Sandra Berta
Introdução
Por que o amor no Seminário Encore? Por que o amor na psicanálise? O que o amor nos ensina da ética da psicanálise ou, do avesso, o que a ética da psicanálise nos ensina sobre o amor? Essa última pergunta é moebiana. Falar de amor, fazer amor, uma letra (carta) de amor. E o que eu chamo “a função” do amor em psicanálise, disso trata este pequeno texto.
Os amores correntes (como discurso-corrente) vão parar no pior, na maioria das vezes, porque são amores sempre narcísicos, mesmo sendo anaclíticos. Os amores se amarram ao ideal do eu ou do outro, tanto faz. Amores que fazem suplência ao impossível da relação. Digo isso como se diz na rua: passados os primeiros tempos, o amor-paixão vira e revira amor-impossível: de suportar, de acompanhar, de resignar. “O amor é lindo!” …. até a primeira página.
Nessa primeira página estão escritas as declarações de amor, os infortúnios do amor, os estragos do amor. Nessa primeira página o amor envelopa (borromeanamente) simbólica ou imaginariamente o real. Até que um corte nesses toros que se enlaçam borromeanamente vem mostrar que… não importa o que mostrem, o certo é que os afetos denunciam que nenhuma primeira página faz um livro. Afetos que respondem por isso: angústia e ódio, que vêm ler a primeira página de modo quase antagônico ao que nela se acreditava ter sido escrito.
Parece uma versão pessimista do amor. Mas não é isso! Porque, se no amor levamos em conta o impossível de amar o outro, temos alguma chance de amar. Se o amor vai além da sua dimensão narcísica, ele tem chance de fazer signo (como propõe Lacan em Encore) O amor faz signo da dit-mensão (dit-mansão) impossível do amor; do que vai além da mansão dos ditos do amor. Portanto, trata-se do que o amor pode escrever sobre o impossível: uma chance de se virar no amor e com o amor.
A ética da psicanálise incide no amor a partir de uma premissa: a de que o amor de transferência enlaça a questão de um (analisante) com a função do outro (analista). E, como em tantos outros capítulos da clínica psicanalítica (sobre o desejo, sobre o sintoma, etc.), a questão que se dá é: o que seria um amor ético? Certamente isso evoca um amor mais digno. O amor mais digno e um amor ético: é essa a minha proposta para este trabalho. Se em 2010 escrevi sobre o amor mais digno, quinze anos depois decido escrever sobre um amor ético. Isso se deve à minha pergunta: qual a ética da psicanálise a partir do Seminário Encore?
As coordenadas
Qual o novo aporte sobre a ética no Seminário Encore?
Lacan inicia esse Seminário referindo-se à ética. A questão está posta logo de saída: Qual é a ética da psicanálise? O que há de novo sobre a ética da psicanálise se podemos afirmar que existem diferenças entre a ética articulada pelas questões que se referem ao desejo e a ética articulada pelas questões que se referem ao gozo. Isso posto, vejamos o que disse Lacan: “Com o tempo, adquiri o hábito de perceber que, afinal de contas, eu podia dizer um pouco mais sobre aquilo (a ética). E depois, percebi que o que constituía meu caminhar era algo da ordem do “eu não quero saber disso”.
Do início até o final de Encore, Lacan se pergunta pelo saber, em psicanálise. Na última lição, ele o disse expressamente: “o ponto pivô do que eu enunciei este ano diz respeito ao saber”. Trata-se, em particular, do impossível de saber. É a isso que se refere “eu não quero saber disso”. Por isso Lacan avançará até afirmar: “o inconsciente não é que o ser pense […] o inconsciente é que o ser falando, goze […] e não queira saber nada disso”. Não há desejo de saber, apesar das afirmações freudianas. Não há desejo de saber sobre o impossível de saber. Nesse seminário isso se escreve S(Ⱥ).
A questão que tenho me colocado é, portanto: qual o saber que interessa à psicanálise? Qual é o saber que se escreve no lugar da verdade? O saber é esse impossível de saber. No lugar da verdade – no discurso do analista –, escreve-se (Obrigada, Christrian Fierens!) S2 (saber) e, ao lado, S(Ⱥ). Passar, num lance moebiano do discurso do inconsciente para o discurso do analista é levar em conta que, no lugar da verdade do discurso do analista, o saber não é o do sujeito suposto saber; é o furo no saber que se escreve S(Ⱥ).
| DM | DA |
![]() | ![]() |
O discurso do analista faz com que o analisante, com seus ditos, produza S1: significantes mestres bestificados. Significantes que são causa de gozo (como diz Lacan em Encore). Isso seria preferível a considerar que podemos produzir o significante que disse a letra do meu sintoma. Ou, pelo menos, há que saber que esses S1 da associação livre são e levam diretamente ao S1 besta, que não quer dizer nada (pois, “as palavras não querem dizer nada”, afirma Lacan em 1977).
