Maria Célia Delgado de Carvalho
Podemos definir o ato psicanalítico como aquilo que faz com que possamos chamar o encontro entre analista e analisante de análise? Só é possível dizer que uma análise de fato aconteceu pela presença do ato analítico. No entanto, não é simples delimitar onde e como ele se dá. O ato analítico não se reduz a uma técnica ou a um mero procedimento; trata-se de um acontecimento e, como tal, depende da singularidade de cada analisante e de cada analista. Ele implica uma transformação na posição subjetiva do sujeito e marca um ponto de virada na experiência analítica, sendo, fundamentalmente, o que a distingue um tratamento orientado apenas pelo alívio de sintomas, pela adaptação ou pela mera aquisição de saber.
Quando Lacan junta essas duas palavrinhas – ato psicanalítico –, ele não se refere a qualquer ato do analista ocorrido na análise, como a interpretação ou o corte. Estes são atos que também fazem parte da análise e a encaminham para o ato psicanalítico propriamente dito, esse que é relativo à passagem de psicanalisante a psicanalista.
O primeiro ponto a considerar é que o ato não prescinde da transferência, que ocupa um lugar central na experiência analítica. Como afirma Lacan: “O ato psicanalítico, nós o propomos como consistindo em suportar a transferência” (LACAN, 2001). Se é a transferência que inaugura a análise, mobilizando tanto o analisando quanto o analista, é também ela que sustenta as condições para que, em um determinado momento, produza-se uma mudança na posição subjetiva: o giro de discurso que caracteriza, propriamente o ato analítico.
É somente no discurso do analista que esse ato pode ser sustentado. Ao colocar o objeto a no lugar de agente, o discurso analítico subverte a lógica dos demais discursos que se organizam em torno da produção de um saber ou da manutenção das identificações. Em vez de oferecer ao sujeito um saber que preencha o vazio de sua verdade, o discurso do analista faz operar a falta como princípio. É justamente por se recusar a tamponar esse vazio que algo novo pode advir.
Se o ato é aquilo que faz uma análise acontecer, ele também produz efeitos sobre aquele que, ao final de seu percurso, poderá ocupar a função de analista. Entre esses efeitos encontra-se a destituição subjetiva. Ela não antecede o ato, mas decorre dele, produzindo uma transformação decisiva na posição do sujeito e em sua relação com o saber.
Essa transformação não consiste na aquisição de um saber superior e nem na posse de um conhecimento sobre o inconsciente. Ao contrário, ela modifica a própria relação do sujeito com o saber e com a verdade. O analista não ocupa o lugar daquele que sabe sobre o outro; sua própria análise o conduz a uma posição em que o saber deixa de funcionar como garantia de sua prática. É justamente essa experiência que torna possível sustentar a função que lhe cabe no discurso analítico.
Quando Lacan afirma que o analista só se autoriza de si mesmo, não se trata da reivindicação de uma autonomia individual nem da recusa da transmissão. Trata-se de afirmar que ninguém pode sustentar essa função apenas pelo estudo, pela técnica ou pela identificação com um ideal de analista. É preciso ter atravessado a própria experiência analítica para que essa posição se torne possível. Já estava em Freud a questão de que o saber da psicanálise só pode ser transmitido através da experiência. Ele diz isso a seu interlocutor imaginário em A questão da análise leiga que, somente “através da própria análise os processos postulados pela psicanálise adquirem as convicções que depois os guiarão como analistas” (Freud, 2014).
No resumo de O ato psicanalítico, publicado em Outros escritos, Lacan indica que a função do analista implica aceitar ser descartado ao final: “O em-si do objeto a que, nesse término, esvazia-se no mesmo movimento pelo qual o psicanalisante cai, por ter verificado nesse objeto a causa de desejo” (Lacan,2003). Essa formulação explicita uma consequência ética do percurso analítico: suportar a função de objeto a não significa identificar-se com ela, tampouco fazer dela um lugar de permanência. Ao contrário, implica consentir em ocupá-la enquanto ela opera e, ao seu termo, consentir igualmente em sua queda. É precisamente por não busca conservar essa posição que o analista pode sustentá-la.
