RLZ 17

Quando a linguagem chega ao infans

Marie-José Latour

Em primeiro lugar, muito obrigada à Maria Claudia Formigoni e à Maria Laura Silvestre pelo convite em nome da Rede de Pesquisa Psicanálise e Infância do Fórum de São Paulo.

Tive a feliz oportunidade de trabalhar com Sandra Berta e Beatriz Oliveira — responsáveis pelo nosso Encontro Internacional em julho de 2026, em São Paulo — no âmbito de um Colegiado Internacional da Garantia anterior. Também tive o prazer de trabalhar durante dois anos com Beatriz Chnaiderman e outros colegas em um cartel cujo tema era “O que é um bebê para a psicanálise?”, questão não muito distante das nossas preocupações atuais! Tive ainda o prazer de ter sido convidada por Andrea Fernandes, de Salvador (BA), em maio de 2024, para falar sobre o meu livro Dessins et maux d’enfants, publicado em 2023 pela ENCL.

Aproveito para saudá-las. Essas referências são exemplos do que pode ser uma Escola de Psicanálise: um lugar para buscar e encontrar oportunidades de manter viva a psicanálise e o debate entre os psicanalistas. Portanto, muito obrigada por acolherem minha pequena contribuição.

Do grito-reflexo ao apelo

O título “Quando a linguagem chega ao infans” é a ocasião de sublinhar a inversão de uma ideia preconcebida do desenvolvimento, segundo a qual seria o infans a chega à linguagem, de acordo com suas capacidades. Ora, a linguagem já está lá muito antes daquele a quem chamamos de sujeito

O sujeito, antes de ser sujeito da linguagem, é, por um lado, um-que-não-fala e, por outro, um-que-é-falado. É exatamente isso que diz este termo emprestado do latim: infans. O que orienta meu trabalho em torno desse ponto há muitos anos é tentar identificar as consequências dessa questão estrutural para um sujeito, seja qual for a sua idade.

A maneira como um pequeno ser humano vai encontrar a linguagem é determinante e, no entanto, por razões lógicas, isso acontece sem que possamos realmente saber algo sobre como a operação se realizou. Uma análise pode permitir captar algo disso.

Para cada pequeno ser humano, a vida começa com um grito, um grito que não é um apelo. Esse grito-reflexo é anterior a qualquer endereçamento. Como saber que marca deixou aquilo que está fora do alcance da linguagem, nesse tempo anterior ao apelo? O fato de não podermos saber nada — ou quase nada — não elimina a experiência, tampouco a marca que ela deixou. Vou me deter um pouco sobre isso. Na “Conferência de Genebra sobre o sintoma”, em 1975, Lacan foi muito claro ao excluir a possibilidade de sustentar a hipótese do inconsciente “se não se perceber que essa é a maneira que o sujeito teve, (…) de ser impregnado, por assim dizer, pela linguagem”.

Foi ao ler um artigo (de Romain Mathieu) sobre as últimas obras do pintor francês François Rouan (a quem Lacan dedicou um texto em 1978) “Autour de l’empreinte” (Em torno da impressão), que percebi o poder evocativo dessa palavra “impressão”: se ela é o traço deixado pelo contato físico com um objeto, ou a inscrição profunda em um corpo ou matéria, ela também é o indício usado no âmbito policial. “Impregnar” evoca contornos indecisos que contestam o valor indiciário da impressão. Não se trata de encontrar na impressão uma causa, mas um movimento incessante entre o fundo e a forma. Um pouco mais adiante, no mesmo texto dessa conferência em Genebra, Lacan aborda “a primeira impressão” que um sujeito recebe da lalíngua.