E é por isso que venho pensando que o S1 como produto, no discurso do analista, é o “Que se diga”. “Isso fala / que se diga”. Observo que em Encore, Lacan afirma que o dizer…. fica esquecido (etc., etc.). O dizer é “inter-dito”, um “entre-dito”. Então, esse Seminário declara algo novo. Já não se trata da equivocação [meprise] do sujeito suposto saber (SsS), o sujeito dividido que se escreve no lugar da verdade no Discurso do Mestre (do inconsciente estruturado como uma linguagem), mas sim do “que se diga”. Isso se impõe; é o imperativo ético.
“Que se diga!” O que pode ser articulado com todas as significações (fálicas) e que não são de forma alguma suficientes para indicar o impossível. “Que se diga //goza!” Imperativo ético que ordena antes mesmo que possamos dizer a primeira palavra. Porque somos falasseres [parlêtres]. E o gozo, o único ao qual se tem acesso, é gozo fálico. Neles se abrem em leque as diferentes significações (fálicas), as que fazem relação entre S1 e S2. A questão é que não há relação ou proporção entre eles, e o saber da psicanálise aponta isso.
Saber-fazer com isso aí… Espera-se que uma análise nos conduza até essa porta de entrada do impossível, ou melhor, de nossos impossíveis (o amor, o gozo, o desejo, o saber).
E o amor em Encore…
“O gozo do Outro, do corpo do Outro que O simboliza, não é signo de amor”.
Na cama… no divã, também.
O gozo do Outro (que não existe) e, mesmo do corpo do Outro, que O simboliza, não é signo de amor. O gozo do Outro que simboliza o corpo do parceiro não é signo de amor. Há disjunção de gozo e de amor no encontro dos corpos-porcos (Obrigada, Jairo Gerbase!).
O amor faz laço: é por isso que se dirá que ele é recíproco. E Lacan brinca com o equívoco, orientando para onde isso vai: mais z´oui, z´oui, z´oiu, em francês isso se escuta “sim” e “se goza”. O amor, isso se goza, não pelo corpo, mas pelos significantes que dizem do sujeito e… do corpo falante e seus mistérios. Enfim, o corpo-a-corpo do gozo não é signo nem garantia do amor. E Lacan é categórico sobre isso: “A impotência do amor, embora ele seja recíproco, está ligada à ignorância de ser o desejo de ser Um. Isso nos leva à impossibilidade de estabelecer a relação deles/dois [d´eux / deux]. Deles quem? Dos dois sexos” . De novo, o equívoco linguageiro se infiltra na matéria do amor.
O amor é narcísico, como mencionei antes, porque a pretensa relação objetal só nos leva à intersubjetividade ou… “Eu te amo, mas, porque inexplicavelmente amo em ti algo que é mais do que tu – o objeto a minúsculo, eu te mutilo”. Do bla-bla –bla da relação objetal, a análise demonstra que o que sustenta a pretensa relação de objeto é um resto, causa: o objeto a. É por isso que ele se enviesa na relação amorosa, operando como causa de desejo, no desejo. Amar, tampouco, é desejar. Os padecimentos sintomáticos sobre isso são o cotidiano da clínica psicanalítica. De todo modo, temos que considerar as diferenças que se apontam entre o amor narcísico e o amor que se enlaça ao desejo pela via do fantasma. Pelo amor narcísico, Lacan destaca que aí se juntam o Um do corpo e o Um do hábito; destarte, fazem relação. O exemplo é “O hábito ama o monge”. Já no fantasma mantém-se a disjunção do sujeito dividido perante a sua causa, mesmo que o objeto assuma uma positividade (oral, anal, vocal, olhar).
Mas o que Lacan vai definir – e temos que ler do início até o fim de Encore – é que o amor faz signo. O amor faz signo dos significantes que são causa de gozo. Saberes inconscientes. O amor faz signo para o sujeito, não para o corpo. Teríamos que voltar à lição na qual Recanati apresenta a Lógica do Port–Royal. Nessa lógica, o amor é signo de duas substâncias diferentes, e Lacan se serve disso para reunir, nesse signo, a substância pensante (Aristóteles) e a substância gozante (Lacan). A substância gozante é o que define o significante a partir de Encore. São essas substâncias gozantes que compõem o enxame do inconsciente, as quais afetam o corpo do falasser e dividem o sujeito – representado por um significante para outro significante (S1→S2). Substâncias que tecem os ditos e o dizer. Os efeitos do dizer, no amor, podem fazer signo para os sujeitos.
