Patrick Barillot
O título, entre fantasma e sintoma, supõe um movimento que se efetua de um ao outro em nossa concepção do fim da análise. Movimento que vai do fantasma ao sintoma. Essa trajetória não é unilateral, não percorre um caminho de sentido único. Proponho, portanto, completar esse movimento: do fantasma ao sintoma e inversamente. Essa precisão não é anódina; ela sinaliza desde já que o fim da análise não pode ser pensado como um trajeto linear, mas antes como uma dialética, um vai-e-vem necessário entre esses dois polos fundamentais da experiência analítica.
Foi a partir dos testemunhos do passe que essa interrogação sobre o deslizamento — ou melhor sobre essa oscilação entre fantasma e sintoma — me ocorreu. O exame atento desses testemunhos revela, de fato, um fenômeno um tanto surpreendente à luz da doutrina clássica: estes últimos enfatizam de modo privilegiado a resolução dos sintomas mais do que no desnudamento do fantasma fundamental, considerado por Lacan, durante muito tempo, como o critério principal da terminação de uma análise. Esta constatação clínica merece que nos detenhamos nela e a interroguemos, pois poderia indicar um deslocamento teórico, a ser questionado, em nossa concepção do que se espera de um testemunho do passe e de um fim de análise — dois momentos que convém distinguir.
O início da análise: do sintoma ao fantasma
Antes de abordar a questão do fim da análise, convém examinar seu ponto de partida, sua origem. O começo de toda análise nos ensina algo fundamental sobre sua própria estrutura e sobre o que a anima.
O ponto de partida da análise faz-se invariavelmente pelos sintomas. É certo, e a experiência clínica o confirma dia após dia, que o sujeito que vem à análise o faz com seus sintomas. Essas formações que o fazem sofrer e que ele põe em primeiro plano, que às vezes chega a exibir, como causa manifesta e evidente de seus sofrimentos. Esses sintomas ele os apresenta de imediato e os oferece ao olhar do analista. Constituem, por assim dizer, seu bilhete de entrada no dispositivo analítico.
Quanto aos seus fantasmas, o sujeito mostra-se infinitamente mais discreto, até francamente pudico. Essa reticência não é fortuita; ela testemunha uma posição subjetiva radicalmente diferente frente a essas duas formações do inconsciente. De fato, para o sujeito que empreende uma análise, seus sintomas são vividos e percebidos como vindos do Outro — esse Outro que lhe quer mal, que o impede de viver, que às vezes o persegue. O sujeito se coloca, assim, como vítima de seu sintoma, sofrendo uma aflição que lhe vem de fora. Em contrapartida, seus fantasmas inconfessáveis são sentidos como sendo bem seus, emanando de sua interioridade mais íntima, e constituem paradoxalmente uma fonte de satisfação, por mais culposa e secreta que seja. Essa satisfação fantasmática, por mais problemática que se revele, representa algo do qual o sujeito não quer facilmente se separar, exatamente porque lhe pertence em próprio e lhe proporciona um gozo que, embora inconsciente, não deixa de ser efetivo.
A conceitualização freudiana: continuidade causal
Em sua conceitualização pioneira do sintoma, Freud estabelece uma relação de causalidade direta e estrutural entre fantasma e sintoma. Faz do fantasma um precursor imediato do sintoma, um antecedente lógico e cronológico. Essa concepção teórica não é acessória no edifício freudiano; constitui um pilar central. Freud sublinha com insistência que o sintoma se organiza, se estrutura, toma forma em torno de um cenário inconsciente, um fantasma fundamental que fornece tanto sua estrutura profunda quanto seu sentido latente ao sintoma. O sintoma neurótico é assim concebido como uma formação de compromisso. É uma transação sempre instável entre um desejo recalcado que encontra seu suporte no fantasma e o eu (moi) que, em seu papel de instância defensiva, se opõe vigorosamente à realização desse desejo inaceitável.
Para Freud, existe, portanto, uma continuidade causal entre fantasma e sintoma. O fantasma desempenha o papel de matriz que determina a forma e o conteúdo do sintoma. Essa concepção implica que a interpretação do sintoma deve necessariamente passar pela reconstrução do fantasma que o sustenta. O trabalho analítico consiste então em remontar do sintoma manifesto ao fantasma latente, em desvelar essa cena inconsciente que organiza secretamente a vida psíquica do sujeito.
