Ana Paula Pires
O sujeito só é sujeito quando é capaz de experimentar,
em si mesmo, algo que o ultrapassa.
Vladimir Safatle
O passe em uma Escola é uma tensão,
uma intrusão no singular da experiência analítica.
Silvia Franco
Pensar a questão do passe a partir de minha experiência no dispositivo me transportou para longe — especificamente para 2008, há 18 anos. Relembrar daquele momento, minhas inquietações de outrora, os recursos de que dispunha para pensar algumas questões e as tantas voltas que se sucederam desde então foi um exercício bem interessante. Fui resgatar as anotações que fiz quando atuei como passadora, bem como o material que preparei para o encontro com o cartel do passe. Anotações que, na ocasião, acabei deixando de lado para falar de improviso, atendendo ao pedido dos próprios membros do cartel.
Antes de avançar sobre esse ponto, devo dizer que o que me instigou a escrever este texto foi o título desta mesa — A ética do passe —, acompanhado de um fragmento do texto do Christian no boletim, que traz uma ideia do que se aposta neste biênio de 2025/2026 no FCL-SP: “Se a formação do psicanalista é a formação de um desejo, na contradição entre saber e verdade, a transmissão desse desejo demanda a gramática do passe, sua generalização e incidência na comunidade a que se destina”.
E qual é a gramática do passe? Nela há de haver transmissão, contingência, articulação com o fim de uma análise, consideração pelo Real, pelo inconsciente, e pela lógica do coletivo; há repetição em busca de algo inédito, o duplo, acesso à singularidade e a extração de uma lógica com consequências analíticas. E ainda, no passe habita o hiato, o intervalo, o improviso, o ato poético, a verdade ficcional, a pressa, o tempo que passa, a incerteza, a graça, a certeza, a marca, a escolha, a passagem. Há algo mais analítico? Esses elementos delimitam um campo de tensão, e a ética do passe talvez diga respeito, justamente, ao modo como esse dispositivo sustenta tais forças sem a pretensão de resolvê-las.
Comentarei brevemente como alguns destes elementos comparecem no passe, especialmente a transmissão, a contingência e a lógica do coletivo.
Começo pela Proposição de 9 de outubro de 1967, texto em que Lacan (2003) apresenta o dispositivo do passe. Destaco algumas passagens: “Existe um real em jogo na própria formação do psicanalista. “(…) As sociedades existentes fundam-se neste real” “(…) Esse real provoca seu próprio desconhecimento, ou até produz sua negação sistemática”. “(…) Objeto, objetivo e término da prática da psicanálise permaneceram inarticuláveis (…) remediar isso, entre nós, deve ser feito pela constatação da falha que registro, longe de pensar em encobri-la. (…) Para colher nessa falha a articulação que falta”.
Não por acaso, nessa mesma época Lacan elabora a noção de ato psicanalítico, oferecendo uma perspectiva fecunda para pensar o momento do passe: a passagem de analisante a analista. O passe interessa menos pelo saber que se poderia extrair de uma análise do que pelas consequências de um ato. É nessa perspectiva que proponho ler o dispositivo do passe. Lacan colocou um mecanismo furado no coração da Escola, no cerne da ideia de garantia. Trata-se de uma aposta institucional singular: em vez de contornar a falha, faz dela a condição mesma de um trabalho permanente de elaboração. Talvez resida aí uma primeira dimensão ética do passe: preservar, no interior da Escola, um lugar onde a falha não seja recoberta por garantias imaginárias, mas permaneça gerando investigação.
O que Lacan estava tentando barrar? O modo hierárquico e burocrático por meio do qual os psicanalistas mantinham sua mestria e privilégios na transmissão e na autorização de outros analistas. Alguns dias depois de apresentar sua proposta de passe aos psicanalistas titulados de sua Escola, ele se pergunta: “A Proposição será um ato? Depende de suas consequências (…)”. E segue: “minha Proposição reside neste ponto do ato: pelo qual se revela que ele nunca teve tanto sucesso como ao falhar”.
Talvez porque o tempo de um dispositivo como esse não coincida com o tempo de seus acontecimentos, mas com o tempo longo de seus efeitos. Tecendo duras críticas ao funcionamento institucional das Escolas de psicanálise e de seus analistas didatas, Lacan alerta que “o impróprio não é que alguém se atribua a superioridade, ou até o sublime da escuta, nem que o grupo se garanta com base em suas margens terapêuticas, mas que a enfatuação e a prudência façam as vezes de organização”. E conclui:
É que quando se chega a escrever que minha proposição teria por fim entregar o controle da Escola a não-analistas, não posso fazer menos do que aceitar o desafio (…). O não-analista não implica o não-analisado (…). Nem mesmo o não-praticante (ainda que admissível neste lugar) (…) introduzo aí um não-analista em expectativa, aquele que se pode apanhar antes que, ao se precipitar na experiência, ele sofra, ao que parece em regra geral, como que uma amnésia de seu ato (…) suspense. (…) É com essa precariedade que espero que se sustente meu analista de Escola.
Como não admirar a ousadia dessa invenção?