Essa é a última definição do amor nesse Seminário: no amor, aponta-se para o sujeito como tal enquanto a ele se supõe uma frase articulada, algo que ordena, ou pode ordenar, uma vida. O sujeito não tem muito a ver com o gozo, mas o seu signo pode provocar o desejo, e esse é o fundamento principal do amor. Por isso, o amor encontrará seu suporte entre dois saberes, e Lacan acrescenta que, se ele falou de signos enigmáticos, isso se refere à relação do sujeito com o saber inconsciente. Ele é muito claro: fala de sujeitos, não de corpos. Esses sujeitos, por contingência, reconhecem-se na sua relação com o saber inconsciente e, portanto, no exercício desse saber do qual extraem um gozo (tendo o exercício, em matéria de gozo, o mesmo valor que sua aquisição). É sabendo passar da contingência ao necessário que o amor se sustenta. Mas também aí se sustenta a impotência do amor, porque ele sempre falha com o referente (não existe a palavra última sobre o amor); o referente está perdido, o saber inconsciente é furado – S(Ⱥ).
O que isso significa senão que o amor parece se fazer do tecido da verdade, quando o que se destaca é que não há saber para dizer a última palavra sobre cada amor. Acaso não é isso o que nos encanta em todos os poemas de amor? Nesses que os poetas escrevem e nos que nós mesmos fazemos? Pergunto e evoco minha resposta: sim, reside nisso, porque o efeito poético do amor é um tratamento da impossibilidade à qual faz suplência. Não precisamos saber escrever poesia: os gestos do amor tornam-se poéticos. Falhando o referente, em algumas parcerias pode-se realizar, pelo amor, a valentia de enfrentar esse destino… Já não o destino da alma, mas o de l’âme/j´aime/jamais [alma/ eu amo/jamais].
É Lacan quem nos fala do efeito poético do amor para indicar que é pela via do inconsciente – e do naco de saber que lhe toca a cada um – que um amor é possível. Ele diz explicitamente: não é pela relação sexual, mas por esse saber que, no fim das contas, sempre falha. Efeito poético por causa da castração… da linguagem, da qual lalíngua é condição. Só lembrando: a língua é condição da linguagem, e ambas são condição do inconsciente (somos como aranhas tecidas pela teia que o nosso corpo secreta). Falamos com o nosso corpo e, sem saber, dizemos mais do que sabemos; e no discurso analítico, o que fala sem saber me faz… falasser.
Um amor ético
Um amor ético para a psicanálise é aquele que não fica ancorado no (a)muro do corpo. É aquele que deixa entre-dito as falhas do saber – sendo o referente a própria falha no saber, que podemos escrever com o matema/letra S(Ⱥ), no lugar da verdade. Cabe ao analista, com seu ato e sustentando a sua função, agenciar a causa (indizível) para que a função SsS seja apenas um artifício de crença. É isso que possibilitará topar com a falha (queda) que promove o equívoco do Sujeito Suposto Saber. Um saber suposto que toca um limite; mas, esse mesmo limite poderia ser assintótico se o analista não estivesse em função.
Qual função? A da causa que excede a promoção de um desejo de saber e que se sustenta no Real do “não quero saber nada disso”. Não é um “não quero saber” neurótico; é um Real, que do saber e no saber faz furo ao exercício de estilo (Obrigada, Raymond Queneau!). Depois do ato analítico, na passagem do analisante a analista, caberá ao analista sustentar uma conduta sobre o que fez e faz com essa falha, em cada experiência das análises que conduz.
Podemos deduzir disso que o destino do amor de transferência não seria a resistência – como o indicara Freud -, mas sim a escrita de um saber furado sobre o opaco do amor, e não somente do gozo. Para tal, é necessário (mas não suficiente) que um analista inaugure com seu ato a chance de uma suposição de saber que se oriente pelo “não quero saber de nada, mas de nada disso”. Porque esse saber é impossível; porque cada saber orientado por uma análise topa com esse impossível. Um analista em função não consentirá com as versões do amor de transferência, apenas se servirá delas para que, com sua presença (o objeto a), o analisante saiba do seu destino da lalinguageira equivocação.
O tratamento da impotência, considerando o impossível, faz com que uma análise seja por contingência, que ela atravesse a repetição (sempre nova) e que, também por contingência, escreva um final. O amor de transferência está destinado a chegar ao final. Para isso, o inconsciente tem que ser uma contingência, fundado igualmente numa impossibilidade: o real que nos faz seres falantes. Esse amor não tomará a interpretação como os ditos de um saber anterior, mas sim como um equívoco. Dessa feita, os equívocos farão do amor de transferência o poema do que não se pode dizer, mas se pode escrever.
Afinal, a carta de amor (de amuro) que Lacan nos escreve tem só uma letra: S(Ⱥ). Carta de amor que diz que um amor ético – um amor mais digno (das Ding) – produz o melhor que se pode fazer com o saber: gozar dele e, assim sendo, inventar com ele. Saber fazer com ele o que ele nos inventa, nos escreve… nos, nós… nudos… Um no(s)vo amor. A cada giro de discurso, um novo amor. Sabemos desde o Aturdito que somente o discurso analítico promove esses giros pela articulação entre impotência e impossibilidade. Definitivamente, a clínica lacaniana já não é a mesma com o que de ético nos trouxe Encore.



