RLZ 17

Que lugar para o infantil na formação do analista?

Maria Claudia Formigoni

Poderia falar da formação do analista a partir do cartel, do passe, da supervisão, da entrada na Escola…, mas optei por trazer aqui outro aspecto também inerente à formação do analista: a abertura conquistada e sustentada a partir de uma análise.

É essa abertura que o ensino lacaniano, com suas idas e vindas, construções, formalizações, referência e diálogo com outros tantos campos tenta fazer passar. Trata-se de um ensino que não oferece ganho de saber, acúmulo de conhecimento ou promete respostas. Produz, sim, um desassossego, um incômodo, uma inquietação que possibilita manter aberta a via que permite suportar “o real em jogo na formação do psicanalista” (Lacan, 1967/2003).

Todavia, esse ensino não (se) basta, pois o saber que interessa à psicanálise não vem daí. Advém, sim, da experiência analítica, daquilo que cada um pode decantar de sua análise. É preciso experienciar, sentir na pele, em carne viva, para que disso se extraia um saber que permitirá, àqueles que assim o desejarem, operar como semblante de a, causando o desejo do sujeito dividido.

Esse saber, o saber do inconsciente, não faz sentido, não explica, não se encadeia. Mas passa em ato. Pode ser transmitido via o que se lê naquilo que se escuta. Naquilo que se escuta. Naquilo que se lê. Aí está o que do significante não se articula ao sentido.

Quando não se tem a pretensão de entender, algo pode ser escutado e, depois, lido; com o corpo, com outros ouvidos, porque não há sentido, mas algo passa. É o sem sentido que toca, independente da língua em que se fale. Disso que escapa ao sentido não há tradução possível, mas há transmissão (contingente, como sabemos).

Aquilo que escapa surpreende, corta, causa, abre. Abre para o real da língua. Esses efeitos vêm justamente do sem sentido, da falta de correspondência entre a palavra e a coisa, entre o que se diz e o que se ouve.

Dessa falta de correspondência as crianças sabem bem: futegol, urso colar, sorveletria, cobertar, desavessar, ovomelete…

As crianças, como diz Manoel de Barros, fazem o verbo delirar. Isso rompe com a tendência a um sentido único, generalizado, dicionarizado. Há nas crianças uma bobagem linguageira que, muitas vezes, provoca riso e surpresa justamente por romper com o estabelecido.

As crianças são menos alfabestas; têm uma relação menos fechada com a linguagem. Por isso, a distorcem, brincam com as palavras e alteram a gramática. Porém, na escolarização, isso que faz resistência à universalização, por não se adequar às normas, é tido como um erro, como um desvio. Precisa, portanto, ser corrigido a fim de se adequar às regras ortográficas, atreladas ao sentido.

Não há outra saída a não ser assujeitar-se ao Outro. Isso é estrutural e estruturante. É preciso falar a língua do Outro, escrever como o estabelecido, conjugar conforme o esperado. Entretanto, há algo dessa dimensão da língua — que Lacan chama de maternal, fazendo referência a alíngua (lalangue) —, única a cada ser falante, que é inapagável, ineliminável. Resiste e insiste, escapando pelas palavras.

Mas como não a tomar como erro, esquisitice ou inadequação, e poder dar-lhe ouvidos e voz?

O contrassenso do dizer infantil coloca em cena o sem sentido. Em uma análise, isso ganha lugar. Para a psicanálise, o que está em causa em qualquer análise, seja de um adulto ou criança, é sempre o infantil, núcleo estrutural do falasser, em que se inscrevem as particularidades que darão as formas — sintomáticas e de gozo — pelas quais o sofrimento subjetivo se mostrará.

A partir do estudo dos sonhos, Freud (1900) evidencia que os conteúdos infantis do psiquismo aparecem ligados aos desejos inconscientes. Tais conteúdos estão sempre em “estado de alerta”, prontos para buscar um meio de se expressarem. Esse material infantil recalcado, “imortal” e em constante estado de alerta, Freud o compara aos Titãs que — mesmo esmagados pelo peso das montanhas — as abalam de tempos em tempos.

O infantil mostra a sua cara; dá-se a ver e faz-se ouvir. A neurose é infantil. A sexualidade é infantil. Os sonhos provêm do infantil. O desejo é infantil. Por isso, Freud (1909) afirma que “o inconsciente é o infantil”. Disso decorre que o infantil é atuante em todas as idades. Configura-se na infância e acompanha o sujeito pelo resto de sua vida, marcando o tom de como cada falasser se coloca no mundo.

Esse tom, que fica interditado, pode ser ouvido e lido em uma análise. Sustentar a psicanálise em intensão é dar lugar, portanto, ao infantil, ou seja, ao traço do que “há de gozo ineliminável, irredutível, que o sujeito deve ao fato, se não de falar, pelo menos de haver consentido no significante” (Sauret, 1997). Traço que fica recalcado, mas que marca, de modo único, cada ser falante.

