Isabela Ledo
(…) por causa, esbarravam a toda hora,
se apeavam, meio desertavam,
desbandando da estrada-mestra (…).
João Guimarães Rosa, 1956.
Após fazer o primeiro testemunho, alguns colegas, generosamente, trouxeram questões, comentários e efeitos de afetos não adivinhados, a partir do que ali puderam ler ou, por que não dizer, do que puderam também reescrever. Em uma situação específica, alguém que não esteve presente na ocasião do testemunho me disse, apressadamente, algo como: “Ah, recebi um recado do (seu) passe…”. Achei essa formulação divertida e curiosa. “Recado do passe” borboleteou aos meus ouvidos, pois parece abrir uma ambiguidade e uma indeterminação quanto ao próprio emissor: o recado não foi exatamente meu, ou dela, ou de quem ouvira o testemunho… foi do passe?
Vagueando entre associações, lembrei-me de um conto de Guimarães Rosa que eu havia lido há bastante tempo: “O Recado do Morro” (1956). O recado, no conto, surge como algo enigmático, que não pertence a ninguém, mas passa por vários, percorre a boca de viajantes, é equivocado, deformado, cantado. Entre o oral e o escrito, a equivocidade da viagem é a condição para algo do recado se reescrever. Para mim, Wisnik (2024), em sua belíssima e recente reescrita do conto, faz uma renomeação que é precisa: “Viagem do recado”.
Recado, diferentemente de mensagem ou comunicado, é uma palavra que para Wisnik (2024) teria essa vocação de fazer parte de uma cadeia, cujo princípio e fim não estão determinados. Trata-se de uma espécie de mensagem indireta, indeterminada, em trânsito, podendo, por isso mesmo, ganhar e perder significação pelo caminho… dado o seu caráter itinerante e aberto. O passe poderia ser um recado que emerge, contingencialmente, de uma travessia de análise? Qual o recado do Passe? Um testemunho poderia, de algum modo, recolocar em causa a viagem de um dizer como recado?
Para o recado passar seria fundamental que se colocasse à prova de uma cadeia de equívocos, não se fixando em ninguém e, assim, seguir atraversando vários recadeiros que, com “suas antenas sensíveis ao lugar fora das ideias que se percebe no corpo” (Wisnik, 2024), pudessem de algum modo transformá-lo, reescrevê-lo, relançá-lo. No passe, não há dono do recado, tal qual no conto roseano, mas há um roçar entre línguas, entre corpos que permitiria que algo do real passasse por efeito, pelas brechas.
Ao retomar o conto de Guimarães, sou tocada pelo modo como ele começa a sua escrita: “Sem que bem se saiba, conseguiu-se rastrear pelo avesso um caso de vida e de morte extraordinariamente comum (…). Desde ali, o ocre da estrada, como de costume, é um S, que começa grande frase…” (Rosa, 1956. p.9). Sem que bem se saiba o porquê sofremos marca também a chegada a uma análise. Ali pela eStrada da vida, o ocre oco da entrada é sustentado pelos discretos matizes dos Sss de costume numa travessia analítica: o Sujeito Suposto Saber dá Suporte aos Significantes Sinuosos que organizam o Singular Sem-Sentido do Sintoma.
As nuances sintomáticas deixam-se recobrir, recorrentemente, pela paleta fantasmática monocromática que visa sempre conservar o empalidecido padecimento das queixas, repetições e infortúnios habituais. A operação analítica, no entanto, ao rastrear pelo avesso do sentido, faz rasteira na narrativa sedimentada, cava desvios, desloca, recoloca a estranha abertura de entrada… Do enxame de SSs, com sorte, o Sen-tido é real-çado pelo sonoro d’alíngua… os mesmos Sss relançados, de repente, não escrevem o mesmo… do Sujeito Suposto Saber abre-se uma passagem contingente por um Saber Sem Sujeito.
