RLZ 17

Experiência e saber no passe a analista

Responsabilidade de AME e Experiência do CIG.

Dominique Marin

I – Experiência e saber

As experiências que nos interessam estão todas ligadas à psicanálise; elas ultrapassam o imaginário, vão além do esperado. Tudo o que diz respeito à experiência analítica abre, faz furo no saber. Diz-se fazer uma experiência porque ainda é preciso extrair suas consequências para obter um saber operacional. Há uma antinomia entre experiência e saber que é assinalada pelo uso linguageiro, pelo menos em francês. Nós fazemos uma psicanálise, fazemos o passe, fazemos um cartel; enquanto temos um saber, detemos um saber, adquirimos um saber.

Para começar, vou me basear no cartel intercontinental, com Anne-Marie Combres (mais-um), Leonardo Assis, Tatiana Assadi e Sophie Rolland-Manas. Eu nunca tive essa experiência até agora, o que é uma pena. Optamos por trabalhar sobre o que o Seminário 24, “L’insu que sait de l’une-bévue s’aile à mourre”, aporta de novo. Essa novidade diz respeito ao fim da cura e ao testemunho dessa experiência.

  • O fim da cura

Desde a primeira lição, Lacan aborda o que seria o fim de análise. Ele fala sobre isso no condicional, o que reforça o caráter interrogativo de seu pensamento. Seria identificar-se com o analista? Não. Seria identificar-se com seu inconsciente? Também não. Será, então, identificar-se com o próprio sintoma? — pergunta-se ele por fim. Nesse ponto, ele não diz “não” e introduz outro termo: o verbo conhecer, como uma ponte entre a experiência e o saber, antes de apresentar uma expressão que retomará com frequência ao longo de todo o ano desse seminário: savoir y faire (saber fazer com). Cito: “Saber fazer (savoir y faire) com o próprio sintoma é o fim da análise. É preciso reconhecer que é curto. Não vai verdadeiramente muito longe. Como isso se pratica…” continua ele em um questionamento em que ressalta que se trata, antes de tudo, de prática, de experiência concreta. Em francês, temos duas expressões bastante próximas: savoir faire (saber fazer) e aquela que Lacan emprega, savoir y faire (saber fazer com).

  • Savoir y faire (saber fazer com)

“Y” e “en” são pronomes adverbiais. Antigos advérbios de lugar, às vezes são classificados entre os pronomes pessoais complementares da terceira pessoa, essa terceira pessoa tão importante na lógica do inconsciente descoberta por Freud. Por exemplo: “São Paulo est une belle ville. J’ajouterai même qu’il y fait bon vivre”. “Y” refere-se à “cidade”. Na expressão savoir y faire (saber fazer com), “y” retoma os complementos do verbo “fazer”, representando elementos, em princípio, inanimados (ao contrário de “en”). “Y” representa essa coisa, aquilo com o qual é preciso compor. Saber fazer com o próprio sintoma diz respeito exatamente a isso. De fato, trata-se de compor com, de se virar, de manipulá-lo, diz explicitamente Lacan. Na aula de 15 de fevereiro, ele retoma o assunto, cito: “Saber fazer com isso não é a mesma coisa que um saber…” e evoca o passe para dizer em que ele consiste: reconhecer “no escuro, que se trata de um nó borromeu”. Como reconhecer um nó no escuro senão manipulando-o? Como nos fez notar Anne-Marie Combres, a “mais-um” do cartel, basta manipular o nó, cortando-o, para verificar se se trata de fato de um nó borromeu ou não.

  • O AME

É possível fazer parte de um cartel do passe se várias condições forem atendidas: tornar-se AME por meio de um procedimento realizado sem o conhecimento do interessado, a partir da iniciativa de membros da Escola — eles próprios AMEs —, que apresentam uma indicação fundamenta à Comissão Local de Garantia de seu Fórum.

Uma vez AME, é possível candidatar-se às eleições dos membros do CIG (Comissão Internacional de Garantia). Mesmo que tudo isso seja bem conhecido por cada um de vocês, já que todos são membros de Escola, insisto no fato de que há coisas que podemos demandar (ingressar na Escola, tornar-se membro do CIG) e outras que não, como passador ou tornar-se AME. Estes dois últimos pontos são, na verdade, um só: não demandar para ser é uma questão de psicanálise em intenção. É necessário que o desejo de reconhecimento tenha se esgotado suficientemente; caso contrário, é delicado responder favoravelmente. Não é pela segurança derivada de um saber adquirido que se mede a pertinência de propor um analista praticante (AP) como AME. Não é sua virtuosidade acadêmica que é levada em conta — como, por exemplo, conhecer os seminários de Lacan de cor e salteado —, mas, além de seu engajamento na Escola, seu saber fazer com o real da clínica, sem se deixar levar por sua crença. Voltarei mais adiante a essa outra expressão, “se deixar levar por sua crença”, para falar primeiro do passador.