Lacan localiza o passador como sendo ele próprio, ainda, o passe, na medida em que escuta o passante e testemunha perante o cartel, fazendo a transmissão de um lado ao outro a partir de sua evanescente e precária condição de báscula. Entende, assim, que há algo de estrutural nessa vacilação que se produz no momento de queda do SsS — instante no qual o sujeito antevê uma transformação radical em sua forma de estar no mundo, embora provavelmente ainda não tenha se separado, transferencialmente, de seu analista. Apostar que ali mesmo, contando com essa contingência e à espera desse advir (wo Es war soll ich werden), colheremos o que importa ser ouvido: eis a ética do passe. Ela aposta na contingência da posição singular do passador em sua relação com o saber e com a verdade.
Dominique Fingermann evoca essa oscilação desassossegada no momento do passe: “Essa duração é o tempo da oscilação, do vacilo do movimento pendular de uma balança que perdeu o peso, o lastro, e não equilibrou ainda a sua gravidade”. O passe inclui uma dimensão ética de escolha, afinal, o momento do passe é fugidio, evanescente, uma ocorrência. E como escolher, como designar um passador? O que procurar ali? Ela responde que isso “se avalia na disposição ética de um analisante – a dignidade de sua relação com o real – e nas suas qualidades lógicas e poéticas destacadas pela sua cura analítica”. A ética do passador diz respeito à sua consideração pelo real. Ele entreviu algo das armadilhas do sentido e, por isso, aborda o limiar do oco do ab-sens. É alguém que também conhece de perto um certo tratamento conferido à angústia, afeto que se faz presente na aproximação com o Real.
Deixar-se atravessar pelo dizer do passante, ser uma placa sensível que não oferece resistência ao que nela se imprime e, ao mesmo tempo, extrair o âmago do testemunho, acompanhar os giros, relatar em menos tempo o que foi dito. Pascale Leray aborda esse momento do passe clínico no qual o passador deve se encontrar: um instante ativo em que a falha do SsS abre um acesso à certeza de um saber inconsciente,
(…) que não é de sujeito algum, distinto de sua verdade, a partir do qual ele tem que reconhecer o que, singularmente, faz seu horror de saber. É o que está mudando radicalmente em seu desejo que lhe permite afrontar o horror de saber que lhe é próprio (…). O passador pode iluminar algo que está se produzindo “neste hiato que se opera entre efeitos de verdade e saber em causa no desejo de saber. No efeito de sua divisão subjetiva.
A lógica do passe parece reencontrar aqui a do sofisma dos três prisioneiros: um coletivo constitui as condições para o ato, sem jamais substituir a decisão singular. Temos aqui a certeza antecipada e a lógica do coletivo. É possível ler os efeitos subjetivos do instante de ver, do tempo de compreender e do momento de concluir nesta citação de Marc Strauss: “digamos que o passador pode sabê-lo, mas ainda não se apoia no ato no qual se projeta o passante. Que um outro o faça o espantará (soprará) tanto mais quanto ele esteja perto disso, sem aí estar completamente ainda”. Há entre eles uma proximidade lógica, mas a separação do “momento efetivo do ato é incalculável”.
Lacan considera que a hesitação pode ser sinal de que há um ato em curso. E essa lógica do coletivo se materializa na própria quantidade de participantes que o dispositivo mobiliza: passante, passador, cartel do passe, CLEAG, CIG, além do analista que indica o passador. Quantos envolvidos em cada testemunho! Fingermann se refere à máquina gigantesca que, a partir de um sorteio, produz um efeito formidável de deslocamento. Sorte, contingência. Agora são os atores do jogo que estão em cena, engendrando uma travessia do campo do esperado. O passe produz a psicanálise em ato, compõe algo até então inaudito e faz saber as consequências do desejo de analista.
Lacan se refere, em Televisão, à necessidade de alguns analistas. “Passe: o exame do que faz um analisante decidir colocar-se como analista – e sem forçar ninguém a fazê-lo (…). O que sei é que o discurso analítico não pode ser sustentado por um só. Tenho a sorte de haver quem me siga. O discurso, portanto, tem aí sua chance”.
É interessante, também, observar o fato de que o passante “repete” seu testemunho para dois passadores. Claro está que não há como repetir. Que efeitos pode produzir, para o passante, a duplicação da sua fala endereçada para dois diferentes e, qual é o efeito, para o cartel do passe, de escutar dois relatos distintos de um único passante? Sabemos da importância de S1 e S2 para que se possa escutar o intervalo, o hiato. É incrível o modo como opera esse dispositivo. O que é evocado em cada participante dessa montagem quando se propõe a colher algo do ato analítico; dessa passagem do analisante a analista, algo tão enigmático e, ao mesmo tempo, tão caro a todos que estão nessa cena? Como passa um dizer? Aí se articulam a contingência e a responsabilidade, em uma verdadeira expansão do ato.