Uma pequena vinheta clínica: lembro-me de uma menina de 9 anos, verdadeiramente petrificada, paralisada pela angústia da ideia de deixar sua mãe partir, mesmo por alguns instantes, temendo obsessivamente que um infortúnio terrível lhe acontecesse durante sua ausência. Essa angústia de separação havia se tornado tão invasiva que a seguia literalmente por onde quer que fosse, recusando-se a ir à escola. Esse sintoma fóbico, manifestamente invalidante para a criança e para a família, persistia há vários meses quando ela chegou à consulta.
O trabalho analítico permitiu descobrir que, precedendo o aparecimento desse sintoma angustiante, lhe havia ocorrido, em reação a uma frustração que atribuía à mãe — uma interdição banal em aparência, mas vivida como uma injustiça insuportável —, a ideia de cortá-la em rodelas, exatamente como se fatiaria um vulgar salame. Esse fantasma terrível, esse desejo de aniquilamento completo do Outro materno, foi imediatamente recalcado com uma violência proporcional ao seu conteúdo insuportável e deu origem ao sintoma fóbico. A angústia de perder a mãe mascarava, por reversão, o desejo agressivo de destruí-la. O sintoma aparecia como a solução de compromisso permitindo ao mesmo tempo conservar o objeto materno e manter recalcado o fantasma homicida. Esse exemplo clínico ilustra a concepção freudiana da continuidade causal entre fantasma e sintoma.
Do desejo inconsciente ao fantasma fundamental
No início da psicanálise, nas primeiras elaborações teóricas e em sua prática inaugural, tratava-se essencialmente de interpretar o desejo inconsciente do sujeito, de trazê-lo à luz, de fazê-lo advir na palavra. Mas muito depressa, Freud se defrontou com uma dificuldade maior: esse desejo não pode ser apanhado diretamente, tal como um furão no jogo infantil, ele não cessa de se furtar, de escapar entre os dedos da interpretação. Além disso, esse desejo inconsciente, por definição, não pode se dizer enquanto tal; resiste a toda formulação direta, a toda apreensão imediata pela linguagem.
É, portanto, no fantasma, enquanto suporte, mise-en-scène, cenário desse desejo inescrutável, que a psicanálise se interessou de modo privilegiado para tentar situá-lo, circunscrevê-lo, dar-lhe contorno e formulação. O fantasma torna-se assim o objeto central do trabalho analítico, porque é através dele que o desejo inconsciente pode ser aproximado, ainda que não possa jamais ser totalmente circunscrito ou esgotado pela análise.
A contribuição lacaniana: o axioma do fantasma
Na mesma época em que sua célebre “Proposição sobre o psicanalista da Escola” de 1967, texto fundador que visava repensar a formação dos analistas e o fim da análise, Lacan afirmava com vigor que o valor essencial da psicanálise, aquilo que constituía sua especificidade e eficácia própria, era operar sobre o fantasma. Insistia no fato de que esse fantasma dava seu enquadramento à realidade do sujeito, constituía em certo sentido os óculos pelos quais o sujeito percebia o mundo e organizava sua experiência.
Freud, em seus desenvolvimentos teóricos posteriores, qualificou essa operação analítica de construção do fantasma. Tratava-se para ele de reconstruir, peça por peça, a partir dos fragmentos dispersos fornecidos pelas associações do paciente, a cena fantasmática fundamental que organizava sua vida psíquica.
Lacan, num avanço teórico que marca uma ruptura epistemológica, falará do axioma do fantasma. Essa qualificação não é sem consequência. Em matemática e na lógica, um axioma é uma proposição primeira, indemonstrável, que não pode ser deduzida de qualquer outra proposição e que serve de fundamento a um sistema. Lacan exprime esse fantasma sob sua forma algorítmica, numa escrita formalizada que ele escreve S barrado punção pequeno a ($ ◊ a), o qual necessita ser evidenciado no trabalho analítico, e até atravessado em sua operação última.
