Conversa com Leonardo Assis.
Dominique Marin
O interesse de Lacan pela obra de Beckett não é muito evidente, mas é bem real. Identifiquei quatro ocorrências ao longo do que Lacan nos deixou. Precisamente, é a última delas que leva Leonardo a refletir, com tanta precisão, que Beckett teria antecipado o destino de dejeto próprio da passagem a analista. Vou passar rapidamente pelas três primeiras referências de Lacan a Beckett, destacando a sequência ou o fio condutor que vai do sujeito suposto saber ao dejeto.
- As 4 ocorrências de Lacan a Beckett
1) A primeira referência a Beckett surge em 1956, em um artigo intitulado “A situação da psicanálise e a formação do psicanalista”. Nesse texto, Lacan promove a relação do sujeito com o significante como o único suporte sobre o qual opera a psicanálise. Ele ilustra essa complexidade retomando a frase de Virgílio, frequentemente traduzida como “O número ímpar agrada à divindade” ou “Deus se regozija com um número ímpar”, em referência à Santíssima Trindade. Lacan elogia a tradução feita por André Gide: “O número dois se regozija em ser ímpar”, que ele próprio traduz nestes termos: “… números, são dois, que não têm seu igual, ficam esperando por Godot”. Embora Lacan faça uma alusão à peça de Beckett, encenada pela primeira vez em 1953, ele não menciona seu autor. Essa alusão não vai além disso.
2) A segunda referência, desta vez explícita, encontra-se na aula de 13 de junho de 1962 do Seminário A Identificação. Nela, Lacan desenvolve a topologia do fantasma e destaca a dimensão acósmica do objeto do desejo, ou seja, sua ausência de relação com o mundo sensível. O objeto do desejo não é conatural ao homem. Lacan chega a falar da função “fundamentalmente acósmica” do desejo humano, sem vínculo com a dimensão sensível do mundo. Isso levanta uma série de problemas, os quais qualifica de “coisas do Théo” e sobre os quais, afirma ele, “temos que tomar partido”. O partido de Lacan é o de não acrescentar nada ao sujeito suposto saber. Ele considera, aliás, que sua principal contribuição à teoria e à prática analítica diz respeito à função do Théo, graças à sua elucidação da “história do pai em Freud”. Nessa lição, Lacan simplesmente se pergunta, como tantos outros, por que razão Beckett não chamou Godot simplesmente por um dos nomes de Théo, “pelo seu verdadeiro nome, o Ser supremo?”.
Vamos arriscar uma resposta. Frequentemente questionado sobre seu personagem mítico, Beckett se recusava sistematicamente a responder, às vezes com veemência. Ele escreve a Michel Polac a respeito de um projeto de adaptação de Esperando Godot para o rádio: “Não sei quem é Godot. Nem mesmo sei se ele existe. E não sei se os dois que o esperam creem nele ou não”. Quanto ao nome, ele escreve a um diretor alemão que, se este “sugere os céus, é apenas na medida em que um produto para fazer crescer o cabelo pode parecer divino. Cabe a cada um dar-lhe um rosto. Outros, mais afortunados, verão nele Tânatos.”
Beckett é um escritor importante justamente porque questiona a dimensão acósmica do desejo e as coisas de Théo que isso gera — artimanhas e artifícios dos quais faz parte a noção de sujeito suposto saber, tão importante para nós. Talvez a obstinação de Lacan em questionar incessantemente a questão do Nome-do-Pai e do sujeito suposto saber a ele associado nos torne mais sensíveis a isso.
3) A terceira referência encontra-se na abertura do Seminário De um Outro ao outro, essa passagem da cura que nos leva de um Outro com “A” maiúsculo para outro pequeno a, com toda a ambiguidade que a ligação em francês favorece, o pequeno monte, como se diz em francês: um pequeno monte de lixo. Lacan relembra seu jogo de palavras sobre a poubellication de seus Escritos e acrescenta: “Quanto à lata de lixo, nestes tempos dominados pela genialidade de Samuel Beckett, temos certo conhecimento dela”.