Depois desse grito, chegará o momento preferencial em que o um-que-fala levará em conta o sinal que o bebê emite, fazendo-se destinatário daquilo que é um simples berro, transformando-o assim em um apelo. Aquilo que é, portanto, uma primeira interpretação, vem a ser a condição necessária para o surgimento de um sujeito. Aquele que Freud chama de Nebenmensch — traduzido como “o outro amparador” ou “o ser humano próximo” — é, antes de tudo, um intérprete. Em outras palavras, esse outro, por mais prestativo que seja, é também a causa de muitos problemas. Ele inaugura esse mal-entendido fundamental que Lacan situa como traumático, mal-entendido que não cabe à psicanálise dissipar, mas sim explorar.

No entanto, se essa fonte de preocupações, essa função de intérprete, viesse a faltar, sabemos quais seriam as consequências nefastas que não deixariam de ocorrer. Todos aqueles que trabalham com crianças pequenas sabem disso.

É esse momento constituinte do apelo que Lacan tenta identificar logicamente desde o início de seu ensino — cf. especificamente o Seminário, livro 1; supõe-se que a presença de Jenny Aubry, Françoise Dolto, Ginette Raimbault, Rosine Lefort, entre outras, em seu seminário tenha tido muito a ver com isso, pois todas eram psicanalistas francesas que se dedicaram e atenderam crianças em estado de grande desamparo logo após a Segunda Guerra Mundial. Ele retoma esse tema várias vezes.

A criança grita, e é o acolhimento desse grito por um outro que fala que comporta a possibilidade de transformá-lo em apelo. É preciso que esse grito seja acolhido pelo Outro como um sinal — interpretado como o sinal de um apelo. No entanto, ainda será necessário que o próprio sujeito tome conhecimento desse acolhimento. Notemos que não é exclusivo do humano responder a esse apelo; o que é específico do bebê humano é a possibilidade de recusa.

Temos aqui uma das primeiras demonstrações do fato de que é a linguagem que vem ao infans, e não o inverso. Se esse grito não for acolhido por um falante, mas por um “cuidador” — no sentido de alguém que conceba o cuidado como independente da linguagem —, é muito provável que a linguagem não chegue até a criança. Essas são todas as consequências do hospitalismo. Em 1975, em Genebra, Lacan recomendava a leitura de René Spitz; cinquenta anos depois, reforço essa recomendação.

O lado parasita da linguagem

Contudo, não se deve acreditar que a linguagem seja apenas acolhedora. Sabemos que Lacan iria insistir em seu aspecto parasitário, a ponto de qualificá-la de “praga” (1975). Mas ele já o sinalizava em sua conferência “Freud no Século”, em 1956, que se encontra no Seminário, livro 3: As psicoses. A psicanálise deveria ser a ciência da linguagem habitada pelo sujeito, esperava Lacan no início de seu ensino: “Na perspectiva freudiana, o homem é o sujeito tomado e torturado pela linguagem.” Há um livro de um autor norte-americano, Ben Marcus, que retrata isso: O Alfabeto das Chamas (no original The Flame Alphabet, publicado em 2012) descreve uma terrível epidemia que atinge a América, na qual a fala das crianças tornou-se mortal. Cabe a um pai tentar encontrar um antídoto para a toxicidade da linguagem…

Lacan retomará essa tese no ano seguinte, na conferência de 1956, de forma muito simples, em uma entrevista à revista francesa L’Express, em 1957. Para Freud e para Lacan, a linguagem humana não surge nos seres como ressurgiria uma fonte. Embora ela já esteja ali e diga muitas coisas, antes mesmo que o sujeito faça uso dela, é necessário um consentimento do sujeito para que ele encontre algo a dizer sobre esse destino de ser falante. “Trouver à redire” é uma expressão francesa usada para alguém que é crítico, que não se contenta com o que é dito e sempre encontra algum defeito no dizer. Poderíamos evocar, igualmente, o traço e a necessidade de seu apagamento para que haja o surgimento do significante, esclarecendo que é o sujeito quem produz tal supressão.