Um ponto de furo, de fuga, desarranja o saber prometido como propriedade pela lógica fantasmática e, ao não se fechar, encontra brecha — se abre, por um instante, como lugar de passagem. Até a saída, o S de costume que insiste é justamente o do Sem… Sem que bem se saiba, sem domínio, sem abrigo… justo aquele do qual achávamos que um dia nos livraríamos. Depois de tanto vai e vem, reencontrar-se destituído de um domínio do saber, exposto ao estrangeiro em si — por mais desconcertante que possa parecer —, faz com que se tenha a chance de reencontrar, na língua, não mais uma promessa de ancoragem de um sentido unívoco, mas uma trilha errante por onde um dizer – como recado – tem a chance de viajar. Como no conto de Rosa, o recado não é mensagem originária, não é decifração, não tem dono nem autor, mas dá a ler o rastro de uma transformação subjetiva.
Se a operação analítica, ao ler pelo avesso do sentido, desfaz a sedimentação do saber suposto — o já sabido e o saber que viria —, cada um precisará cuidar para que o passe não se torne palco para uma re-cimentação. Um testemunho não se mede por um conteúdo egóico ou por seu alcance acadêmico-esquemático. Perante o Real da experiência não há domínio, não há iniciados, não há escolarizados, por mais que, às vezes, possa não parecer. Pelo contrário, testemunhar (do Real) implica em resistir à ilusão de uma comunicação linear para se ter a chance de restituir a viagem do recado. Tal qual o cantador do conto-canto roseano, a função AE parece um exercício arrisca(nta)do: busca-se inventar uma forma provisória e singular de dizer como foi possível se virar com o Real que atravessou um corpo de modo único na experiência analítica. A cada vez, refazer esse trajeto, o S Serpenteia do Singular – ponto de desvio que fura universais – e, paradoxalmente, deixa Secretar daí o extraordinariamente comum dos Seres falantes: o exílio na própria língua. Talvez, daí se precipite o S do Sinthoma (Lacan, 2007), não como Solução essencialista, mas como Saída Singular, como um meio de habitar esse exílio e de sustentar um arranjo vivo com o impossível que o constituiu. O recado do passe, assim, não comunica “intimidades”, mas pode operar por uma espécie de truque: ao se valer de dados desviados de uma vida – de restos móveis, fragmentos, estilhaços da experiência analítica, de encontros textuais –, deixa passar, deixa vazar… alguns vincos, sulcos de uma travessia tão singular e, ao mesmo tempo, tão comum entre os falantes: a irremediável invenção diante da falha estrutural.
Antes de a porta de uma sessão de análise se escancarar numa saída que parecia de costume, me escuto dizer: “se não tenho o domínio, o te(x)to não é meu”. O encontro “cortingencial” com esta fatal falta de domínio relocalizou algo em mim: “eu” também sou “Isso”. Isso que, paradoxalmente, me escapa e me apanha, me concerne, o que me permitiu operar uma outra passagem.
Há mais de uma década, chegava a São Paulo e a tal “falta de domínio” tomava conta de mim em vários sentidos: não domino a cidade, a língua, os costumes, o ofício de psicanalista, a teoria. A falta de domínio, companheira de velha guarda, parecia preencher-me ao fazer consistir uma suposta burrice, tontice, desorientação… nas minhas escolhas, nas minhas palavras, no meu jeito de fazer. Não foi a ida para São Paulo que inaugurou esse “desgoverno”, pude saber disso depois. Tal deslocamento apenas reatualizou um modo muito familiar de dar tratamento à experiência de separação. Domínio, em informática, também tem relação com lugar, endereço… “Sem lugar”, sem recursos, deslocada… era isso que reaparecia numa espécie de herança de retirante que se atualizava: ao sair da minha terra natal, no sertão da Bahia, para Salvador; ao chegar a São Paulo, anos depois… Uma falta que me permitiu também “andar” na direção de supor o domínio em um Outro lugar.