Se ele o qualifica de axioma, é porque o fantasma é uma frase — e aqui há uma tese fundamental de Freud que Lacan retoma e desenvolve — dotada de uma significação como toda frase da linguagem. Mas essa significação se caracteriza por uma particularidade essencial: ela é “absoluta”, isto é, constante, fixa, invariável. O fantasma se apresenta então como uma constante de gozo, um ponto fixo em torno do qual se organiza toda a economia libidinal do sujeito, e que Lacan qualifica como real para o sujeito. Com seu sentido fixo, estático, cristalizado, como ilustra o exemplo clínico mais conhecido “uma criança é batida” — o fantasma não está para ser interpretado em rigor.
É certo que é preciso interpretação para construí-lo progressivamente, para trazê-lo à luz através da decifração do material clínico, mas em si mesmo, uma vez construído e desvelado, não tem um sentido oculto, uma significação latente que permaneceria a descobrir, já que sua significação é “absoluta”, completa, definitiva. Isso o distingue radicalmente do sintoma que, por sua vez, convoca a interpretação, pede para ser decifrado e sempre contém um sentido outro daquele que se dá imediatamente a ver.
Lacan faz do fantasma uma significação fixa, cristalizada e imutável, ao contrário da significação móvel, fluida e deslizante do sintoma. Essa oposição entre a fixidez do fantasma e a mobilidade do sintoma é crucial para compreender as modalidades distintas de seu tratamento na cura.
Fantasma e sintoma: distinções estruturais
Em outras palavras, como Lacan desenvolve em seu “Resumo da lógica do fantasma”, no nível epistemológico da interpretação analítica, o fantasma, por ser uma constante, “se distingue das leis de dedução variáveis que especificam em cada estrutura clínica a redução progressiva dos sintomas”. Essa formulação densa merece que nos detenhamos nela. De fato, o fantasma não é próprio de uma estrutura particular. O neurótico o toma emprestado do perverso; ele não é criador de seu fantasma, mas o herda dessa estrutura perversa que habita o inconsciente.
O fantasma é, portanto, transestrutural, atravessa e transcende as diferentes estruturas clínicas; enquanto o sintoma é específico de uma dada estrutura, característico de uma organização psíquica particular. Assim, existem sintomas-tipo, característicos e reconhecíveis da fobia (a angústia frente a um objeto ou situação específica); da neurose obsessiva (os rituais, os pensamentos compulsivos). A histeria é diferente, pois os sintomas variam com a época, mas sua estrutura é idêntica, a saber que a histérica se identifica ao significante da falta no Outro. Existem, portanto, sintomas-tipo, sem que haja, contudo, fantasma-tipo de uma estrutura. O fantasma do fetichista pode ser encontrado na histérica, o do voyeur no obsessivo. Essa transversalidade do fantasma através das estruturas é um ponto fundamental da teoria lacaniana.
O matema do fantasma: $ ◊ a
O fantasma, como enquadramento estruturante, conferindo sua realidade ao sujeito e organizando sua relação com o mundo, é impossível de mover, modificar, fazer vacilar, salvo — como Lacan diz em uma formulação que abre uma possibilidade — “a margem deixada pela possibilidade de exteriorização do objeto a”. E acrescento que é precisamente nisso que consiste a operação analítica propriamente dita. Essa exteriorização do objeto a constitui o cerne do processo analítico em sua fase terminal.
Não se deve deixar de ver, e esse é um ponto técnico essencial para compreender o matema, que essa frase no matema do fantasma ($ ◊ a), essa fórmula que pode parecer abstrata, deve ser colocada do lado do sujeito barrado ($). Situa-se do lado de $ na medida em que o engendra, o constitui em sua divisão mesma. A esse sujeito dividido, barrado pelo significante, vem se adjuntar o objeto a, objeto paradoxal que não é um objeto do mundo, mas o objeto causa do desejo. Esse pequeno a, no matema, simboliza a falta constitutiva do sujeito, essa perda originária em torno da qual se estrutura o desejo. Vem em posição de causa quanto ao desejo, em posição de operador da dinâmica desejante.