Na entrevista à L’Express, Lacan parte da forma como o aprendizado é abordada pela criança:

Ela coloca o dedo no fogão e se queima. A partir daí, afirma-se, a partir de seu encontro com o quente e o frio, com o perigo, resta-lhe apenas deduzir, construir toda a civilização… Isso é um absurdo: a partir do fato de se queimar, ela se depara com algo muito mais importante do que a descoberta do calor e do frio. De fato, ela se queima e há sempre alguém para lhe fazer todo um discurso sobre isso. A criança tem muito mais esforço a fazer para entrar nesse discurso que a inunda do que para acostumar-se a evitar o fogão. Em outras palavras, o homem que nasce para a existência tem primeiro que lidar com a linguagem; isso é um dado. Ele está envolvido nela mesmo antes de nascer, por ter um estado civil.

A criança por nascer já está, de ponta a ponta, cercada pelo que Lacan, nesse momento, chama de uma rede de linguagem que a recebe e, ao mesmo tempo, a aprisiona.

Ponto de inseminação do sujeito na estrutura

Volto ao que Lacan chama de “ponto de inseminação da ordem simbólica” no texto “A Direção da cura e os princípios de eu poder”. Inseminação deriva do verbo latino seminare, “semear”. Inseminar significa “semear em, espalhar em, fecundar”. Uma vez estabelecido que uma ordem simbólica preexiste ao sujeito infantil, Lacan tentará identificar o ponto de inseminação dessa ordem simbólica segundo a qual a criança terá que se estruturar.

Lacan se baseia no Fort-Da — esse jogo que Freud observou em seu neto, que não tinha nada de precoce e aos 18 meses, nunca chorava quando sua mãe o deixava por várias horas. O único hábito, um pouco perturbador para o conforto dos adultos, era que ele lançava ao longe, num canto debaixo da cama, todos os pequenos objetos que conseguia agarrar, emitindo um som prolongado, o-o-o-o, que significava “Fort” / longe. Um pouco mais tarde, ele inventou seu primeiro brinquedo: um carretel amarrado por um barbante que lançava, com habilidade, para trás do cortinado da cama, dizendo o-o-o-o, e o fazia reaparecer, saudando alegremente seu retorno com um “Da!”.

A descoberta dessa criança nos indica de forma notável um ponto da estrutura: o sujeito começa com o desaparecimento. É contraintuitivo e, ainda assim, é uma perda, de uma subtração que gera o desejo. Esse jogo, que não exige nada de ninguém, encena a reiteração da perda e demonstra sua virtude separadora. Esse mesmo princípio subtrativo é fundador para o sujeito na sua relação com a linguagem.

Gostaria de insistir, seguindo Lacan — na página 594 de “A direção da cura e os princípios de seu poder” —, sobre a distinção fonemática e sua importância. A escansão alternativa desses dois fonemas, Fort e Da, é pelo menos tão importante quanto o gesto alternativo de lançar e trazer de volta um objeto em si insignificante. Podemos formular a hipótese de que temos, nesses dois fonemas — juntos e separados —, o paradigma desse ponto de inseminação. Sei que aqui, em São Paulo, os trabalhos de Marie-Christine Laznik contam com ampla interlocução; de fato, ela insiste muito na modulação da voz que se dirige ao bebê, no valor do “manhês” — isto é, no endereçamento mais do que na significação.

A simbolização primordial

No Seminário, livro 6: O Desejo e sua Interpretação — verdadeira mina no que diz respeito à questão psicanalítica do trabalho com crianças —, Lacan faz uma observação muito valiosa, a meu ver, para essa experiência: não há articulação sem substituição. Isso me parece esclarecer, de outra forma que não em termos de disfunção, os distúrbios da linguagem na primeira infância. Lembro-me de um caso que me foi relatado: um menino de 28 meses que insistia em um balbucio que já não era próprio de sua idade, porém com exceção de um significante, “até logo” — paradoxalmente, o único ao qual ele respondia, paradoxalmente.

