoa o dejeto é um bom leitor do que se escreve intelligere – sobre esse entre, Lacan apresenta em R.S.I (1974-75) que, para além das referências matemáticas no dizer de que qualquer abordagem do Real é tecida através do número, é possível deduzir sua prática, aquela do tentRISmo. Ao mesmo tempo que em sânscrito tantra pode ser traduzido por tecido ou tecer/urdir. Os tantras são também os nomes das 92 escrituras da filosofia hindu, cujos preceitos tomam o corpo como um texto: o tantra nada mais é do que o ato de amarrar saberes como se fossem fios/ligamentos em uma escrita ou prática passíveis de utilização de maneira ampla.

Letrado pelos saberes extraídos em seu próprio tratamento, esse que antes se autorizou pode agora testemunhar a contingência pela qual a escrita da sexuação efetua seu ingresso no discurso analítico, desde a causa de seu próprio desejo como orientador.

III

A travessia da rua é em passos tí-mi-dos, tijolo com tijolo num desenho má-gi-co… Tropeça-se no céu como um bê-ba-do e acaba-se no chão como um pacote flá-ci-do, na contramão atrapalhando o trá-fe-go…

Nesse momento de fim, o para sempre jovem analista pode decidir-se passante, enquanto efeito de escrita, tal como antecipa Marguerite Duras: “O corpo dos escritores participa de seus escritos. Os escritores provocam a sexualidade em seu entorno.” Pas en corps… com alguns outros…

Se Lacan apresenta em sua proposição de Escola o passe enquanto dispositivo, é no seminário sobre o ato psicanalítico que ele escande seus princípios po-éticos a partir desse provocador, o passsant, ao definir o sujeito do ato analítico como a causa de sua divisão ou “… aquele que, fantasmaticamente, joga a partida com o psicanalisando como sujeito suposto saber, a saber, o analista […] que vem, ao termo da análise, suportar a não ser nada mais que este resto. Esse resto da coisa sabida que se chama objeto a” (p. 89-90). Se há um saber que esse sujeito no real pode guardar desde sua experiência não é outro a não ser a operação da transferência e, justamente com esse saber, é que se passa. Notemos a brincadeira que Lacan efetua com “pas sans le savoir”: uma homofonia entre passant (passando o saber transferencial), pas sans (não sem saber) e pas sans (passo sem saber) – quer dizer, embora a certeza incerta do passante não seja da ordem do cálculo, sua aposta e decisão não se realizam sem um saber, não qualquer saber, mas esse de que não há ato psicanalítico sem a referência da transferência.

É a isso que Lacan chama de passe: quando restaura o sujeito suposto saber, o jovem analista alcança a tocha da psicanálise, ou seja, toma do analista a causa da psicanálise para si, mesmo sem saber – eis seu devido lugar, dejeto, letra caída… Ao contrário do passador, ainda nos mal-entendidos do sujeito suposto saber, o passante é esse quem declara (declaração: prova escrita) o compasso proparoxítono da queda de um operário do saber transferencial que extraiu de sua análise: estabelecimento, desdobramento e elaboração desde uma heteronímia, ou como bem precisou Octavio Paz, em uma assinatura fora-de-si,

A astúcia do homem é a de preencher tudo isso, tal como vos disse, com a poesia que se constitui como efeito de sentido, mas também efeito de furo. Nada mais do que poesia, tal como vos disse, que permite a interpretação, e é nada mais do que isso que alcanço em minha técnica, a isso que ela comporta: eu não sou suficientemente pouate, eu não sou ‘pouate o suficiente’. Voilà! (1976-77).

Através dos andaimes pingentes que temos que-ca-ir, amou daquela vez como se fosse o úl-ti-mo…

Referências

DURAS, Marguerite. (1987). La vie materielle. Gallimard Éditions, 2001. p. 87.

LACAN, J. (1967). O mal-entendido do sujeito suposto saber. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. p. 329-340.

________. (1967). Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. p. 248-264.

________. (1967- 1968). Le Séminaire, livre 15: l´acte psychanalytique. Éditions du Seuil et Le Champ Freudien Éditeur, 2024.

________. (1972-1973). O Seminário, livro 20: Encore. Edição não comercial destinada exclusivamente aos membros da Escola da Letra Freudiana, 2010.

________. (1973-1974). O Seminário, livro 21: os não-tolos erram. Inédito.

________. (1975-1976). O Seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.

________. (1975-1976). O Seminário, livro 22: R.S.I. Edição não comercial destinada exclusivamente aos membros da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano, 2022. p. 143.

________. (1976-1977). Le Séminaire, livre 24: l´insu que sait de l´une bévue s´aile à mourre. Staferla, inédito. p.73 – 76.