De modo que, no fantasma paradigmático “uma criança é batida”, retomando esse exemplo freudiano canônico, a presença do objeto a não é, de modo algum, a da criança batida em si, como uma leitura apressada poderia levar a crer. A frase “uma criança é batida” se coloca do lado do sujeito no matema do fantasma. O objeto a é esse objeto que sobrevoa a cena fantasmática, que a organiza a partir de uma posição meta, a saber, o olhar — esse olhar que vê sem ser visto. É esse olhar como objeto a que convém exteriorizar no trabalho analítico, separando-o da cena fantasmática para que esta possa vacilar.
A travessia do fantasma e seus limites
É exatamente isso que indica a “Proposição de 67 sobre o psicanalista da Escola” com o fim da análise, concebida como travessia do fantasma e a apercepção, a intuição fulgurante do que o sujeito é enquanto objeto, esse “em-si do objeto a” que resta, por definição, impossível de dizer, impossível de formular na linguagem, resíduo real da operação significante.
A percepção da falta que o constitui em seu ser mesmo, momento em que o sujeito apreende sua equivalência ao objeto a, sua redução a ser apenas esse objeto causa do desejo do Outro, configura aquilo que nomeamos destituição subjetiva, termo que marca a queda das identificações imaginárias e simbólicas. Contudo, essa travessia do fantasma não implica, e isso é um ponto frequentemente mal compreendido, a supressão pura e simples do fantasma. O fantasma não desaparece; não se esvai como por encanto no momento de sua travessia.
O que vacila, em contrapartida, o que perde sua consistência e sua evidência é a certeza que o sujeito tinha neste fantasma de um possível vínculo harmonioso e complementar com o objeto de sua eleição, às vezes sexual. Pois o fantasma, em sua função essencial, opera como suplência à inexistência da relação sexual, a essa impossibilidade estrutural de haver um vínculo harmonioso e pré-estabelecido entre os sexos. O fantasma mantém o sujeito no engano da díade do casal, na ilusão de que poderia se completar perfeitamente com o objeto de seu fantasma, fazer um dois onde não há senão um dividido. Essa certeza fantasmática de uma realidade que de fato é apenas fantasmática, essa crença na possibilidade de complementaridade, vacila durante a travessia. Essa vacilação fundamental, que se percebe e que se revela em toda sua crueza é o real do não-relacionamento, o impossível da relação sexual, o real do simbólico próprio da psicanálise.
Esse real não é o da ciência, mas aquele que se deduz da própria estrutura da linguagem. O fantasma, pela instauração de um objeto parceiro que viria preencher a falta, tenta precisamente compensar, mascarar e velar esse impossível radical. Por essa operação de travessia, o sujeito ganha em saber. Adquire um saber sobre seu fantasma, sobre seu modo de gozar, sobre o que o animava a seu insabido. Mas, a partir desse saber recém-adquirido, assegurado pela passagem através do fantasma, espera-se que o analisando saiba agora adotar uma conduta frente a esse real desvelado. E essas condutas possíveis são plurais, múltiplas, não predeterminadas.
Mais de uma, como Lacan diz em “O Aturdito”, condutas que devem contemplar as três dimensões do impossível que incidem sobre o sexo (o impossível da relação sexual); o sentido (o impossível de um sentido último, derradeiro) e a significação (o impossível de uma significação total, completa). Falar de uma escolha de conduta frente a esses impossíveis implica, pois, necessariamente, a posição ética do analisante, uma responsabilidade subjetiva diante do real desvelado, uma vez que essa conduta não é programada, prescrita, determinada pela análise propriamente dita. A análise não dita ao sujeito como deve viver; confronta-o com um real e o deixa livre para escolher sua posição frente a esse real. Essa dimensão ética da escolha é fundamental.
O resto sintomático: para além do fantasma
Mas esse ganho de saber sobre o fantasma, ganho que vai ao encontro de uma redução significativa e às vezes espetacular do sofrimento sintomático, deixa, no entanto (e é aqui que as coisas se complicam) subsistir um sujeito dividido. De um lado ele permanece dividido pelo objeto — essa divisão é estrutural e irremediável — e, de outro, por um resto de gozo não decifrado, não interpretável, que persiste no sintoma. Chega-se aqui ao limite dos meios do inconsciente-linguagem sob transferência e da interpretação do sintoma tomado como metáfora, tal como descrito em “A instância da letra no inconsciente”. É exatamente nesse ponto de tropeço que a verdade e o sentido encontram seu ponto de chegada, seu limite intransponível.