Ele diz que entende de lixo por ter frequentado três sociedades analíticas! Em seguida, retoma sua fórmula do sujeito e diz o seguinte: “O sujeito, seja qual for a forma em que se produza em sua presença, não pode reunir-se em seu representante de significante sem que se produza, na identidade, uma perda, propriamente chamada de objeto a”. Daí o termo “opaco” para qualificar o significante, já que ele, justamente, veicula o gozo. Convém destacar essa expressão do objeto a, como perda na identidade, a qual encontra seu contrapeso provisório, como diz Lacan mais adiante, no “não-gozo, a miséria, o desamparo e a solidão. Tal é a contrapartida do a, desse mais-de-gozar que constitui a coerência do sujeito enquanto eu”.
Depois das coisas de Théo, o segundo ponto a ser destacado, diretamente relacionado a Beckett, diz respeito à coerência do sujeito, ou seja, ao seu eu, que se insere no “mais-de-gozar”, esses pequenos nadas solidários com o objeto a em sua versão de dejeto. Não há nenhum acesso possível ao objeto causa do desejo, que é vazio, exceto por esses pequenos nadas que permanecem e servem à pulsão. Por exemplo, em Malone Morre, seu quinto romance, Malone, como muitos de seus personagens, está em busca de sua identidade. Perto do fim, impotente e acamado, ele faz um inventário do que possui: um chapéu velho, um caderno e um lápis, como se esses objetos pudessem responder por sua identidade. Podemos ler nisso uma antecipação de sua peça teatral Oh os belos dias!.
À medida que os recursos para viver, lembrar e conhecer seus personagens vão se esgotando, Beckett busca o que permanece vivo para causar o desejo. Mais uma vez, a citação de Beckett por Lacan não pode deixar de ressoar com um dos três impossíveis enunciados em seu romance Watt: “A única maneira de falar de nada é falar disso como se fosse alguma coisa”. Esse impossível de dizer diz respeito à causa do desejo, tão difícil de alcançar.
4) A quarta e última referência encontra-se no Seminário De um discurso que não fosse semblante, lição que deu origem ao artigo intitulado “Lituraterra”. Antes mesmo de iniciar seu estudo sistemático da obra de Joyce, durante seu vigésimo terceiro seminário, Lacan reconhece, nessa aula, que Joyce representou “o melhor que se pode esperar da psicanálise em seu término”. Ele então evoca a má recepção reservada à sua proposta sobre a passe em outubro de 1967, questão crucial sobre os fins e o fim da cura analítica; a ponto de indicar ao público de seu seminário o seguinte: “Eu estava um pouco cansado da lata de lixo à qual vinculei meu destino”. Para, em seguida, passar diretamente a falar de Beckett: “No entanto, sabemos que não sou o único, por destino, a confessá-lo [l´avouer] — o avouère [dialeto do Poitou], para pronunciar à moda antiga —, o haver [l´avoir] do qual Beckett faz o balanço com o deve [doit] que compõe o dejeto de nosso ser. Esse confessar salva a honra da literatura e, o que muito me agrada, libera-me do privilégio que eu poderia acreditar extrair do meu lugar”.
Nos livros contábeis, o débito e o crédito distribuem os valores devidos e os que estão em caixa — um equilíbrio impossível de alcançar. Nenhum crédito pode cobrir a dívida do sujeito, o seu débito, sem aumentá-la, segundo a lógica do mais-de-gozar. Se há uma obra literária que confessa justamente a vaidade desse jogo enganador entre crédito e dívida, é a de Beckett; e Lacan escreve que ela “salva a honra da literatura”. Que homenagem! Lacan acrescenta ainda que nela encontra um apoio quanto ao lugar que ocupa sem “acreditar nisso”, pois não está sozinho. Não está sozinho em ter ligado seu destino à redução da letra ao dejeto, à the litter, que Lacan traduz como “lixo”.
- Não se deixar levar pelas aparências e manter-se firme em sua posição de dejeto
Essas duas expressões, “não se deixar levar pela crença” e “estar bem seguro em sua posição de dejeto”, aparecem associadas uma à outra em uma conferência de Lacan em Nice, intitulada “O fenômeno lacaniano”, datada de 30 de novembro de 1970. Vou abordar esse assunto antes de destacar alguns elementos da posição de Beckett e seu próprio “não se deixar levar pela crença”.