  • Le passeur

A questão é ainda mais clara no que diz respeito à designação do passador. O passador se encontra, nesse momento de sua cura, em que vacila a segurança adquirida sobre o sujeito suposto saber. O passador (que só saberá que é passador se, e somente se, for sorteado pelo dispositivo do passe) avança, por assim dizer, na névoa, todo affairé (ocupado) — novamente o verbo “fazer” — em prosseguir com sua análise, apesar da “falha percebida no sujeito suposto saber”. É justamente seu saber fazer com que é requisitado e pode indicar que é o momento de seu analista designá-lo. Trata-se menos de um saber e mais de um savoir y faire para se decidir. Às vezes, em retrospecto — falo da minha experiência, necessariamente limitada —, pode-se questionar se não nos enganamos quando o passador recebe essa designação como um selo de qualidade! “Tudo bem, eu sei, já que fui designado como passador”. Esse é outro argumento que leva a pensar que saber e saber fazer com são duas coisas diferentes e que podem se opor perfeitamente. Ser passador é uma experiência que também faz furo no saber; é verdade que alguns passadores tentam evitar esse furo preenchendo-o com um saber superficial.

  • O passe a analista

Onde isso se revela crucial e ainda mais perceptível é, sem dúvida, na passagem do analisante a analista. A mesma lógica que procuro destacar para o AME e para o passador opera no passe a analista: ele ocorre quando o analisante deixa de se apoiar na segurança proporcionada por seu fantasma; o fantasma que sustenta sua crença, especialmente a de chegar a algum ponto em termos de saber.

Pouco tempo depois de ter convidado Betty Milan, uma de suas compatriotas — embora não seja de nossa Escola —, para uma palestra na sede da Escola em Paris a respeito de seu livro Por que Lacan (sobre as razões de ter escolhido Lacan como analista), Colette Soler interveio via Zoom, no dia 23/05/2022, no âmbito do seminário da Comissão de Prática e Clínica do Fórum do Líbano, intitulado “Minha história com Lacan”. Ao contrário do que talvez fosse esperado por seus convidados, Colette Soler não disse nada sobre sua história com Lacan. Ela considera que a história transferencial não fala realmente do analista, mas simplesmente do objeto da transferência, mesmo que, como ela reconheceu, Betty Milan tenha conseguido transmitir uma ideia correta do manejo do corte e, portanto, da maneira como Lacan conduzia suas curas. Na verdade, Colette Soler testemunha apenas dois pontos: 1) os efeitos terapêuticos das sessões de sua análise, que se manifestaram muito rapidamente — enquanto, 2) ela não entendia nada, absolutamente nada. Na verdade, seu testemunho se resume ao que lhe pareceu essencial logo ao final de sua cura. Cito-a: “elucidar a operação analítica, pois achava que tinha tudo a aprender”. Embora a experiência da cura tenha sido benéfica para ela — como ela repete várias vezes —, no plano epistêmico, ela considerava que, no final, tinha tudo a aprender sobre seu processo.

  • O não saber sobre o ato

Não há como expressar melhor a distância entre a experiência analítica e o saber sobre o ato analítico. Colette Soler relembra a tese de Lacan em seu “Discurso à EFP”, de dezembro de 1967, sobre o passe. Cito Lacan:

O passe é o ponto em que, por se haver dado conta de sua psicanálise, do lugar que o psicanalista ocupara em seu percurso, alguém dá o passo de ocupá-lo. Entendam bem: para operar nele como quem o ocupa, embora, dessa operação, não saiba alguma coisa, senão a que, em sua experiência, ela reduziu o ocupante.

Ele fala do passe em termos de experiência e de saber. O passe a analista ocorre, portanto, quando o analisante “superou sua psicanálise” e assume o lugar do ocupante — ou seja, do próprio analista —, sabendo apenas a que esse ocupante foi reduzido ao final do processo: a um resíduo, em virtude da queda do sujeito suposto saber. Quanto ao resto, o modo de operar como analista, ele tem tudo a aprender. Como Lacan diz em outro lugar, cada analista deve “reinventar a maneira pela qual a psicanálise pode perdurar”. O analista inventará se, de fato, tomar os efeitos desse não-saber sobre o ato para torná-lo a causa de seu desejo de analista. Essa é, em suma, a primeira tese à qual me levou a elaboração deste trabalho escrito para vocês.