Em 1975, no seminário RSI, Lacan é bastante radical e provocador em sua formulação quando afirma que “o que nisso será de mais eficaz” — falando do trabalho de interpretação com sua instância da letra, da metáfora e do sentido — “não fará melhor do que deslocar o sintoma”, fazê-lo migrar de um lugar a outro sem reduzi-lo realmente, “ou até, como eu disse, multiplicá-lo”, produzir novos sintomas em lugar dos antigos. Essa afirmação sinaliza uma ruptura importante com o otimismo terapêutico dos primórdios da psicanálise.
Após a travessia do fantasma, operação que marca indubitavelmente uma virada decisiva na cura, subsiste, portanto, o sintoma fundamental, a ser distinguido dos sintomas de entrada na análise. Esse sintoma residual, irredutível, adverte o psicanalista, sinaliza e o faz lembrar da divisão permanente do sujeito, divisão estrutural que o psicanalista tem de tratar, de assumir em sua prática, como Lacan diz explicitamente em Radiofonia.
Rumo a um novo inconsciente: da metáfora à letra
Com a passagem conceitual, a guinada teórica maior de um inconsciente-desejo, inconsciente-linguagem estruturado como uma linguagem, para um inconsciente real que cifra o gozo do corpo segundo modalidades que escapam ao sentido, o sintoma toma outra definição, adquire novo estatuto teórico. O sintoma, como sinal, como indício dessa divisão irremediável do sujeito, passa a receber uma nova definição que nos permite entrever um fim da análise que vá além do impasse da verdade mentirosa. Pois a verdade, como ensina Lacan, tem estrutura de ficção — um fim que vá além do que o fim com o saber sobre o fantasma comportava de didático (a formação do analista) e de terapêutico (a redução dos sintomas).
Fazendo do sintoma um gozo que se inscreve e se fixa numa letra do inconsciente — letra no sentido literal do termo —, Lacan estabelece uma ruptura franca, em descontinuidade com sua doutrina anterior do sintoma como metáfora, ou seja, um sintoma em ligação direta com a verdade do sujeito sobre seu desejo e seu fantasma. Essa concepção precedente do sintoma como metáfora implicava que se podia decifrá-lo, traduzi-lo e extrair-lhe um sentido oculto que, uma vez revelado, permitiria sua dissolução. Essa letra sintomática, essa inscrição de gozo, não é produtora de sentido por si mesma, ao contrário da metáfora que, por definição, produz uma significação nova por substituição. E é justamente por seu caráter fora de sentido, por sua opacidade ao sentido, que ela chama o sentido, que suscita incessantemente a produção de sentido. É exatamente isso que fazemos quando interpretamos o sintoma do analisando: ao dar-lhe um sentido, metamorfoseamo-lo, tentamos reinseri-lo na ordem do sentido quando ele não procede dessa ordem. Mas essa operação, por mais necessária que seja em certos momentos da cura, não toca no real do sintoma.
Com o sintoma redefinido como fixão de gozo — termo lacaniano que aglutina fixação e ficção —, situamo-nos no registro do inconsciente real, radicalmente diferente do inconsciente-linguagem. Esse inconsciente real é um saber sem sujeito da enunciação, um saber que se inscreve no corpo. Os elementos desse saber inconsciente real não representam o sujeito, como faziam os significantes no inconsciente simbólico, mas determinam diretamente, causalmente, seu gozo corporal, seu modo singular de gozar.
O sintoma, desde então, não é mais do sujeito no sentido em que não decorre mais de sua história, de sua biografia, de seu mito individual. É um real antinômico a toda verossimilhança, como diz Lacan, heterodoxo, estranho à verdade biográfica do sujeito, ao seu romance familiar. O sintoma como real não tem outro sentido senão ele mesmo; é opaco, irredutível ou quase.