O discurso analítico oferece a possibilidade do sujeito se separar das amarras do Outro. Promove, consequentemente, a afirmação da diferença absoluta e a sustentação da singularidade no mundo. Abre espaço para as diferenças de gozo, dando margem de liberdade ao desejo de cada um.

Trata-se “da liberdade de que isso se diga, de modo que, independentemente da idade, o sujeito tenha a possibilidade de dizê-lo de outro modo” (Alberti, 2024). Podemos, a partir de uma outra relação com o inconsciente, falar e escrever de modo mais livre, menos fixado a certo discurso e a certas normas. As crianças, assim como os poetas, preservam algo dessa liberdade. Podemos, ao atravessar uma análise, ficar — por que não? — mais crianças na vida.

Sustentar a psicanálise é oferecer a oportunidade de que uma análise possa ser, para um sujeito, a possibilidade de o “verbo pegar delírio” (Barros, 1993). De que uma nova escrita possa advir. De que o sujeito faça poema com os traços de gozo, como disse Dominique Fingerman em uma atividade no FCL-SP, em 2025. De que cada um possa falar a própria (a)língua, via de transmissão daquilo que foi autorizado.

Uma análise abre o caminho para que um “sujeito possa, de fato, desfrutar do infantil, que é estruturalmente sua reserva libidinal, permitindo-lhe extrair satisfação da vida” (Machado, 2025). Permite gozar da vida e da própria singularidade, sustentando a alegria de estar à margem.

Atravessar uma análise abre, portanto, para uma outra política, a política do infantil. Essa política implica a formação do analista e a transmissão da psicanálise. Transmissão e formação implicam, por sua vez, a Escola. Escolha de alguns para dar destino ao saber que se decanta em uma análise.

Na Escola, enlaçados pelo interesse comum pela psicanálise e seus problemas cruciais, estão os analistas dispostos a dar suas provas pela exposição de seu trabalho e de sua relação singular com a causa analítica. Esparsos díspares que trabalham juntos a partir da “participação no desejo que anima o outro” (Soler, 2015) e da diferença absoluta que sustentam.

Nessa Escola, a nossa, é o que não se educa, o ineducável, que tem lugar e causa. O infantil objeta-se à formatação, a um projeto educativo. Então, em uma Escola de analistas, o saber não deve ser regulamentado, pois não há Outro que possa impor suas regras e suas ordens.

Em épocas em que a psicanálise vem sofrendo diversas ameaças e em que a alienação é constantemente promovida, faz-se fundamental, portanto, sustentar a possibilidade de que as condições para a contingência do ato analítico sejam preservadas. A subversão analítica — a do infantil como política, aquela que traz efeitos radicais para a vida, retirando o sujeito de uma repetição maldita — precisa continuar acontecendo.

Daí, como afirma Colette Soler (2024), “as lutas legítimas, e talvez inevitáveis, para sustentar uma Escola de psicanálise para, pelo menos, preservar tempo e locais em que a gestão do grupo e as regulagens da doxa não desfaça para todos o que a psicanálise tenta fazer para cada um”.

A enunciação singular, a relação única com a causa analítica e o modo como cada um, um a um, mas não sem alguns outros, se vira para, a cada vez, reinventar a psicanálise são o que a mantém viva e pulsante.

Apostar em uma formação que tenha o infantil como orientação é apostar que a singularidade faça resistência à comum-unidade, apontando para a lógica dos esparsos díspares, que se sustenta na relação de cada um com o desejo do analista.

Cada um se haver com a sua solidão e, com isso, junto a alguns outros, fazer uma Escola possível de sustentar a psicanálise, a cada vez. 

Referências

ALBERTI, S. 1º prelúdio ao XXIV Encontro Nacional da EPFCL-Brasil. 2024.

BARROS, M. (1993). O livro das ignorãças. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2016. p. 17.

FREUD, S. (1900) A interpretação dos sonhos. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Tradução sob a direção de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, vols. IV e V. 2006. p. 583.

________. (1909) Notas sobre um caso de neurose obsessiva. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Tradução sob a direção de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, vol. X. 2006. p. 131.

LACAN, J. (1967) Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola. In: Outros Escritos, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. p. 249.

________. (1973) Posfácio ao Seminário 11. In: Outros Escritos, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. p. 504.

MACHADO, Z. Da criança generalizada ao sujeito responsável por seu gozo. Revista Stylus de Psicanálise. São Paulo, nº 50, julho de 2025. p. 65-70.

SAURET, M. J. O infantil & a estrutura. Escola Brasileira de Psicanálise, São Paulo,1997. p. 21.

SOLER, C. Qué es lo que hace lazo? Asociación Foro Campo Lacaniano Medellín, 2015. p. 65.

________. Conclusões e perspectivas. In: Psicanálise, não o pensamento único: história de uma crise singular. FCL-SP, São Paulo, 2024. p. 251.