RLZ 17

Destituição subjetiva e seus efeitos éticos

Dominique Touchon Fingermann

Antes de mais nada, devo confessar uma surpresa: nunca havia pensado em articular a ética da psicanalise e a questão da destituição subjetiva, embora a preparação deste debate torne esta articulação óbvia.

Agradeço, portanto, a oportunidade oferecida pelo Fórum do Campo Lacaniano de São Paulo por mais uma ocasião de interrogar o que me orienta na prática da psicanálise e compartilhar essas indagações com os amigos e parceiros Gabriel Lombardi e Christian Dunker.

No entanto, pergunto-me se não seria mais coerente inverter esse enunciado e propor a “destituição subjetiva” como produzida – eventualmente – pelo percurso analítico, como efeito da ética específica que orienta a experiência da psicanálise, e não o contrário. A experiência analítica desde Freud, é orientada pelo “procedimento freudiano”, como diz Lacan, ou seja, é o produto da regra fundamental e da interpretação. Esta última, ao posicionar o inconsciente nas trilhas, labirintos, descaminhos, da associação livre, acaba por concluir a respeito da “firme convicção da existência do inconsciente” e da castração (o sujeito dividido).

Lacan, em 1967-68, no Seminário “O ato do Psicanalista” descreve a experiência como o produto do ato do psicanalista e da tarefa, isto é, o trabalho do analisante. O ato é o que não responde à demanda transferencial e à sua estratégia que orienta o trabalho da associação livre; ele introduz um silêncio na inclinação da lógica significante em procurar suporte no Outro significante e num objeto que sutura a sua hiância. “Um silêncio como ponto de apoio”, como diria M. Bousseyroux. Ponto de apoio para talvez poder abrir mão da garantia fantasmática e lançar mão do apoio em outro valor, a incógnita e a liberdade de caminhos poemáticos improváveis. O ato do psicanalista – a sua ética tem efeito de destituição subjetiva.

Ainda nesse mesmo seminário, ele escreve esta experiência da análise com as operações de um rocambolesco “meio grupo de Klein”, o enigmático “quadrângulo do ato”. Escrita que permite ler as diferentes fases da operação desde a “instituição do sujeito”: que traduz o cogito cartesiano como a união do “não penso/ não sou”, a alienação de um falso ser que não pensa, a separação do pensar inconsciente sem sujeito e, por fim, a disjunção do sujeito barrado e do objeto. Operação que quando realizada, produz a destituição subjetiva.

No entanto, a modificação profunda do sujeito em relação ao saber, ao Outro e ao gozo – efeitos éticos notáveis em consequência da destituição subjetiva – tem, por sua vez, consequências cruciais. Uma delas é a eventual passagem de analisante a analista e sua capacidade própria de sustentar o silêncio, a solidão, o risco e a response – abilidade da resposta de analista à neurose e à psicose. Portanto, a destituição subjetiva produz efeitos éticos.

Mas voltemos ao caminho em que o ensino de Lacan apresenta o termo “destituição subjetiva” como o produto de uma análise – senha, mot de passe, que indica uma passagem. Esse termo surgiu em outubro de 67, um ano após a publicação dos Escritos, em 1966. Lembramos que essa coletânea de textos escolhidos é o testemunho de vinte anos da constante elaboração, por Lacan, de sua “teoria do sujeito” enquanto suposto: submisso à linguagem, sujeito à deriva, fadado a ser representado por um significante para outro significante, condenado ao exílio e à falta-a-ser. “A subversão do sujeito e a dialética do desejo”, um dos textos princeps dos Escritos, poderia constituir o título geral deste percurso que institui o sujeito e o coloca em questão.” “Do sujeito enfim em questão” (título de um texto introdutório escrito à época da publicação dos Escritos)

Se a direção dada pelos Escritos no início poderia ser a da “retificação subjetiva” (cf. “A direção da cura e os princípios de seu poder”), 1967 começa com este anuncio: “há destituição subjetiva”. Este termo surgiu em outubro de 1967, na Proposição de 9 de outubro de 1967 para um psicanalista de Escola, quando Lacan apresentou o dispositivo do passe. Este dispositivo referia-se a uma certa concepção do final de análise e que qualificaria o psicanalista como capaz de suportar o ato psicanalítico e a ética que o condiciona – momento crucial da passagem de analisante a psicanalista.