Ruptura causal: fantasma e sintoma dissociados
Com tal definição renovada do sintoma, creio — e é esse o ponto teórico que desejo sublinhar — que se instaura aqui uma ruptura fundamental entre fantasma e sintoma. Onde Freud situava uma continuidade causal entre fantasma e sintoma, o sintoma como fixiōn de gozo rompe com a continuidade causal estabelecida por Freud. Não há mais causalidade entre o fantasma — que é próprio do sujeito, que lhe pertence, que estrutura sua relação com o mundo e com o objeto — e o sintoma, que não é mais, que já não faz parte da mesma lógica, do mesmo registro. Essa ruptura teórica não é sem consequências para nossa concepção do fim da análise e do tratamento possível do sintoma.
O fantasma mantém o sujeito em uma relação determinada com o sentido, a significação e o desejo. Já o sintoma, como real, escapa a essa dimensão do sentido, ao mesmo tempo em que produz efeitos de gozo. Essa dissociação entre o fantasma e o sintoma obriga a repensar o fim da análise e os critérios que o definem.
Os testemunhos de passe: clínica da conclusão
<br> Esses desenvolvimentos teóricos tardios sobre o fim da análise e essas elaborações finais de Lacan sobre o sintoma como real, nós os trabalhamos em nossos seminários e cartéis. Eles foram incorporados, integrados à nossa doxa, ao nosso corpus teórico comum e, naturalmente, logicamente, os testemunhos contemporâneos do passe estão impregnados por eles e refletem essa evolução conceitual. Os passantes evocam espontaneamente esses conceitos, usam esse vocabulário e referem-se a essa teoria do sintoma como real.
Frequentemente, é preciso constatar que são mais depoimentos sobre o término da análise, do o momento em que a análise chegou ao fim, do que sobre a virada do passe propriamente dita, esse momento específico em que o sujeito passa de analisante a analista. Existe uma lógica, uma razão estrutural para que a dimensão do sintoma ocupe amplamente a cena do testemunho e ofusque um pouco esse momento crucial da travessia do fantasma. Essa predominância do sintoma se explica simplesmente: os passantes geralmente já terminaram a análise há algum tempo; às vezes vários anos, quando dão seu testemunho. Eles testemunham, portanto, retrospectivamente, com a perspectiva do tempo; e o que lhes parece mais marcante em seu fim de análise é, frequentemente, a modificação na relação com seu sintoma, mais do que o momento efêmero da travessia do fantasma.
Identificação do sintoma: saber fazer aí
<br> Quando a análise foi levada suficientemente longe, até seu término — quando ultrapassou o momento da queda do sujeito suposto saber (momento que marca a dissolução do transferencial em sua dimensão imaginária) e a travessia do fantasma —, atingindo o fim pela impossibilidade de saber, pela confrontação com a opacidade irredutível do gozo do sintoma, falamos então de identificação com o sintoma ou, segundo outra expressão equivalente, de saber fazer aí com seu sintoma. Essas expressões, comuns no vocabulário lacaniano contemporâneo, designam a posição do sujeito em relação ao real do sintoma no fim da análise.
Esse real do sintoma é diferente do real próprio do simbólico em suas três dimensões do impossível já citadas: o impossível do sexo (não há relação sexual), o impossível do sentido (não há sentido último) e o impossível da significação (não há significação total). Essas três impossibilidades, essas três dimensões do real no simbólico, são as que se revelam na travessia do fantasma, que o passe supõe como momento lógico necessário. Em relação a esses impossíveis estruturais, o analisante, ao término da travessia, fixou uma conduta, escolheu uma posição ética que lhe permite viver com esses impossíveis sem ficar paralisado.
Mas reconhecer, identificar e delimitar a ausência de sentido de seu sintoma — sua opacidade radical para o sentido e a interpretação — não é tudo no fim da análise, nem esgota a questão do que constitui o fim nos casos, relativamente raros, em que a análise chega até esse ponto último de confronto com o real. Muitas análises terminam antes disso, e isso é legítimo, pois nem todos os sujeitos almejam, podem ou precisam chegar até esse extremo.