Insisto em tentar chamar a atenção de vocês para dois pontos importantes na política de Escola preconizada por Lacan. Se o ato analítico de que falamos é a passagem do analisante para o lugar do psicanalista, uma vez realizada a destituição subjetiva, ele permanece impossível de ser compreendido, mas oferece, no entanto, uma certeza sobre o momento em que ocorre. No passe a analista, o analisante sabe algo sobre o funcionamento de uma cura analítica: ela conduz o analista ao lugar de resto, mas ele vai para lá mesmo assim. Era isso que Lacan queria compreender: por que ir, sabendo o resultado?

Há, portanto, um saber sobre o ato; mas, como vocês sabem, Lacan também diz que esse saber está fadado ao esquecimento quando, em seu “Discurso à EFP” de 1967, refere-se àqueles “que pagam seu status de analista com o esquecimento do ato que o funda”. Esse discurso é um texto escrito em resposta às objeções levantadas por alguns membros da Escola Freudiana de Paris a respeito de sua proposta sobre o passe, de 9 de outubro de 1967.

O discurso que estou comentando data do mês seguinte. Se sua proposta suscitou objeções, nesse texto que retomo com vocês, Lacan reforça sua posição: “Quero colocar não-analistas no controle do ato analítico”. Ele esclarece que não se trata de um não-analista qualquer, tampouco do não-analisado; trata-se, como escreve, do “não-analista em expectativa, aquele que se pode apanhar antes que, ao se precipitar na experiência, ele sofra, ao que parece em regra geral, como que uma amnésia de seu ato”. Depois do esquecimento do ato, eis a amnésia! Lacan se refere à experiência daquele que passou de não-analista a analista, passagem que se baseia, portanto, em uma amnésia assim que ele entra na experiência de conduzir, por sua vez, as curas. Dito isso, parece-me lógico considerar que, se há esquecimento do ato, amnésia, isso pressupõe que há um saber em jogo, um saber que se subtrai ao ato que o dispositivo do passe se propõe a circunscrever.

Esse esquecimento do ato é contingente ou necessário? Parece-me que a resposta está na própria lógica do dispositivo analítico. Na medida em que o analista opera como objeto — objeto transferencial, como diz Colette Soler em sua intervenção no Líbano —ele não pensa: ele está no ato. É porque o esquecimento do ato é lógico — isto é, conforme à estrutura — que insisto em dizer que ele pode ou deveria servir de causa do desejo de analista. Não é, aliás, isso que Lacan sugere na aula de 10/12/1974 de seu seminário RSI? “Entretanto, é indispensável que o analista seja ao menos dois: o analista para ter efeitos e o analista que, tais efeitos, os teoriza.”

Concluo sobre esse ponto. Portanto, se o analista — na passagem a analista, mas também em seu ato renovado a cada vez que recebe um analisante — recua diante desse não-saber sobre o ato, ele corre o risco de se tornar um papagaio de Lacan, como diz Colette Soler em seu seminário no Líbano, tomando emprestada a expressão de Betty Milan, por ela citada a esse respeito. “Repetir como um papagaio” é uma forma de responder, para evitar, à equivalência que Lacan estabelece em seu discurso sobre a transmissão ao equiparar S(A barrado) ao monólogo. Gostaria de lembrar que, na última edição da nossa revista Wunsch, (nº 25), após o texto de Anastasia Tzavidopoulou, Colette Soler traz sua contribuição ao retomar o “Discurso à EFP” de Lacan para insistir no fato de que o analisante que se tornou analista nada sabe sobre essa operação.

Espero ter esclarecido esse ponto que nos deteve em nosso cartel intercontinental. Na sua última aula, a de 17 de maio de 1977, Lacan diz “que se crê que a psicanálise leva a escrever suas memórias”, o que ele contesta ao afirmar que “não há memória de uma psicanálise”. Na minha opinião, é do ato que ele fala, pois, não se pode negar, existe uma memória da análise, ainda que ela seja, antes de tudo, uma experiência. É sem dúvida por isso que ele avança então — como fará mais tarde em sua intervenção sobre a transmissão — a ideia da invenção: a invenção de um significante novo, o que é algo diferente da memória. Chegando a este ponto de minha exposição sobre este capítulo, vocês poderiam me objetar que foi exatamente isso que Betty Milan fez em seu livro Por que Lacan: ela escreveu suas memórias. Eu me oporia a essa objeção, pois, mesmo que ela conte um pouco de si, sua intenção, como sempre lembrou, é tornar palpável a prática de Lacan em sua maneira de impulsionar o analisante para o trabalho da análise.

