RLZ 17

Isso se impõe

Daniella Ferri

Com o convite para conversar sobre “O objeto a no dispositivo analítico e no fantasma”, assunto bem amplo e complexo, gostaria de compartilhar com vocês o que há um bom tempo venho lendo, investigando e tentando formalizar: a supervisão. É um dispositivo muito interessante porque é fundamental na formação dos analistas, como a análise e o estudo da doutrina, isso já sabemos. O que tem me ocupado há um tempo é pensar nos lugares, as funções, as operatórias e os efeitos desse dispositivo. Tentando dar-lhe uma estrutura, ou uma lógica que permita formalizar essa experiência.

Entendo a supervisão como uma espécie de laboratório em que o ato analítico, o desejo do analista ou, mais especificamente, a função do objeto a é possível de isolar, pôr em questão. Acrescentaria, é um lugar onde pensar o que, em outro lugar, é impensável. O ato analítico é incontrolável em si mesmo, não é passível de ser pensado aí. Então, como controlar o incontrolável? Que gosto pelos impossíveis!

No Ato de fundação, Lacan assinala que a supervisão se impõe. O que retira o dispositivo da órbita regrada da formação didática. A psicanálise tem efeitos em toda prática do sujeito que a pratica, é um fato comprovado pela experiência, disso sabemos algo. Como reconhecer, esses efeitos, no lugar em que se engendram? “Como não ver que a supervisão se impõe desde o momento desses efeitos, antes de mais nada para proteger aquele que aí comparece na posição de paciente?” (Lacan, 1971).

Provavelmente já tivemos a experiência, em um momento qualquer, fazendo até mesmo coisas muito distantes do que poderia implicar a função analítica, lavar pratos, por exemplo, de sermos assaltados por uma espécie de rememoração de uma situação analítica, ou se nos impõe um paciente, seu nome, alguma coisa. É também um fato comprovado pela experiência que não podemos nos distrair disso à vontade, isso insiste. Também pode ocorrer que um afeto se imponha com relação a um paciente: aborrecimento, sonolência, fascinação, ternura. Na maioria das vezes pode surgir algo da ordem da angústia. Costumam ser esses os momentos em que se vai à supervisão. Isso se impõe, e demanda ser posto a trabalhar com algum outro. Põe o analista em posição analisante de seu caso, para tentar produzir algum saber sobre aquilo que se passa. Também existem as supervisões por imposição, mas isso é outra coisa.

Isso se impõe, costumam ser afetos, enredos fantasmáticos do analista na transferência, eclipsamentos sintomáticos por esses restos opacos que a análise deixou de saldo. Pontos cegos que, pelo momento em que o analista praticante está com relação a sua análise, ainda não foram tocados. Aqui, o moebiano da formação se faz notar, da supervisão à análise, à doutrina, e vice-versa.

Isso se impõe para proteger dos efeitos d’Isso aquele que está no lugar de paciente. Lacan dá um tratamento diferente à noção de contratransferência: afasta-a do eixo imaginário-simbólico impregnado pelos preconceitos que o analista tem com relação ao analisante e lhe dá o estatuto de “função desejo do analista”, que permite ler os fenômenos transferenciais em relação à função que fomos chamados a ocupar. Como diz Lacan em A lógica do fantasma: “a função do a interessa ao analista” porque o a, no caminho traçado de uma análise, é o analista. Conforme afirma o autor:

É porque o analista tem de ocupar a posição do a que de fato, para ele, a proposição levanta muito legitimamente a angústia que convém – se alguém se lembra do que afirmei sobre a angústia, que ela não é sem objeto. Aqui ela está ainda mais fundamentada no analista, que é convocado pela operação significante que é a análise a se encontrar no lugar desse objeto, e provocado a pelo menos se interessar em saber como o assume.

Retenho “é convocado” e sublinho “provocado a pelo menos se interessar em saber como o assume”. Qual saber se demanda em uma supervisão? Que operatória se põe em jogo para que o saber não obstrua o desejo do analista? O supervisor somente sabe que o único saber que a análise deixa de saldo é um saber acerca do inconsciente. Isso não pode mais que transmitir-se sem mediar sujeito, é um saber fazer, saber sem sujeito.