E, talvez, seja um pouco assim, sem posses, despossuída e deslocada que se chega a uma análise e logo se encontra um lugar para se abrigar, pintando-o com potencial para “casa própria”. Morada experimentada de modo ambíguo: ora hospitalidade, ora hostilidade. Lugar com o qual, aos poucos, vai se tentando ganhar alguma familiaridade… com as várias voltas e voltas, tentando recuperar algo, sem perceber a distância que já se vai tomando de “casa”. Nesse afã de ter casa própria, de “perten-cer”, ironicamente nos valemos do Outro como terra firme, sem nada querer saber sobre a inexistência do teto… Nos mantemos ali, já de saída, paradoxalmente, abrigados e sem teto.
Abrigo que me expôs à instabilidade da minha própria narrativa, dos lugares labirínticos revisitados… Talvez a hospitalidade de uma análise se dê pela possibilidade de se saber sem teto e, ainda assim, aventurar-se a encontrar palavras para improvisar uma cobertura…
Encontrar hospitalidade nas minhas próprias palavras de-formadas, escutadas ao avesso, reenviadas, afetadas pelo estrangeiro… Esgarçadas e bifurcadas pela função poética d´a língua… Foi um passo que me desalojou de mim. Asilada na minha neurose, tentava, incansavelmente, exilar-me da inescapável condição desejante. Quando alguém se aventura por aí… Tentando fazer de um abrigo temporário, provisório, uma casa fixa, só se consegue chegar a isolamentos e segregações. Dentro e fora. Abrigados e desabrigados. Dominadores e dominados. Com teto e sem teto. Não há como sair disso pela lógica fantasmática. A menos que, numa destas curvas de um beco quase sem saída, graças aos equívocos transeuntes – que não passam desapercebidos e dão algum trabalho –, um desmonte, um corte aponte um outro rumo e, com alguma sorte, a “casa cai”. Eu, que sempre fiz da “estrada” minha casa, queria fazer da “casa fixa” uma condição para seguir.
A análise, para mim, foi esse lugar paradoxal que abrigou minha condição de nômade, de sem teto, de retirante – um lugar, aparentemente, fixo, duradouro que mobiliza e expõe como o fazer do desejo do Outro morada é um arranjo sempre precário, capenga, esburacado, instável, móvel. Alguns sonhos me ajudam a aludir à precariedade desse arranjo. Apoio-me em dois deles para dar mais alguns passos.
Num primeiro, eu apelava a uma “Ana” … ana.lista a quem pedi abrigo tantas vezes na minha formação e pela qual fui, sensivelmente, acolhida. Então, peço-lhe um livro que pudesse me ajudar diante do fim (da minha análise). Para a minha surpresa, ela me oferece um livro grosso, enorme, que continha uma única palavra na capa: ABREU.
As letras garrafais e em cor azul remetiam a um sobrenome, slogan da “corretora de seguros” estampada em uma das ruas que povoaram a minha infância, acompanhada da frase: “Nosso negócio é seguro”, da qual eu nem lembrava… Mas, pelo jeito, não esqueci da promessa que a corretora abrigava: venda de seguros. Passamos muito tempo na vida pagando caro para tentar tomar posse deles.
Abreu… Entre o abrigo e a abertura, exponho-me ao relento, à itinerância das minhas associações e sou atravessada por um equívoco linguageiro, como tantos outros, incontáveis, que brotavam nessa minha travessia: (H)A-BREU. No final de uma análise, há breu… Pois ali onde se esperava encontrar um Outro para clarear, orientar, dar luz ou lucidez, há breu… Só, Isso… e é só… Na medida em que se consente com a inexistência de um teto, é que alguma luz pode “passar” … Alguma passagem se torna possível.
“Passagem” que me remete ao segundo tema que insistia nos meus sonhos: estou num aeroporto para viajar. Prestes a embarcar para um encontro internacional de psicanálise e com meu texto na mão, hesito. Tive um problema com a “passagem” (aérea). Surge uma dúvida: não seria melhor ir ao encontro nacional em Campo Grande? Apesar de perceber que eu promovera o atraso para a de(s)colagem, culpo a “companhia” (aérea) pelo infortúnio. Encontro, então, no saguão, meu “companheiro” com meu filho e uma “companhia” de longa data: minha analista, a quem confesso a dúvida sobre para onde ir, ao que ela nada diz. Ganho algumas horinhas ali, mas sigo tentando “arrumar a passagem”.