A outra objeção diz respeito ao fato de que, ao contrário de muitos analistas que passaram pelo divã de Lacan, ela nunca se apresentou como ‘a escolhida’ (não citarei ninguém) ou ‘a preferida’ de Lacan. Enfim, como ela frequentemente me lembra, considera-se, antes de tudo, escritora e, em segundo lugar, analista; aliás, ela ocupa uma cadeira na Academia Paulista de Letras.

II – Experiência e CIG

Minha experiência no seio da Internacional se reduz a dois pontos: a designação de passador e a minha participação no CIG de 2018-2020. Dois pontos que envolvem a responsabilidade do psicanalista membro da Escola (AME). Essa responsabilidade se concebe a partir do momento em que se considera que ela envolve um desejo de Escola e a ele responde. Nada obriga a dar importância a isso (ainda!) ou, dito de outra forma, nada obriga a levar em conta o fato de ter sido nomeado AME por seus pares. Contudo, considerar que se trata de um ato de Escola é algo que não pode deixar ninguém indiferente.

  • A designação de passadores

Imagino que existam casos: AMEs que não se sintam concernidos pelo dispositivo do passe, esquecendo que esse dispositivo diz respeito aos meios coletivos mobilizados para que a psicanálise perdure (retomo as palavras de Lacan). Isso vale também para o passador que evoquei há pouco: podemos nos perguntar se fomos suficientemente perspicazes quando o passador designado, uma vez cumprida sua missão — a saber, o testemunho de no máximo três passes —, considera que terminou, ou dá essa impressão no estilo “eu sei”, em vez de se dedicar ao trabalho de pensar o ato. É uma questão que surge da minha experiência, com a qual, de fato, eu não contava. Uma inquietação infundada, talvez; mas não tanto assim se prestarmos atenção ao que se diz hoje sobre o saber adquirido e a experiência a se fazer.

Falo do que conheço e do que me rodeia: médicos psiquiatras e profissionais paramédicos — enfermeiros que constatam que os jovens recém-formados consideram não ter mais nada a aprender assim que obtêm seu diploma: “Sim, eu sei”, dizem eles. Falo também com base no que consigo perceber no divã: profissionais experientes em suas áreas, por exemplo, professores que veem chegar ao campo de atuação jovens recém-formados que nunca fazem perguntas relacionadas ao saber-fazer com esse ofício que Freud considerava impossível: ensinar (educar, curar, governar). Penso que a resposta talvez esteja na razão que os leva a escolher seu ofício: trata-se de um ato ou de um cálculo?

  • A experiência do CIG, fazer cartel para o passe

Mais uma vez, minha experiência se limita, por várias razões, a uma única passagem por um CIG, no período de 2018 a 2020, experiência que foi atravessada pela Covid-19. Por mais reduzida que seja, é a partir dessa vivência que surgem todas as reflexões que tenho compartilhado com vocês, bem como a conclusão sobre o ato que acabei de expor. A reflexão posterior a esse exercício de testemunho, que me foi solicitado por Leonardo Assis, permite-me, por meio da escrita, fixá-las um pouco. Optei por testemunhar sem reabrir o caderno que mantive durante esses dois anos, a fim de evitar o excesso de detalhes e na esperança de traçar a lógica em jogo.

Desde a constituição de nossa comissão, pude constatar a impaciência de cada membro para começar a trabalhar e constituir não apenas os cartéis encarregados de examinar os passes, mas também cartéis permanentes voltados à elaboração do que cada um pudesse extrair dessa experiência no dispositivo.

Como exemplo de momentos marcantes, posso citar o fato de que, em certas ocasiões, em um grupo temporário formado para examinar um passe, chegamos à conclusão unânime de que havia algo de errado com um passador. Se a designação de um passador é uma aposta — como mencionei há pouco —, verifica-se que, às vezes, podemos nos enganar. Foi assim que, na comissão ampliada, decidimos solicitar a destituição de determinado passador que parecia não estar no lugar certo. É aí que se mensura a grande responsabilidade em cadeia: ser um dos AMEs que nomeiam um AP para o lugar de AME, e um AME que designa um passador. Sempre podemos pensar que, independentemente da cadeia que o precede, talvez o passador não seja o único a não estar no lugar certo. Foi o que pensei naquele momento, mas esse pensamento foi corrigido por outro preconceito que atribuo à minha falta de experiência, dessa vez em minha participação em cartéis de passagem.