Ao ler Beckett, não é fácil mensurar sua imensa erudição cultural. Seu amigo e biógrafo oficial, James Knowlson, dizia que, para ele, estar ao lado de Beckett era como estar diante de dois séculos de cultura. Muito pouco transparece em seus escritos porque ele conduzia uma pesquisa — algo que tentei retratar em meu ensaio — sobre a linguagem e os recursos possíveis para explorá-la. Em 1969, ele recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, fato que o próprio Beckett classificou como “a catástrofe”. Três anos mais tarde, recusou que James Knowlson, seu amigo há vinte anos, começasse a escrever sua biografia. Foi apenas em 1989 que lhe concedeu a autorização, oferecendo sua própria ajuda. Beckett faleceu em dezembro daquele mesmo ano, muito antes da conclusão da obra, que viria a ser publicada dez anos depois. A catástrofe era justamente que as pessoas se interessassem por sua pessoa mais do que por seus personagens e suas obras; a catástrofe era que transformassem suas produções em um negócio industrial, em uma marca.
Nessa mesma linha, sabemos, por meio de sua correspondência, que ele era muito meticuloso quanto à forma como suas obras deveriam ser orquestradas. Tinha o cuidado de um maestro, às vezes fazendo seus atores trabalharem com um metrônomo para marcar o ritmo, da mesma forma que suas didascálias apresentam uma precisão coreográfica extrema, detalhando duração, iluminação, movimentos, entre outros elementos. Pois bem: apesar dessa meticulosidade, às vezes acontecia, como escreveu em uma carta que acompanhava o manuscrito de uma peça ou de um romance — não me recordo com exatidão —, algo que cito de memória: “Peço que recebam meu texto em toda a sua imperfeição”, com, em suma, a proibição implícita de corrigi-lo. Pochades e Esquisse radiofônicas expressam, já no próprio título desses textos para o rádio, essa dimensão de uma execução necessariamente imperfeita. Foi isso que minha filha Ondine me fez notar — ela que escreveu uma monografia de pesquisa teatral sobre Beckett.
- O fenômeno Lacaniano
Da mesma forma, Lacan ironizava sobre “o fenômeno lacaniano” e zombava do fato de seu nome se transformar em um rótulo (label): label Lacan, la belle Lacan. Talvez seja essa a catástrofe em nosso meio: transformamos Lacan em um rótulo a partir do momento em que se fala de tal psicanalista como um lacaniano. Pergunto: Lacan era lacaniano? Não acredito nisso. Ele se dizia freudiano. E sempre que se justificava por tomar a palavra em público para falar de psicanálise, dizia fazê-lo em virtude da prática que dela fazia. É em nome dessa prática que ele sempre disse se autorizar a falar de psicanálise — sem se deixava levar pela crença. Da mesma forma, via com maus olhos o âne-à-liste (burro da lista), segundo sua brincadeira: a estupidez do analista preocupado em querer figurar em uma lista.
Vou ler para vocês um trecho dessa conferência de Nice, intitulada “O fenômeno lacaniano”, para comentá-lo em seguida:
O analista – pelo menos tentei fazer com que haja analistas desse naipe – é alguém que percebe – o pior é que é preciso que ele mesmo o realize – que aquilo de que se trata no efeito de qualquer cultura, no fundo do fundo do turbilhão, quero dizer, o que faz causa, então, é um dejeto. Nem todo mundo o percebe, mas somente tem o direito de autorizar-se em ser realmente analista aquele que se deu conta disso. Ser um dejeto é o que almeja, sem sabê-lo, qualquer um que seja um ser falante – só uso esse termo porque não sei a quem me dirijo, vocês são demasiadamente numerosos. Quem quer que seja ser falante é preso nesse turbilhão que é a verdadeira corrida do seu desejo – desejo o qual vocês certamente aprenderam oportunamente que é a essência do homem. Um certo Espinoza deu-se conta disso, muito antes da psicanálise existir. Graças a Deus, ele pôs um véu sobre o que ocorre com a autêntica causa do desejo.