A escolha ética diante do sintoma
<br> Se o sujeito não escolhe nem decide sua fixação de gozo — esse modo de gozar que lhe é próprio e que lhe é imposto, ditado pelo inconsciente — ele ainda mantém, apesar de tudo, uma escolha, uma margem de liberdade na posição que toma perante essa fixação.O que determina essa escolha? Quais são os fatores que influenciam essa decisão?<br>Assim como no caso anterior da escolha da conduta diante dos impossíveis do real <br>no simbólico, temos aqui uma escolha ética do sujeito: uma decisão que envolve sua responsabilidade subjetiva, como toda escolha em relação ao gozo. Ninguém pode decidir pelo sujeito; o analista não prescreve, não aconselha, não conduz essa escolha. Ele deixa o sujeito diante de sua responsabilidade.
Essa posição ética diante do sintoma como real, como não conectá-la, articulá-la e relacioná-la a esse outro gozo — o do Sentido, para usar a expressão lacaniana —, que seu fantasma lhe proporciona e que oferece o quadro estável, a cenografia permanente de sua realidade subjetiva? Existe necessariamente uma articulação, um vínculo, uma dialética entre essas duas dimensões do gozo: o gozo opaco do sintoma e o que chamarei de gozo significante do fantasma.
A articulação final: fantasma e sintoma
<br> A questão essencial que se coloca é a articulação entre a posição do sujeito diante do impossível saber do gozo opaco do sintoma e o fantasma no fim da análise. Como pensar essas duas dimensões juntas? Como articular aquilo que parecia dissociado?
Afirmar que o fantasma desapareceu, que se evaporou, que foi abolido pela travessia, quando sem ele não há desejo que se sustente, que possa manter-se no tempo, é pura ilusão.
É desconhecer a função essencial e insubstituível do fantasma na economia libidinal do sujeito. O fantasma não desaparece; permanece, mas em uma relação modificada com o sujeito. O sujeito não acredita nele da mesma forma, não é mais enganado por ele, mas ele continua a operar, a cumprir sua função de sustentação do desejo.
Os analistas — aqueles que atravessaram o passe clínico e ocupam agora essa posição particular de analista — supõe-se que estejam animados por esse desejo novo, radicalmente diferente de qualquer outro desejo: o desejo do analista. É um desejo que suspende o desejo da pessoa do analista e seu fantasma por meio de uma operação que prescinde do fantasma. O desejo do analista não é, portanto, o desejo da pessoa analista. E esse desejo não pode ser interpretado, pois não é orientado por um fantasma nem por uma demanda. É o que Freud aproximou com sua noção de neutralidade, que suspende todas as normas e não toma partido quanto a elas.
Mesmo animados por esse desejo sem fantasma, a relação dos analistas com a variedade de seus sintomas singulares — seus modos particulares de gozar — inclui necessariamente seu desejo próprio, que se apoia no fantasma, e o quadro inamovível, imutável do fantasma que estrutura esse desejo.
Multiplicidade de condutas no laço social
<br> Assim, no domínio social, na inserção no laço social, nos compromissos profissionais, políticos e associativos, suas condutas são múltiplas, diversas, variadas, e não cessam de surpreender, até chocar as gerações mais jovens de analisantes que, num movimento de idealização do analista e da figura do analista, se perguntam perplexos, e até desapontados, como tal ou qual analista reconhecido e autorizado pode se comportar de um modo tão distante do ideal que eles fazem da posição analítica.
É perder de vista, é desconhecer que a escolha ética na identificação com o sintoma, nesse momento terminal em que ocorre — e não é sempre o caso, pois nem todos os analistas chegam a esse ponto de identificação com seu sintoma — pertence a uma modalidade singular, única, não universalizável, de inserção no vínculo social. Essa modalidade inclui necessariamente o que o fantasma tem de permanente como estrutura, assim como o saber adquirido com a sua travessia, o saber do que constitui o quadro para o sujeito.
O fim da análise não produz, portanto, sujeitos padronizados, formatados, idênticos. Ao contrário, produz sujeitos singulares que encontraram, cada um à sua maneira, seu estilo particular de lidar com o impossível da relação sexual, com a opacidade do seu sintoma e com o gozo que os habita. Essa multiplicidade de soluções, essa diversidade de possíveis resultados da análise é a marca do seu sucesso. Testemunha que a análise não é um adestramento, uma formatação, uma normalização, mas uma experiência que conduz cada sujeito à sua singularidade.
Paris, 31 de outubro de 2025.
Tradução: Tatiana Assadi