Faz-se necessário um comentário sobre a transmissão. Na verdade, é disso que estamos tratamos desde o início. Enquanto escrevia este texto, lembrei-me de uma das inúmeras entrevistas da atriz Fernanda Torres que circularam recentemente. Ao falar do filme Ainda Estou Aqui, ela o define como uma obra sobre transmissão de experiência. Sendo a transmissão o ato de levar um legado adiante. Fernanda evoca sua mãe, a atriz Fernanda Montenegro, e Eunice Paiva como contemporâneas que criaram filhos capazes de escrever livros e atuar. Há aí a ideia de que o filme foi feito por crianças que sofreram, por tabela, uma violência de Estado e que, décadas depois, criaram algo para que esse real nunca seja esquecido. Percebe-se aí uma certa homologia com o dispositivo, algo que ressoa num vazio, que pode ser capturado por algumas pessoas e que, pelo potencial de sua ressonância entre diferentes agentes e diferentes tempos, alcança um acesso.
É desse modo que penso o dispositivo do passe. A sensibilidade de quem conta ou escuta a história faz com que se empenhe algo de si para transmitir a narrativa, transmitindo-a como sua própria experiência àqueles que a ouvem, como diz Walter Benjamin. Testemunhamos muito disso a respeito desse filme: Walter Salles frequentava a casa de Rubens Paiva, a mãe de Selton Mello também conviveu com o Alzheimer, Fernanda Torres buscou a estatueta que a mãe não trouxe, afora todas as implicações políticas dessa premiação no atual cenário do Brasil e do mundo.
Esse também é um dos efeitos do passe: opor-se ao esquecimento. Não para conservar uma memória, mas para fazer subsistir um dizer mais além daquele que o enunciou. Um dizer que continue encontrando outros e produzindo deslocamentos, mesmo quando já não há quem possa garanti-lo.
Quando ouvimos uma história, o que lhe dá consistência e continuidade é sua trama fantasmática. Essa constância é o que dá sentido e une os fragmentos de lembranças, cenas ou imagens. Interpretamos, compreendemos, nos identificamos; colocamos algo ali ou subtraímos fragmentos, como diria Freud: “os capítulos censurados”. Buscamos análise quando a estrutura fantasmática já não dá conta de ocultar o Real. Passamos a vida escamoteando, evitando saber algo disso que não cessa de não se escrever. No entanto, uma escuta atenta ou uma boa narrativa permitem ouvir tanto a verdade mentirosa — essa que chamamos realidade — quanto um pouco além. Algo que não se integra, uma orelha no meio do jardim, uma pergunta sem sentido, um olhar fora do lugar. Uma análise nos sensibiliza para ouvirmos essas falhas como signo do Real, como algo que comanda a verdade e importa, mesmo não estando acessível. Quando ouvimos um testemunho, a depender da posição em que estamos em relação ao saber e à verdade, podemos escutar mais, ou menos, as descontinuidades, deixando-nos impactar por elas.
Por fim, e retornando ao início, parece que Lacan levou mesmo a sério a ideia de que o sujeito só é sujeito quando é capaz de experimentar, em si mesmo, algo que o ultrapassa. Philipe Barillot nos conta que Lacan escreveu uma carta aberta sobre sua própria vida para o jornal Le Monde, por ocasião da dissolução de sua Escola em 1980. Escreveu que passara a querer ser Outro, apesar da Lei. Conforme comenta Barillot:
Podemos nos contentar em sermos outro como todo mundo e, depois de uma vida passada, querer ser outro, apesar da Lei. Querer ser outro, entende-se não ser reduzível ao que a Lei prescreve. Isso não quer dizer que se definia como um transgressor da lei, mas não reduzível a um todo apreensível.
Seria isso “assumir como de sua lavra seu discurso inconsciente”? Não seria precisamente isso que está em jogo no cartel do passe? Talvez uma Escola permaneça viva apenas enquanto não renuncia a esse trabalho: não o de preencher a falha, nem o de convertê-la em garantia, mas o de continuar recolhendo dela aquilo que ainda pode ser articulado. Como escreve Lacan na Proposição de 9 de outubro de 1967, trata-se de “colher nessa falha a articulação que falta”. Talvez resida aí uma das formulações mais precisas da ética do passe.
Referências
BENJAMIN, W. O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. (Obras Escolhidas, v. 1). Tradução de Sergio Paulo Rouanet. 8. ed. São Paulo: Brasiliense, 2012. p. 201.
FRANCO, S. Das consequências analíticas do passe: o inessencial do sujeito suposto saber. Revista Stylus de Psicanálise. Rio de Janeiro: Associação Fóruns do Campo Lacaniano, n. 19, 2009. p.101.
SAFATLE, V. Introdução a Jacques Lacan. Prefácio Joel Birman. Belo Horizonte: Autêntica editora, 2020. p. 80.
Filmografia
Ainda Estou Aqui. Direção: Walter Salles. Produção: RT Features, Conspiração Filmes e MACT Productions. Distribuição: Sony Pictures Classics, 2024. Filme (137 min.).
Blue Velvet. Direção: David Lynch. Produção: Fred Caruso. De Laurentiis Entertainment Group, 1986. Filme (120 min.).
El pacto de Adriana. Direção: Lissette Orozco. Produção: Storyboard Media; Salón Dorado. Chile, 2017. Documentário.