Vamos ler juntos essa passagem. Lacan fala do analista — não de qualquer um, mas do analista que ele desejou, de um certo naipe, ou seja, de uma certa qualidade, de certo tecido, como diríamos em francês. Essa qualidade consiste em realizar algo — ele mesmo, insiste Lacan; ele precisa realizar isso por conta própria, e suspeita-se que isso diga respeito à experiência de sua própria análise. Esse algo, compreende-se que nem todos o realizam, mas, acrescenta ele textualmente: “somente tem o direito de autorizar-se em ser realmente analista aquele que se deu conta disso”. Esse “algo” que o analista com tal naipe deve realizar por si mesmo envolve perceber (retomo os verbos empregados por Lacan: realizar e perceber) uma coisa que diz respeito — cito novamente o texto — “ao que se trata no efeito de toda cultura”. Destaco “o efeito de toda cultura”, ou seja, um fato relativo à estrutura. Temos aqui uma afirmação que vai além da mera experiência reservada à passagem a analista.
O analisante toma o lugar do analista sabendo, ao mesmo tempo, qual foi o resultado: a redução do analista à posição de dejeto do processo analítico. Essa é a tese de Lacan em seu “Discurso à EFP”, de dezembro de 1967, o qual comentei anteriormente. Mas aqui, em sua conferência sobre o fenômeno lacaniano, parece-me que ele amplia sua reflexão a todos os seres falantes: “Ser um dejeto é aquilo a que almeja, sem sabê-lo, qualquer um que seja um ser falante”. Ele não se refere apenas ao analista, mas a todo ser falante, a qualquer pessoa. Cito novamente uma frase de Lacan, suprimindo algumas palavras: “no efeito de toda cultura (…) o que faz causa é um dejeto”. A continuação do texto é explícita: a causa, como efeito de toda cultura, é o desejo que impulsiona o ser falante nesse turbilhão (Lacan usa essa palavra duas vezes), nessa corrida para onde o leva seu desejo: ser um dejeto. Voilà, é a isso que todo ser falante aspira, pelo efeito da cultura: ser um dejeto.
Vocês sabem que, dentre todas as peças que escreveu, Beckett preferia não Esperando Godot — que o tornou tão famoso — mas, Fim de Partida. Fim de partida desenrola-se inicialmente entre dois personagens: Clov, o servo, e Hamm, um cego preso à sua cadeira de rodas. Dois outros personagens, os pais de Hamm, estão confinados em enormes jarros, frequentemente representados por lixeiras. Isso sim é uma maneira de ser dejeto! Reservei um espaço especial em meu ensaio sobre Beckett com Lacan para essa peça teatral, pois ela encena justamente a grande questão do fim — do fim de partida que é a psicanálise: o que faz com que o analisante não consiga dar o salto, deixar seu analista, enquanto este permanece preso à sua poltrona. Basta que o analisante deixe de comparecer às sessões e tudo acaba. E, no entanto, não: ele não consegue fazer isso enquanto o analista não for, ele também, assim como os pais de Hamm, rejeitado, em uma lixeira.
Na verdade, se todo ser falante aspira a ser um dejeto, não é para se jogar na lixeira do lixo doméstico. O dejeto em questão decorre do efeito da cultura, ou seja, da linguagem. Trata-se exclusivamente do dejeto da constituição do sujeito no Real como dividido, do resíduo do significante ao captar o ser do sujeito na linguagem. Das quatro referências de Lacan a Beckett, detive-me na terceira, aquela em que Lacan fala explicitamente de Beckett e da lixeira (na primeira lição do Seminário De um Outro ao outro). Recordo a citação: “Quanto à lata de lixo, nestes tempos dominados pela genialidade de Samuel Beckett, temos certo conhecimento dela” . Detive-me nessa passagem porque Lacan fala do gênio que ele associa, a meu ver, à sua concepção do objeto a como perda real na identidade — perda que anima o turbilhão do desejo. O sujeito não pode se reencontrar no significante a não ser que se torne essa perda: dejeto do significante que não se assemelha a nenhum lixo do mundo ou do imundo.
Gostaria de abrir um parêntese sobre um fenômeno social que não diz respeito apenas às nossas sociedades, seja aqui na América Latina ou no continente europeu. Refiro-me ao fenômeno impulsionado pelos anti-… (pontos de suspensão): antissistema, antipatriarcado, antissexismo, anticolonialismo, antirracismo, anticapitalismo etc. Embora, assim como Sidi Askofaré — que veio ao Brasil para ministrar uma conferência intitulada “Quem tem medo do wokismo?” —, eu considere que esse movimento deva ser elogiado pelos avanços que possibilitou, observo que ele pode ter efeitos deletérios. Tais efeitos positivos mensuram-se justamente onde o wokismo causa medo (como ocorre em todos os governos teocráticos), nos quais se observa um recuo alarmante da liberdade, um controle descarado da mídia, prisões abusivas e assassinatos.