É a experiência do ato analítico, com seus efeitos de destituição subjetiva e de transformação da relação com o saber, que torna possível ao analista sustentar a função que lhe cabe no discurso analítico. O ato, enquanto ato sem sujeito, não decorre da vontade nem da intenção do analista, mas se produz como efeito do próprio dispositivo. Nessa perspectiva, ocupar o lugar de causa do desejo não constitui um atributo pessoal e nem uma qualidade daquele que opera na clínica.
Como afirma Lacan em A direção do tratamento e os princípios de seu poder (1998), o analista paga com seu ser para que esse lugar possa operar. Se a análise do futuro analista não consiste na aquisição de um saber que o tornaria apto a exercer uma prática, mas em uma transformação de sua posição subjetiva, torna-se necessário interrogar os efeitos dessa experiência. É nesse ponto que a destituição subjetiva adquire seu valor fundamental.
A destituição subjetiva não deve ser compreendida como um ideal a ser buscado, tampouco como uma espécie de apagamento do sujeito. Ela é um efeito do ato analítico, uma consequência da operação que modifica a relação do sujeito com aquilo que o sustentava em suas identificações e em sua relação com o saber. O sujeito que chega ao final de uma análise não encontra uma verdade última capaz de completá-lo; depara-se, ao contrário, com o limite do saber, isso é, com a impossibilidade de recobrir aquilo que causa seu desejo.
Essa experiência produz uma transformação radical na relação com o saber; o sujeito não o abandona e nem se torna indiferente a ele. O que se modifica é o lugar que o saber ocupava. A análise conduz ao reconhecimento de que o saber não pode funcionar como garantia absoluta da verdade do sujeito. Há algo que escapa, um resto impossível de ser inteiramente capturado pelo significante, é justamente esse ponto que o discurso analítico preserva.
Essa questão encontra um desenvolvimento importante em O saber do psicanalista – conferências proferidas na capela do Hospital Sainte-Anne paralelamente ao Seminário 19, …ou pior – em que Lacan retoma a articulação entre saber e verdade. Nelas, o autor sustenta que há “uma fronteira sensível entre o saber e a verdade e é justamente aí que o discurso analítico se sustenta” (Lacan,1997). O problema, portanto, não é a ausência de saber, mas a impossibilidade estrutural de fazer coincidir saber e verdade. A verdade não se entrega como um conteúdo oculto que o analista possuiria e poderia transmitir ao analisante. A posição do analista não é a daquele que detém uma resposta sobre o sujeito, mas a de quem sustenta um lugar onde a verdade revela o vazio que a constitui, um vazio que não se trata de preencher, mas em torno do qual um novo dizer poderá advir.
Essa mudança de posição diante do saber é uma das consequências decisivas da experiência analítica. O analista não ocupa o lugar de quem sabe a verdade do outro; sua função implica, justamente, renunciar a esse lugar de garantia. Não porque lhe falte conhecimento, mas porque sua própria análise o confrontou com a impossibilidade estrutural de um saber que pudesse responder integralmente pelo desejo. É nesse sentido que a formação do analista não pode ser pensada fora da experiência do ato. A análise produz uma transformação que não é apenas terapêutica é, também, ética. Ela modifica a posição do sujeito diante daquilo que o determina e, ao fazê-lo, torna possível que ele venha a sustentar, para outrem, a experiência analítica.
O analista, portanto, não é aquele que ocupa o lugar de mestre do saber sobre o inconsciente. Ao contrário, o discurso analítico exige que ele sustente uma posição em que o saber não apareça como domínio ou como poder. O saber do analista deve operar de modo particular: não como resposta que fecha a questão do sujeito, mas como suporte para que algo da ordem do desejo possa aparecer.
Essa é a razão pela qual a causa de desejo pode ser tomada como princípio do ato. O objeto a, enquanto causa, não responde ao desejo, mas o coloca em movimento. O analista sustenta essa função ao ocupar o lugar que permite ao sujeito confrontar-se com aquilo que causa seu desejo. Ele não se oferece como aquele que preencherá uma falta, mas como aquele que permite que essa falta possa operar.