Isso se impõe. Quais são os fenômenos clínicos que têm essa estrutura? O primeiro que se impôs como resposta é “a alucinação auditiva, ou o fenômeno do automatismo mental”. No seminário que Lacan dedica às psicoses, diz que isso que se impõe é um significante que retorna no real e busca significação. Até Lacan, o fenômeno psicótico não era lido com um sintoma, não era efeito de linguagem.

O sintoma neurótico, formação do inconsciente, tampouco se reduz à simbolização, não há possibilidade de que seja todo decifrável, conserva um núcleo inefável, que se impõe, um real que não cessa de não se escrever. A repetição lida como o encontro com o tíquico é uma versão em que o isso se impõe, mostra sua cara de insistência. Nessa insistência, não há sujeito. Isso insiste mais além de si, embora nesse encontro o ser falante tem a possibilidade de fazer d’Isso um bom encontro.

Isso se impõe diz acerca do real, indecidível. Trata-se da vertente mais real do sintoma? A emergência da divisão subjetiva em sua relação obstaculizante para o ato analítico? Será trabalho da supervisão situar, em cada caso, a cada vez, que é Isso que se impõe e que faz obstáculo ao ato analítico. Por isso, entendo que é a partir de onde o supervisor responde à pergunta do supervisionante o que fará a diferença. Como dar a essa pergunta um valor analítico? Como deslocar a suposição de saber para que não obture o ato? O supervisionante traz uma mesma pergunta, sempre: “O que eu fiz?”. Às vezes é sobre o ato consumado que se impõe, às vezes é por saber-se inibido. Para dizê-lo de outro modo, por ter ficado sem respaldo.

Pôr o ato em posição de agente na supervisão implica fazer passar pelo furo do saber aquelas ressonâncias que permitam ao supervisionante uma posta em forma do desejo do analista, uma disponibilidade para o ato analítico. Pôr a trabalhar isso que se impõe implica ter no horizonte da prática o real da estrutura. Não se trata dos ideais, dos afetos contratransferenciais que permitiriam reeducar emocionalmente o paciente, mas de estabelecer as coordenadas, a partir disso que irrompe na direção de uma cura, para desalojar a pessoa do analista que faz obstáculo à função.

Não quero repetir a frase mais repetida nesses momentos: o analista é ao menos dois. Prefiro esse outro modo de dizê-lo, que encontrei em Colette Soler (1999-2000). Ela assinala que se não pensamos o ato analítico ali onde faz falta, falhamos com relação à psicanálise. Ora, se o pensamos onde não faz falta, também falhamos. Ela menciona em seguida que, para que a psicanálise sobreviva, devemos buscar os lugares convenientes para pensar o ato analítico – por fora da cura – e põe em série: o ensino, a supervisão, o passe. A supervisão é um lugar conveniente no ponto em que o analista se faz analisante de seu caso. O supervisor acompanha o supervisionante na tarefa de dar conta de um impossível: O que é um psicanalista?

Para terminar, tomo o dizer de um querido poeta patagônico:

pensar é um luxo

a que só podem se dar

os afogados…

Ao que agrego… o analista nada.

Tradução: Maria Laura Cury Silvestre

Bibliografía

LACAN, J. (1971) Ato de fundação. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. p. 241.

________. (1966-1967) O Seminário, Livro 14: A lógica do fantasma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2024. p. 132.

________. (1967-1968) O Seminário, Livro 15: O ato psicanalítico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2025.

SOLER, Colette. (1999-2000) Curso Colegio Clínico de Paris. La política del Acto. Ed. Ediciones de Foros Hispanohablantes del Campo Lacaniano de la IF-EPFCL.

________. (2009) El control, ¿cuál discurso? Intervención al Seminario Escuela del EPFCL- Francia. En Florilegio del Mensual. Ed. Asociación foro del Campo Lacaniano de Medellin.