Desse sonho extraio uma estrutura que me orienta: a decisão pela viagem está ali, clara. A condição de viajante também. A dúvida é para onde ir — e um Outro que nada tem a dizer sobre o meu destino. No entanto, meu desejo aponta um destino, uma direção possível: “vou arrumar uma passagem para CAMPO GRANDE”. E, mais uma vez, a itinerância palavreira me toma: “campo grande” se destaca aos meus ouvidos, pois é o nome de uma ampla praça em Salvador, aos arredores da minha primeira casa fora da minha terra natal. “Campo” também é um nome que abriga, em parte, um lugar onde eu encontrara outros psicanalistas pela primeira vez na Bahia. Em Salvador, o Fórum era conhecido, à época, por “Campo”. Lembro-me, com alguma familiaridade, da experiência de deslocamento, de despertencimento, de desorientação nesses dois campos… E, agora, meu sonho apontava um terceiro sentido: Campo Grande, cidade no centro do meu país para a qual, até o momento do sonho, eu jamais havia viajado…e, por um feliz acaso, pude conhecer, depois, no dispositivo do passe.
Um novo destino apontado pelos meus sonhos, não sem o estranho familiar resgatado pelos rastros deixados por onde passei… A gente dá voltas e voltas para se dar conta que o caminho é só de ida… é só… é a v-ida… Não há caminho pré-traçado, mas há vestígios deixados pelo simples ato de caminhar… que constituem pegadas, mas que não condenam a um destino.
Em análise, chega-se como viajante e sai-se como viajante. O fim recupera o começo. No entanto, se a condição de sem teto da chegada era apreendida como uma falta que demandava um domínio, uma morada fixa, agora, ao final, o sem te(x)to aparece como condição edificante e mobilizadora para novos passos.
A tal “falta de domínio” — ou melhor, o “impossível de dominar” — continua vertiginoso, mas já não parece tão pavoroso como outrora. Não faz mais consistir a burrice, a tontice, a pobreza, o sem lugar… Nomes para o sem-sentido do sintoma que me deram abrigo, temporariamente, na busca de sustentar um Outro poderoso, dominador, muito bem alojadinho. Lugares que se visitam, onde se colocam alguns outros… Mas, com sorte, de passagem…
Desalojada de mim. Despossuída. A busca por um domínio de si só nos leva a um mesmo destino. Ficamos encarcerados, dominados, reféns de um suposto grande Outro. Um projeto neurótico, megalomaníaco e falido é esta corrida para ser alguém de posses… ou para se apossar do que se é. O ser não é dado a posses. As palavras não são dadas a posse. Isso que escapa nos concerne e não há “eu”, não há “Outro” que possa apanhá-lo, dominá-lo. E, justamente, ao desassenhorear-se é que se pode abrir es-paços, sentir-se concernido a oferecer abrigo, a acolher, provisoriamente, palavras para contornar o que se é, para nomear um desejo.
“Meus (vários) te(x)tos”, na minha travessia analítica, foram um artifício fundamental… Que, invariavelmente, tentavam fazer passar algo desse desalojamento, dessa descontinuidade, dessa deiscência, a despeito das minhas investidas neuróticas de pintá-los com ares de fortaleza… Mas eles resistiam, abrigando alguns arranjos provisórios e apontando um CORTE. Não à toa, ao sair da última sessão, com uma estranha convicção de que algo não tinha mais como andar por ali… um pedaço de um dos meus escritos de anos anteriores me atravessou como um recado, num breve lampejo: “Afinal, Analista é também uma “palavra” que nada garante, mas adverte… Não imuniza, pelo contrário, desprotege… Não estabiliza, mas vacila, balança…Não ritualiza, mas ritmiza… Não dá caminho, mas faz rede-moinho…Não é bússola, mas um comando que nos escapa…Escape que, por efeito, mobiliza um saber em termos de verdade, ao recolocar na palavra o ritmo, a vertigem dançante, o redemoinho estonteante… Que permite deslocar-se entre (…) sem se fixar…” (Ledo, 2021, p.04) . “Andava” esquecida disso… Que já havia se escrito em mim.