Em dois cartéis, chegamos a constatar que o testemunho retransmitido dava a impressão de que o passante havia se deixado levar por sua própria crença: a de acreditar ser capaz de decifrar o inconsciente para os outros, sem dar a entender nada da separação lógica em relação ao analista. Relatei as palavras de Lacan na primeira aula do seminário L’insu que sait de l’une-bévue: será que o fim da análise seria identificar-se com seu analista? Não é porque concordamos que isso não deva ocorrer que isso não aconteça na prática. Foi exatamente o que constatei, dizendo a mim mesmo, no mais íntimo do meu ser: “talvez seja o analista do passante quem esteja em falta?”. Felizmente, outro passe — que resultou na nomeação de um AE — fez-me perceber claramente que o passante, como cada sujeito, é sempre responsável por sua posição. Afinal, esse AE teve como analista o mesmo analista do passante cujo testemunho transparecia uma clara identificação.

Nesse cartel que nomeou um AE, fui rapidamente surpreendido pelas palavras do primeiro passador. Logo de cara, percebi que havia em seu testemunho um elemento que não dizia respeito ao mero relato de uma cura, mas a um momento clínico preciso: a manifestação de um fenômeno relacionado ao corpo que produzia um efeito de distinção, de separação singular: não apenas uma separação entre o analisando e o analista, mas também uma separação do sujeito consigo mesmo. O mais curioso é que fiquei tão surpreso — repito, muito rapidamente — que perguntei à minha vizinha (ou talvez aos outros membros, já não me lembro): “Está acontecendo alguma coisa aqui, não é?”. Ao que me responderam, com toda a razão: “silêncio”, para deixar o passador falar.

Não creio que o segundo passador tenha trazido novos elementos; de qualquer forma, nada que contradissesse minha primeira reação de surpresa. Trata-se de reconhecer que o fenômeno relatado pelo primeiro passador — e a minha pronta reação (‘está acontecendo algo aqui!’) — toca em algo que bordeia o limite das palavras, o intraduzível. E acho muito singular que eu tenha sido capaz de percebê-lo, sabendo da minha dificuldade — vou poupar vocês da minha história — em relação às línguas estrangeiras e ao espanhol, língua falada pelos dois passadores. Essa experiência me deu a oportunidade de escrever um pequeno artigo para nossa revista Wunsch, baseando-me em uma tese muito útil e pertinente apresentada por Elisabete Thamer em um encontro de Escola.

Elisabete Thamer explicava acerca da importância do multilinguismo para superar o fascínio que pode ser exercido pelo relato dos testemunhos transmitidos pelos passadores. De fato, o esforço de tradução exigido daqueles membros do cartel que não falam a mesma língua do passador (como no meu caso) ajuda produzir um distanciamento em relação aos ditos do passador e à narrativa do testemunho do passante. Trata-se, na verdade, de sair do fascínio pelo que se compreende — ou pelo que se acredita compreender facilmente.

Concluo este testemunho sobre minha participação no CIG retomando dois parágrafos do que escrevi a esse respeito na revista Wunsch. Ao fazer isso, percebo que, desde então, venho apenas girando em torno da mesma constatação: a impossibilidade de narrar o ato analítico, o seu núcleo de real.

Sobre a interpretação, segundo Freud, Lacan disse o seguinte em uma entrevista em 1973:

A nova forma que ele introduz por meio da interpretação é, eu diria, da ordem da tradução; e a tradução, como todos sabem o que é, […], é sempre uma redução, e há sempre uma perda na tradução. Pois bem: o que está em questão é, de fato, que se perca. Percebemos que essa perda é o próprio real do inconsciente, o real em si, sem mais. O real, para o ser falante, é que ele se perde em algum lugar, e onde? É aí que Freud colocou a ênfase: ele se perde na relação sexual.

O real do inconsciente é aquilo que, entre os pensamentos inconscientes, não pode ser traduzido; toda tradução produz uma perda. Essa perda é aquilo em que consiste o inconsciente real, o qual, em última instância, remete à relação sexual impossível de ser escrita — como Lacan não deixou de martelar a partir do Seminário Encore. É esse real que serve de bússola na orientação da cura lacaniana em nosso campo”.

Tradução: Leonardo Assis