Por outro lado, podemos notar que uma vertente do wokismo pode alimentar um fenômeno de alienação significativa, impulsionado por reivindicações puramente identitárias. Tais reivindicações encontram sua explicação ao se basearem em um fato estrutural, aquele que tento delinear diante de vocês: a natureza do objeto a como perda na identidade, a qual pode ser desviada para o lado do lixo, e não para o lado do dejeto como inassimilável ao significante. Esse “empuxo ao dejeto” (se me permitirem essa expressão) para sujeitos em busca de reconhecimento tem um nome: a vitimização. Esse dejeto não tem nada a ver com o saber de ser um “rejeito” de que fala Lacan em Televisão para dizer que o analista, assim como o santo, “descarida”.
O “rebotalho da dita (humanidade)” que é o analista na “Nota italiana” de Lacan, tampouco o coloca do lado das vítimas da civilização. Se ele sabe e consegue fazer semblante de dejeto, é porque o analista sabe se extrair do discurso corrente. A vitimização é uma posição subjetiva que, ao que me parece, encontramos todos os dias no divã, como uma passagem obrigatória no desenrolar de toda cura. Todo sujeito que se engaja em uma psicanálise o faz a partir de uma alienação em relação ao desejo do Outro, destinada, pelo processo analítico, a conduzir a uma separação em relação a esse desejo do Outro.
Tentei dar conta desse fenômeno ao estudar diferentes casos contemporâneos: a atribuição em geral, a atribuição de gênero, o silêncio relacionado aos abusos sexuais. As questões ligadas ao gênero também assustam algumas pessoas, às vezes até mesmo os psicanalistas ligados ao pai e ao sistema patriarcal (e não à sua função de nomeação). Desenvolvi essas questões em meu ensaio Ça parle. Étude sur le discours intérieur, destacando o peso das palavras de Lacan em O aturdito que define o horizonte e o objetivo de uma cura: “O que se diz permanece esquecido por trás do que foi dito”, formulação corrigida por um linguista leitor de Lacan, Gabriel Bergounioux: “O que se diz (a si mesmo) permanece esquecido por trás do que se diz”.
Essa precisão destaca claramente que, quaisquer que sejam as condições impostas ao sujeito por seu ambiente desde sua vinda ao mundo, tudo depende do que ele faz com o que quiseram que ele fosse ou com o que fizeram dele. Não se deve, portanto, confundir o saber de ser um dejeto próprio ao analista — o qual não pode se associar a uma causa externa ao discurso analítico — com o querer ser um resíduo sob o aspecto de vítima da humanidade ou das classes dominantes.
Agora que isso está esclarecido e que — espero — tenha ficado claro que o analista se autoriza apenas por ter realizado, apercebido, que a dimensão do desejo aspira ao dejeto, e que o analista sabe disso por experiência própria, vou avançar um pouco mais na conferência em Nice sobre o fenômeno lacaniano, para ler para vocês outra passagem sobre o sujeito que se deixa levar por sua crença.
É preciso que ele esteja bem assegurado na sua posição de dejeto para poder convidar, incentivar o analisante — como eu o chamo, já que é ele quem faz o trabalho — a não se achar mais do que ele mesmo, o analista, se acha. Ele se coloca à disposição do analisante a título de último dos últimos, haja vista que precisará estar de prontidão, três ou quatro vezes por semana, para ouvir o que vai surgir dele de forma natural. É realmente necessário que haja um nível em que ele não se considere grande coisa.
Será que preciso insistir nessa dimensão de “não se deixar levar pela crença” como algo próprio ao analista? Parece-me que ela está em perfeita consonância com a lógica do dejeto do significante, que faz dele “o testa-de-ferro do sujeito suposto saber”, como diz Lacan em seu “Discurso na EFP”, em 1967.
Tradução: Leonardo Assis