Meu “Ledo” engano nessa viagem foi achar que dava para me apoiar em palavras estrangeiras para dizer de mim, de quem sou, de para onde vou… O giro foi me dar conta que as “palavras estrangeiras” não são fiáveis, mas o “estrangeiro das palavras” —aquilo que nelas faz furo, fluxo, ritmo, é sopro, souffle, índice do que não se domina — opera. Incidência da letra no corpo, impacto material da língua… Escava, sulca caminhos insuspeitos e não adivinhados (Lacan, 2008).
Parece um deslocamento sutil, mas que me fez mudar de rumo na vida. Não à toa, fui arrebatada pelas palavras de Derrida, encontradas “ao acaso” num texto que não consigo mais localizar, que parecem ler algo em mim que, ao mesmo tempo, me escapa e aponta para outro lugar: “Não é a partir do domínio de uma morada que se oferece hospitalidade, mas a partir do deslocamento do sem abrigo, do sem teto que se pode abrir para a autenticidade da hospitalidade. Talvez apenas aquele que suporta a experiência da privação de casa possa oferecer a hospitalidade...”
Deixar-se habitar pelo estrangeiro e recolher o que daí se escreve. Deixar-se afetar por isso e seguir viagem. É, justamente, ao assumir a condição de retirante, de viajante inaugural como falasseres, que se torna possível autorizar-se a alçar novos voos e fazer da de(s)colagem um destino que enlaça.
“Fazer escola”, pela primeira vez, aparece-me como um passo lógico. Uma frase que me ronda e me escapa há tantos anos. Escola como um lugar em potencial, que não se realiza na tentativa de “arriar as malas”, mas, pelo contrário, viabiliza-se, a cada vez, na medida em que se suporta abrigar-se a partir da condição de sem teto. Sem tetos abrigados… Seria um jeito de nomear, agora, esse outro modo de se enlaçar com alguns outros para produzir um saber forasteiro, “furasteiro” … Singular. Um desafio grande, que me proponho a sustentar.
Acho que esse percurso analítico me transmitiu algo desse desejo, dessa orientação. Advertida de que as armadilhas da neurose estarão sempre à espreita, mesmo após tantos passos dados, pode-se ficar na porta de saída, “abusando” da hospitalidade, esperando uma espécie de “ordem de despejo” … Sabe-se lá vinda de onde. Por sorte, ao escrever despejo, com algo de um jeito atrapalhado que me concerne, tropecei e deixei cair a letrinha “p”… De pai, de psicanálise, de psicanalista, de passador, de passe, de passante, de posse, de porta, de passagem… Ordem de des(p)ejo, com um “p” que despenca, vira “ordem de desejo”. Um equívoco, um pequeno deslize… Tendo por efeito uma outra ordenação… Um desejo novo de seguir nesta viagem de outro modo… Sem “beat(r)ices”. Seguir “arrumando passagem”… E não mais obturando-a com a ilusão de uma porção de Saber que estaria contido no Outro.
Um P despencado, pendurado, perdurado como resto, pode pendular uma escrita não de “P...edidos de entrada” a uma Escola, mas de uma P...roposição que faz entrada (Lacan, 2003). Uma Escola tem a chance de se fazer, contingencialmente, quando cada um abre uma nova via de transmissão por um gesto inaugural Poético, e não Patético e de um sentido único, o que apenas faria com que uma doutrina se repetisse. O patético do sentido religioso está sempre à espreita… É preciso que cada um cuide para que o léxico de costume, os significantes que organizam provisoriamente lugares e funções numa comunidade, não virem adereços para carteiradas, critérios para regular acessos, para dar coordenadas de um funcionamento no laço ou de como se deve dar a transmissão.