Para que haja substituição, operação propriamente simbólica, é preciso que haja ausência ou pelo menos sinal de ausência. Isso nos remete à questão do signo, tão essencial para os psicanalistas. O signo é o que liga a ausência à presença, “a presença sobre um fundo de ausência” e a ausência na presença.

O que é resposta alucinatória à necessidade não é o surgimento de uma realidade fantasmática, e sim o surgimento de um sujeito marcado pelo significante — de um sujeito em relação “tal com objeto, que este merece ser chamado de significante. Trata-se, com efeito, de algo que tem uma relação fundamental com a ausência de objeto e que já apresenta um caráter de elemento discreto, de signo”.

Essa observação nos permite distinguir a marca, o traço e o signo. O signo — o signo de um sujeito — tem a ver com a ausência, enquanto a marca estaria ligada à presença. É nesse ponto que Lacan recorre à Carta 52 para dizer que Freud não pôde deixar de admitir que “na origem, a inscrição mnêmica que corresponderá alucinatoriamente à manifestação da necessidade nada além de um signo, Zeichen”. Lacan desenvolve em seguida o que é necessário para explicar o que caracteriza um signo.

Um signo não está apenas relacionado a uma imagem, como seria o caso de uma isca. O signo já está inserido em uma rede de significantes articulada a essa questão da presença e da ausência. Lacan retoma o exemplo de Freud referente ao sonho infantil como paradigma da satisfação alucinatória, reexaminando o sonho da pequena Anna, que está longe de sonhar com algo que atenderia a uma simples necessidade. Ela sonha com o que se apresenta sob a forma de um banquete proibido pela “polícia sanitária” da casa! É justamente por serem proibidos, marcados pela interdição significante, que esses alimentos se tornam desejáveis. Esse traço é essencial, salienta Lacan.

Lacan prossegue insistindo no fato essencial da presença do significante indispensável à apreensão da realidade. Não há acesso à realidade sem o desvio do significante, é essa a “realidade original” para o ser humano. A simbolização ocorre em um estágio “ultraprecoce”, conclui Lacan.

Aprender com sujeitos afásicos

Roman Jakobson [1896-1982], um dos maiores linguistas do século XX, a quem Lacan reconhecia como aquele que conseguia não falar bestamente da linguagem, deveria ser lido hoje com o maior interesse por todos aqueles que se interessam pela linguagem. Ele dedicou valiosos estudos à linguagem infantil e à afasia.

Lembremos que a primeira obra de Freud foi uma contribuição acerca da concepção das afasias. Afasia vem do grego, “privado da fala”, é uma palavra criada para descrever a impossibilidade parcial ou total de traduzir o pensamento em palavras, apesar da integridade funcional do sistema fonatório. As variedades de afasia são numerosas e diversas, oscilando entre a alteração da faculdade de seleção e substituição e a faculdade de combinação e contextualização. “Falar implica a seleção de certas entidades linguísticas e sua combinação em unidades linguísticas mais complexas.”

Lewis Carroll ilustrou isso em Alice no País das Maravilhas: “Você disse ‘porco’ ou ‘torto’?”, perguntou o Gato. “Eu disse ‘porco’”, respondeu Alice, que a seguir se queixa do movimento incessante de aparecimento e desaparecimento do Gato de Cheshire, o qual remete à metonímia incessante da linguagem que pode torná-la inabitável. Essa distinção entre as palavras é aquilo sem o qual a relação com a linguagem permanecerá inoperante ou mesmo perturbadora. Pequeno convite: reler Alice no País das Maravilhas é tão importante quanto reler Freud e Lacan!

Mas voltemos ao tempo anterior — ao que os linguistas chamam de início da verdadeira linguagem infantil —, ou seja, ao período do balbucio, no qual a criança produz uma quantidade surpreendente de sons. A criança é capaz de articular em seu balbucio uma diversidade sonora que jamais encontraríamos reunida em uma única língua, nem mesmo em uma família de línguas. Os bebês têm capacidades fonatórias com as quais um adulto poliglota talentoso jamais conseguiria competir. Portanto, há um momento em que a criança é capaz de produzir praticamente todos os sons humanos possíveis, sem que essa produção obedeça ainda a qualquer ordem simbólica.