Podemos, assim, apreender melhor a articulação entre ato analítico e formação do analista. O ato não é apenas aquilo que produz efeitos no analisando; ele também incide sobre aquele que sustenta a posição analítica. A experiência do ato transforma o próprio sujeito que, ao final de sua análise, poderá ocupar essa função. O analista é resultado de uma travessia, na qual sua relação com o saber, com a verdade e com o desejo foi radicalmente modificada.
Quando Lacan afirma que o analista só se autoriza de si mesmo, essa autorização não deve ser tomada como uma decisão voluntária ou como uma escolha imaginária — ela é a consequência de uma experiência vivida. O analista só pode ocupar essa função porque sua própria análise o conduziu ao ponto em que não precisa mais se sustentar como sujeito suposto saber de si mesmo ou dos outros. Sua autorização está ligada ao que sua análise produziu como transformação.
O analista não ocupa o lugar de objeto a como uma posição permanente e nem como uma identificação; ele suporta uma função que só existe enquanto opera na experiência clínica.
Aceitar ser descartado não significa uma desvalorização da função do analista e nem uma redução de sua importância no processo analítico. Pelo contrário, é justamente porque o analista não busca permanecer nesse lugar que ele pode sustentá-lo. Sua função não é produzir uma dependência interminável, nem conservar para si o lugar de causa do desejo do analisando. O ato analítico implica, do mesmo modo, o momento em que essa função cai, esse ponto desvela uma dimensão ética fundamental. A posição do analista exige o consentimento em sustentar algo que, por sua própria natureza, está destinado a desaparecer. O analista suporta a função de objeto a sem se confundir com ela. Ele não é o objeto, mas ocupa temporariamente essa posição no discurso analítico. E é porque pode consentir em sua queda que esse lugar não se transforma em exercício de poder.
Podemos, assim, retomar a questão que orienta este trabalho: o que torna possível ao analista suportar a função que lhe cabe no discurso analítico? Como foi dito acima, resposta não está em um acúmulo de conhecimentos, tampouco na aplicação correta de uma técnica. Ela se encontra na própria experiência analítica e nos efeitos que esse percurso produz. O ato analítico, ao transformar a posição subjetiva do analisante, produz um novo analista em potencial por meio de uma modificação radical da relação com o saber. É essa travessia que o autoriza a ocupar a posição exigida pela ética da clínica.
A causa de desejo aparece, assim, não como um atributo do analista, mas como o princípio que orienta o ato. O analista não se coloca como aquele que possui a verdade do sujeito; ele sustenta, antes, a função que permite ao desejo se apresentar. Seu lugar é paradoxal: sua presença é necessária para que a análise aconteça, mas sua função só se realiza plenamente quando ele pode consentir em cair de tal posição.
É por isso que o ato analítico não pode ser separado da ética da psicanálise. O ato exige um analista capaz de sustentar a falta, de não recobrir o impossível com um saber qualquer e de suportar a posição que lhe cabe sem transformá-la em identidade. A formação do analista encontra aí seu ponto decisivo: ela não consiste em credenciar alguém para ocupar o lugar de especialista, mas em produzir uma posição subjetiva capaz de operar a partir da causa de desejo.
É a experiência do ato analítico, com seus efeitos de destituição subjetiva e de transformação da relação com o saber, que torna possível ao analista suportar a função que lhe cabe no discurso analítico. Ao sustentar essa função, ele permite que a análise aconteça e, ao mesmo tempo, consente que aquilo que sustentou seu trabalho possa, ao final, ser descartado.
Referências
FREUD, S. Obras completas – volume 17 (1926-1929) tradução de Paulo Cesar de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. p.146.
LACAN, J. O saber do psicanalista. Tradução de Denise Coutinho – BA -Publicação interna da Associação Freudiana Internacional, 1997. p. 14.
________. A direção do tratamento e os princípios do seu poder (1958). In: Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. p. 591-652.
________. (1967-1968) O Seminário, livro 15: o ato psicanalítico. Lição de 17 de janeiro de 1968. Tradução para circulação interna e uso dos membros da Escola de Estudos Psicanalíticos,2001. p. 89.
________. O Ato Analítico – Resumo do seminário de 1967-1968. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. p. 371 a 379.