Se tem algo que estes lugares partilham é a propensão para o embaraço com o Real, pois perante o Real não há desembaraçados; mas pode haver dis-posição ao trabalho, na melhor das hipóteses. Se esses lugares inventados não funcionarem como causa para operar um desalojamento de um sujeito suposto ao saber, reintroduzindo um vazio operador, não há chance para uma Escola de psicanálise, a meu ver.
Na proposição de 1967 que, talvez, aqui reescrevo ao meu modo, conto com uma rede de recadeiros – nômades, excêntricos, andarilhos, retirantes – que não faça da Escola um lugar fixo, uma caixa de correio já dada; mas uma zona de indeterminação em que o poético do recado não se estabiliza, mas insiste, interroga, ecoa, fura, reverbera. Neste mar aberto da formação analítica, a Escola não é terra firme nem lugar de chegada; mas, por um gesto contingente de transmissão, pode ganhar contornos de uma terceira margem (Rosa, 1962), um entre-lugar, em que algo da travessia de um dizer como recado, possa se inscrever, sem se fixar. Poder fazer da deriva condição navegável para reinventar a viagem é um des-a-fio que sempre se renova.
O Recado do Passe, assim, não é para a Escola (ou da Escola) é o que, às vezes, pode fazer Escola: ao criar esse lugar paradoxal onde a transmissão não tem dono, não repousa em ninguém, mas tem a chance de seguir viagem. Como considerar que um movimento fez Escola? Talvez, por sua condição de evocar a errância po-ética como o que escava uma espécie de estrada de liberdade (Crevel, 1980). Num cartel-recadeiro de poética Isso me foi soprado pelos surrealistas: o poético força a liberdade ao homem, força-o ao ato de liberdade… Uma comunidade analítica não precisaria ser (in)suficientemente poética para recriar as condições para que cada um seja forçado a reinventar a psicanálise? (Lacan,1978). Fazer a poesia infusa jorrar na realidade, torná-la ativa, motor (Fondane,1980) — poesia aí não como rimas, versos ou estilo literário; mas como o que nos faz desbandar de uma eStrada-mestra, poesia como o que faz desalojar o S costumeiro do Sentido Saturado, como o que Sequestra a univocidade autoritária da razão, nos confrontando com o Sem… Aquele incômodo Sem… Principiante, sem-pre precipitante… Que reinaugura um vazio operrático perante o qual cada um vai precisar inventar um modo de se virar, a cada vez…
Referências
CREVEL, R. (1966). Le clavecin de Diderot. In: A estética surrealista: textos doutrinários comentados. A. C. Gomes (Org.). Atlas. 1980. p.167-168.
FONDANE, B. Faux traité d’esthétique. (Obra original publicada em 1925 como “Les surréalistes et la révolution” – p. 136.). In: A estética surrealista: textos doutrinários comentados. A. C. Gomes (Org.). Atlas, 1980. p. 63.
GUIMARÃES, J. R. (1956). O Recado do Morro. Global Editora. 2021. p. 10.
________. (1962). A terceira margem do rio. In Primeiras estórias. Rio de Janeiro: José Olympio, 2005. p. 29-34.
LACAN, J. (1967). Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola. In: Outros escritos (V. Ribeiro, Trad.). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. p. 248-264.
________. (1971). Lituraterra. In: Outros escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. p. 15-25.
________. (1975–1976). O seminário, livro 23: o sinthoma (S. Laia, Trad.). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007. p. 163.
________. (1978). IX Congresso da Escola Freudiana de Paris. Publicado em Lettres de l’École, n. 25, vol. II, ano 1979. p. 219-220.
LEDO, I. Um analista entre: leis… lies, lives, love… “e die”? Livro Zero – Revista de Psicanálise n. 12. Fórum do Campo Lacaniano – São Paulo, 2021. p. 44-51.
WISNIK, J. M. Viagem do recado: música e literatura. São Paulo: Companhia das Letras, 2024. p. 249.