Porém, a criança perde praticamente todas as faculdades de emitir essa pluralidade de sons quando passa a adquirir suas primeiras palavras. A função distintiva do fonema é essencial tanto na aquisição da linguagem quanto nos distúrbios que nela podem surgir. A criança possui, inicialmente, os sons comuns a todas as línguas e só mais tarde adquire os fonemas que distinguem sua língua materna de todas as outras. Não há transição contínua, mas sim uma ruptura e uma subtração. Daniel Heller-Roazen desenvolveu sua tese baseando-se nos trabalhos de Jakobson: “cada língua é o eco desse balbucio infantil cujo esquecimento possibilitou a fala”. Uma amnésia linguística infantil aparece, portanto, como condição para a aquisição de uma língua. Mas o que ocorre com esses sons perdidos? Eles teriam alguma relação com o que, seguindo Lacan, chamamos de lalíngua?

O signo, o significante

Jakobson não hesita em aproximar o que chamamos de formações do inconsciente — o esquecimento de um nome próprio, por exemplo, ou a dificuldade em lembrar a composição fônica exata de uma palavra que nos conduz a vocábulos próximos pela forma ou pelo sentido — do que ocorre na afasia. A incapacidade de decompor a palavra em seus elementos fonológicos enfraquece a própria construção do termo. As duas funções, distintiva e significativa, constituem as características fundamentais da linguagem que lhe conferem uma estrutura bipolar: o eixo da seleção (que opera por substituição) e o eixo da combinação (que opera por encadeamento, sintaxe e gramática). Cabe assinalar que a poesia é centrada no signo, enquanto a prosa é centrada no referente.

Concluo relatando uma experiência recente na minha prática com um menino de 4 anos. Os pais buscaram o atendimento porque o garoto era frequentemente tomado por crises de raiva que o dominavam, o que ameaçava o equilíbrio do ambiente familiar.

Após um primeiro encontro com a mãe, no qual ela me relatou os quatro anos de vida do filho, concluí que, de fato, a criança parecia enredada em algo que requeria a presença de um psicanalista para poder se libertar dessa posição de refém. O menino revelou-se muito vivo e alegre em sua interação com o outro. Trazia para a sessão sua mochilinha repleta de brinquedos significativos para ele. Começamos, assim, a nos conhecer. Embora falasse com entusiasmo, sua pronúncia era muito caótica, e eu estava longe de compreender tudo o que ele dizia. De onde vinha essa dificuldade? Devido a uma malformação congênita nos quadris, essa criança passara por sete cirurgias e outras tantas internações que marcaram seus três primeiros anos de vida com interrupções sucessivas e repetidas.

Desse modo, cada aquisição (ficar em pé, deslocar-se, andar, controlar os esfíncteres) era seguida por um período mais ou menos longo de hospitalização, acompanhado de imobilização dos membros inferiores — com gesso, extensão, entre outros recursos —, o que comprometia tais conquistas. Enquanto isso, a vida continuava: durante uma dessas internações, quando ele tinha dois anos, nasceu seu irmãozinho. Este é um ponto importante, pois é possível que aquilo que seu irmão mais novo consegue fazer, ele próprio já não consiga mais. Qual é a lógica por trás do que parece ser um capricho do destino? Os médicos e os pais não cessam de tentar fazê-lo aceitar o inaceitável — algo a que ele não se submete de boa vontade. Algo não vai bem! Algo nessa relação com o Real não se deixa traduzir. Existem coisas que não têm explicação. É o que chamamos de o impossível.