A questão da “destituição do sujeito” entrará na pauta do seminário de 67-68, “O ato do Psicanalista” e nos textos institucionais da discussão sobre o passe na Escola Freudiana de Paris até 1969. Se não mais encontramos essa expressão nos seminários e escritos posteriores de Lacan é, provavelmente, por ele ter substituído seu páthos por seu valor lógico e a escrita dos matemas dos discursos (simplificação do “meio grupo de Klein”, do Seminário 15) que apresentarão as diversas possibilidades éticas oriundas da estrutura.

Logo depois de sua Proposição, Lacan inicia o seu Seminário, livro 15: o ato do psicanalista, que, nove anos após o Seminário sobre a ética da psicanalise, vai se dedicar a recolocar os pontos nos “is” a respeito da direção/orientação do tratamento analítico e os princípios de seu poder. Como podemos ler nesta passagem: “Na ética que se inaugura pelo ato analítico … a lógica manda”. A ética que orienta o ato do psicanalista é uma opção, uma posição, em resposta à lógica que determina o sujeito enquanto tal, representado por um significante para outro significante. No decorrer desse seminário, Lacan vai precisar mais uma vez: a psicanalise não é uma relação intersubjetiva: quem responde ao sujeito em questão na experiência analítica não é um sujeito.

O que a escrita dos discursos formalizará, e precisamente do discurso analítico, é que o agente desse discurso é um objeto. Portanto, o operador da psicanálise não é um sujeito, mas uma função indexada pelo objeto a. Isto é, aquilo que, por definição, não se assujeita nem se representa; um efeito da linguagem que atua como causa, dado o lugar de agente que ocupa na estrutura para movimentá-la e produzir outros efeitos – éticos.

Desde o ensino de Lacan, “o sujeito” não é a pessoa – é o que é representado por um significante para outro significante. Essa condição estrutural implica uma espera e uma esperança que um Outro significante possa ainda vir a determinar a incógnita da identidade que corre nas cadeias significantes, atrás do enigma do que produz, para cada um, o ponto de origem do ato de enunciação. Esta esperança se chama transferência; e a sua suposta liquidação não é desamor ou decepção em relação ao analista, mas o topar com a “profunda insuficiência lógica do significante” em dizer da identidade, seja pelas vias das identificações, seja pela via do ponto seguro do fantasma: destituição subjetiva.

Essa cisão – separação que, no discurso analítico, escreve-se embaixo como hiato entre o S1 e o S2 – pode produzir efeitos éticos de criação, invenção ou “poemáticos”, longe das “significações saturadas pelo fantasma”. Trata-se de um efeito de ato, de entusiasmo, sem esquecer a aberração possível que constitui a via de ocupar a função do psicanalista.

A destituição subjetiva pode, em algum momento, apresentar um efeito depressivo, como sublinha Lacan na Proposição, porque faz perder a esperança de um reencontro com aquilo que falta para designar esse enigma. Esse momento de vacilo na segurança do fantasma e na crença ao Sujeito Suposto Saber pode caracterizar o instante do passador, algo que o analista pode destacar para indicar como potente a funcionar no dispositivo do passe.

Esses efeitos de desestabilização podem conduzir a outras opções éticas: o sujeito, abalado na estabilidade que lhe dava a sua crença no Outro e no objeto ao qual se amarava para suturar a sua significação subjetiva em deriva, pode optar por outro giro no discurso que o conduza à canalhice ou à debilidade.

A recusa e o recuo têm, portanto, outros caminhos éticos possíveis – como aqueles indicados pelos demais discursos – e podem assumir diversas manifestações: mudar de analista, confinar-se no discurso universitário, achar um recanto seguro para fazer funcionar o discurso da maestria, sucumbir à reação terapêutica negativa ou perder-se na corrida consumista do discurso capitalista (se é que isso pode receber o nome de ética).

Quando Lacan lança mão do sintagma “ética da psicanálise” em 1959, ele faz questão não somente de advertir acerca da singularidade dessa operação – promovida pelo “acontecimento Freud” no habitat do parlêtre –, mas também de sublinhar que, se há uma “ética da psicanálise”, há outras éticas que sustentam os demais discursos. Esse pressuposto, inclusive, norteia o tema de nosso encontro internacional, “Por que a ética é relativa ao discurso”, ponto sobre o qual Lacan insiste até o Seminário 22.

A ética não é a mesma em cada discurso, pois procede do tratamento do gozo específico e do real que cada laço social circunscreve e escreve. Assim sendo, quando falamos de “discurso analítico”, apontamos diretamente para a ética da psicanálise.