Essa criança gastou muito tempo e energia buscando e inventando adaptações para não “perder” suas aquisições. Freud nomeava isso de construções de emergência. Por exemplo, a criança obrigou o pai a inventar um sistema que lhe permitisse continuar indo ao banheiro, ao passo que os médicos sugeriam que ele voltasse a usar fraldas! Apesar do gesso, ele conseguia se locomover e ir aonde quisesse, assim que surgia uma oportunidade.

Durante as sessões, ele me mostrava sua grande destreza com a tesoura, recortando o papel ao longo das linhas que havia traçado previamente. Seu uso da fita adesiva era muito mais caótico. “Será que segura?”, perguntava. Como não tinha certeza, acrescentava mais e mais fita adesiva, sem que esta conseguisse realmente cumprir sua função. Por fim, apresentou-me uma colagem que, embora desorganizada, formava um todo que enlaçava as peças.

Hoje, seus problemas nos quadris são considerados resolvidos pela equipe médica. Na escola, ele se dedica aos estudos e deverá encontrar uma maneira de contornar o que parece ter se consolidado em um uso “particular” da linguagem — se é que existe outro uso além do particular! Gosta muito de vir conversar comigo e diz aos pais que tenho a paciência que eles não já têm mais para escutar o que é importante para ele falar!

Como permitir que essa criança volte a confiar em sua relação com a linguagem? Obviamente, não estou falando de seus “distúrbios” articulatórios, que certamente deverão ter um acompanhamento específico, mas gostaria de elogiar a relevância desses pais e dessa criança, que conservam uma percepção viva daquilo que o sujeito deve à sua relação com a linguagem. Algo bem diferente de uma simples disfunção!

… continua !

É justamente nessa consideração que a psicanálise pode situar uma possível intervenção sobre o sintoma, pois a psicanálise opera sobre fatos de linguagem, e não sobre comportamentos. Como Lacan afirma em “Função e campo da fala e da linguagem”, a psicanálise trata das relações no sujeito entre a fala e a linguagem. A psicanálise ocupa-se de sintomas que dizem respeito, fundamentalmente, ao fato de que o ser humano é afetado pela linguagem. É a partir daí que chegamos à questão do nosso próximo Encontro Internacional: a da Ética da Psicanálise e as outras.

É na maneira como a língua foi falada e ouvida por cada um, em sua particularidade,que algo irá surgir sob a forma dos mais variados tropeços. Se o sintoma só se interpreta na ordem do significante, segue-se daí uma definição da própria operação analítica: uma análise seria, assim, o que permite a um sujeito “diz-cernir” o que seu sintoma deve à linguagem — algo diferente, portanto, de um desvio de comportamento —, fazendo com que o sujeito, ao perceber isso, possa se ver modificado. Salientar o limite entre a psicanálise e a reeducação não é confortável, mas se faz necessário se quisermos para sustentarmos a especificidade da prática analítica com crianças “Para que o sintoma saia do estado de enigma ainda não formulado, o passo a ser dado não é que ele se formule (“eu sofro disso ou daquilo”), mas que se desenhe no sujeito uma tal coisa que lhe seja sugerido que há aí uma causa”.

O porquê e a curiosidade são indispensáveis para a entrada no dispositivo analítico. Foi exatamente isso que esse jovem analisando me confirmou em seguida. Na primeira sessão, após me mostrar todos os pequenos objetos trazidos em sua mochilinha, de eu lhe apresentar as regras do enquadre e após um breve momento de silêncio, ele perguntou: «E agora, o que vai acontecer?»

Que a linguagem venha ao infans é, sem dúvida, um recurso. Todavia, para todo sujeito, a descoberta do recurso é concomitante à percepção de seus limites. A maneira como cada um é afetado por esse encontro é assunto para a psicanálise, a meu ver. Jamais nos livramos da marca que “lalíngua” deixa em nós. Não era isso mesmo que já defendia um grande poeta francês do Renascimento, Joachim du Bellay (século XVI), ao desejar uma relação com “uma língua que ainda estivesse na infância”?

Tradução: Clary Khalifeh

Revisão: Leonardo Assis